“O dia em que fui mulher no Facebook”, de José Pires

Este post me fez chorar:  http://paragrafo2.com.br/2015/11/05/o-dia-em-que-fui-mulher-no-face-book/

Uma mulher que eu não conhecia chamada Lia Ferreira me adicionou a um grupo, algo que em geral eu sou contra, mas desta vez eu gostei. Tenho evitado ficar online no Facebook, mas vou tentar ficar acordada até mais tarde hoje, pra passar um tempo vendo as postagens do Grupo de Debates ou Seja e poder desfrutar do doce sentimento de que existe vida inteligente… que é o oposto do que se sente quando se lê caixas de comentários de portais grandes. Eu sei que é tortura, mas costumo ler pra saber o tipo de argumento que as pessoas usam.

Nesse grupo encontrei esse post de José Pires, que conta como foi a experiência de passar uns dias tendo um perfil de mulher bonita no Facebook. Bonita, não era nem provocante ou safadinha, era só bonita. E mesmo assim ele teve que lidar com uma enxurrada de cantadas, das leves às grosseiras, recebeu foto de pau.

“Diante dessa experiência dantesca imagino o que passam as mulheres diariamente no mundo virtual (nem falarei aqui do assédio diário no mundo real). Imagino como é ter que lidar com pintos brotando via inbox todos os dias. O que havia naquele perfil para que fosse encarado como uma oportunidade de sexo fácil? Como alguém acredita que um cacete via inbox vai enlouquecer uma mulher a ponto de ela largar tudo e ir correndo para uma tórrida tarde de sexo? Quando nos tornamos imbecis a ponto de crer que nossas cantadas são infalíveis e que as mulheres precisam reconhecer isso?”

Quando os homens se tornaram imbecis? Sem querer ofender os que não são imbecis, mas o padrão histórico-geral é de ser imbecil. A maioria das culturas é machista, trata a mulher como objeto, tem a agressividade e orgulho como alguns dos principais valores do que é ser homem de verdade.

Agressividade e orgulho. Muito orgulho. Muita imbecilidade. Querem ver? Vejam qual é a reação geral e imediata quando as mulheres começam a reclamar de cantadas. “Qual o problema? Isso é coisa de mulher mal amada. Isso é coisa de sapatão. Um homem não pode mais dizer que uma mulher é bonita e gostosa? Um homem não pode se expressar? Por que um homem não pode fazer uma abordagem? Isso é coisa que as ONGs tentam enfiar na cabeça das mulheres, mas as ONGs têm corrupção, outros interesses, e não têm um TCU para serem investigadas (juro, li uma dessas). Não gostou da cantada? É só não responder. Ah, quando o homem é bonito a mulher não reclama”. É nesse nível.

Em vez dos imbecis tentarem entender por que as mulheres estão reclamando, por que há tantas reclamando, tentar fazer um exercício de empatia e se imaginar uma mulher tendo que lidar com mensagens que a tratam como um pedaço de carne, uma buceta ou um cu pra foder, uma boca pra enfiar o pau, imaginar o que é caminhar na rua tendo que receber olhares ou comentários que significam isso “te vejo como um pedaço de carne pra eu usar”, tendo que tomar cuidado para não andar em lugares isolados, em que há risco de ser atacada e estuprada. Tendo que ouvir em silêncio qualquer absurdo, ou então responder e ser xingada, ou ameaçada de agressão. Ou não estar dentro do padrão de beleza e ser xingada por desconhecidos, gente que se acha no direito de caçoar do seu cabelo, da sua pele.

Vocês sabem por que acontecem tantos abusos, não? É a mistura de não ver o outro como um ser humano, mais a certeza da impunidade. Veja se um homem vai tirar sarro de um negro alto e forte, de quem pode facilmente receber um soco. Mas muitos se sentem totalmente no direito de falar os maiores desaforos do cabelo de uma mulher negra que não se sujeita ao alisamento, porque sabem que não vai apanhar.

Obrigada, José Pires. Do fundo do coração, obrigada. Nesse mar de lama de comentários imbecis, agressivos, orgulhosos, é uma luz no coração ver um homem capaz de olhar para as mulheres com igualdade e demonstrar solidariedade pelo que sofremos por causa do machismo.