O absurdo da morte

eu estou em férias, então não deveria estar aqui. mas.

só precisava.

um pouco.

durante o dia podemos falar e depois mudar de assunto pra não ficar com aquela cara de cemitério, ainda que seja esse o caso. Mas quando chega de noite, a consternação volta.

Que pessoas com bastante idade, ou com doenças graves morram, a gente entende. É doído, bem doído, mas faz um pouco de sentido. A idade um pouco mais, as doenças menos, ainda mais quando é com alguém jovem, mas ainda assim você sabe que existem doenças graves.

Mas e quando pessoas jovens e que pareciam não ter doença nenhuma morrem de repente? Acidente de carro. Raio. Infarto fulminante. Assassinato.

Quando fico sabendo que tal pessoa morreu, alguém com quem conversei, que olhei nos olhos, ri com a pessoa… fico tentando relembrar cada detalhe do último encontro e por mais que procure, nunca consigo encontrar um indício de que ela ia morrer.

que sorte a minha. Dizem que há gente que consegue ver essas coisas. Deve ser horrível. Felizmente não é o meu caso. Penso nas pessoas que conheci e que morreram de forma tão inesperada, e sei que não havia nada, nada nada nada, que indicasse isso.

é só a loucura de pensar que nunca mais verei aquela pessoa.

Nunca perdi alguém próximo desse jeito absurdo. Minhas piores perdas foram dos meus avós, e eles eram dois velhinhos com doenças crônicas.

Mas ontem morreu um rapaz que não era meu amigo, ele era irmão de uma amiga querida, e da última vez que a vi fiquei um tempo papeando com ele, e ele estava tão bem, tão feliz, tudo dando tão certo que parece sadismo divino. Parece que é só pra aumentar o absurdo de um infarto fulminante em alguém com menos de 40 anos.

Edmar, não éramos amigos. Mas estou aqui chorando por você, pela Rosa, pela sua mãe, pela sua noiva, pelos seus amigos… Pelo absurdo. E eu só posso ir pra Limeira na semana que vem. Mas irei, pra beber você, pra chorar com a sua irmã.

Por que você tinha que morrer quando finalmente tudo estava tão bom? É só mais uma prova do quanto a vida não faz sentido algum. Não há sentido algum.