Nova York – parte 1

Love you

Nunca pesquisei mais a fundo, mas Jonathan Franzen disse que tinha a ver com o 11 de setembro. Eu achava chique as pessoas que podiam falar o que estavam fazendo quando souberam que o presidente Kennedy foi baleado ou quando o homem pisou na lua. Eu não era nascida em 1963 ou em 1969, mas em 2001 eu já trabalhava. Faço parte do grupo que pode falar o que estava fazendo quando soube do ataque às torres gêmeas. Trabalhava na Publifolha, na época que ficava na Vieira de Carvalho. Meu amigo falou “você viu? Nova York está bombando”, e fomos até a sala de reuniões, que tinha uma televisão, e vi as imagens. Uns anos atrás vi fotos das pessoas cobertas de cinzas, andando como zumbis, e isso traz um valor a mais pra essa cidade, é inevitável, dolorido e ao mesmo tempo há um sabor a mais em saber dessa cicatriz. Não há nada visível, mas se Franzen está certo, é uma das cicatrizes mais bonitas que uma cidade ou um país pode ter.

Franzen acha que após o 11 de setembro tornou-se muito mais comum as pessoas terminarem uma ligação com “Love you”. “Bye, love you”. Não “I love you”, e sim o “love you”.

Talvez o certo fosse eu pegar o livro – provavelmente é no “Como ficar sozinho”, mas não desta vez, mesmo correndo o risco de citar errado vou falar dessa lembrança. A ideia de que um evento tão traumático numa cidade tão improvável e icônica trouxe uma mudança na alma das pessoas. A vontade de se falar com mais frequência, várias vezes “amo você” – a consciência aguda da fragilidade da vida, do quanto você não sabe se vai ter outra oportunidade pra falar isso.

 

— x — x

Triplo thank you

Dos 8 dias na cidade, 6 fui passarinhar no Central Park. Num desses dias, já voltando pro hotel, uma moça bonita, cara de indiana, de bicicleta e capacete pediu pra eu tirar uma foto dela (algo bem comum… durante a viagem, umas 8 pessoas me pararam e pediram pra tirar fotos, mesmo eu não tendo nenhuma aura de simpatia). Quando fui atravessar a avenida (ainda dentro do Central Park), o sinal estava verde pra pedestres, mas vi dois ciclistas descendo. É bem mais fácil eu esperar do que eles brecarem, então parei de atravessar, eles passaram e gritaram “thank you!”, “thank you!”, e logo em seguida passou a moça indiana que também gritou “thank you!”.

A primeira vez que fui pra Nova York foi em 2005. As pessoas falavam sobre a arrogância dos americanos, algo que nunca senti. Em 2005 ainda se andava com guias em papel, lembro de estarmos numa esquina olhando um mapa, um homem parou e perguntou se a gente precisava de ajuda. No metrô eu via as pessoas se levantando pra dar lugar pros mais velhos sentarem e, mesmo nessa viagem, um homem (da minha idade), deu o lugar dele pra mim, para que eu pudesse ficar sentada do lado do Daniel. Em São Francisco teve a tal história do casal que puxou papo com a gente e nos pagou bebidas, dentro dos parques todo mundo é um poço de simpatia, você topa com alguém numa trilha, olha pra pessoa, sorri, fala oi. Mesmo dentro do Central Park na época dos migrantes, quando o parque fica cheio de birdwatchers as pessoas se tratam como amigos. Em 2010 eu estava lá sozinha, vendo um miniguia, um homem sentou do meu lado, sorriu, pegou o miniguia da minha mão com delicadeza e começou a me apontar que espécies já tinham chegado (não era cantada, ele era gay, daqueles que depois você encontra e uma colega diz “she pictured a Blackburnian!”, “oh! I can’t believe! I was starting to like you, but now I hate you – you know birdwatchers are very competitive”. Em Las Vegas na final mundial de poker – vocês sabem como torcida brasileira pode ser um saco – os brasileiros enchendo, provocando, alguns americanos bem irritados. Num dos momentos eles contra-atacaram com gritos de “USA! USA!”, mas só funcionou a primeira vez. Quando tentaram puxar de novo o coro, não houve adesão. Achei que as pessoas se sentiram envergonhadas e não queriam bancar os arrogantes.

Eu sei que tem um monte de americanos filhos-da-puta e que minhas experiências são as pequenas bolhas de civilidade. Sei que tem muita violência, estupros, racismo, xenofobia, injustiças diversas.

E teve o Trump.

Mas o que eu sinto pelos Estados Unidos? O que me inunda quando penso nas minhas lembranças e referências culturais sobre os Estados Unidos?

Só amor. Amor, gentileza, mundo que deu certo.

—- x —- x

Algumas das placas no Central Park:

—- x —- x

No Cooper Hewitt Smithsonian

— x — x

Fotos do 11 de setembro, da internet: