Nova York, Berlim, Montreal — quem se importa

Um dos presentes da viagem é o foda-se as aparências.

Quero dizer: uma coisa é você saber que as pessoas dão uma importância exagerada pra corpo sarado, pele, cabelo, roupas, carro. Outra é andar por lugares em que você sente um grande “fodam-se os padrões de beleza”.

Andar por Nova York traz essa sensação de tanta diversidade de pele, cabelo, formatos de corpos, roupas. E, nesses lugares turísticos, está todo mudo tão sorridente, tirando selfies, curtindo. Felizes.

Falei disso pra uma amiga, que comentou de uma vez em Berlim: passou uma senhora de mais de 70 anos com o cabelo pintado de roxo. Ela pensou “nossa…”, e depois de um tempo topou com outra senhora de cabelo bem colorido. E ela pensou “nossa, eu. Como eu sou besta de ficar reparando”. E falou que teve essa sensação de liberdade, de faço o que quiser, e que adoraria morar um tempo em Berlim.

Conversando com outra amiga, falando dessa sensação boa em Nova York, ela contou que sentiu o mesmo em Montreal (acho que era Montreal. Sei que ela foi pro Canadá nas férias, e falávamos “Canadá”, mas suponho que nesse momento ela estava falando de Montreal). Sobre conversar com um amiga que está lá faz anos, e que não precisa mais se importar com aparência. Em ser magra, em não ter rugas. Ela falou “eu posso ser apenas eu, e ninguém me julga pela minha aparência”.

É claro que as pessoas julgam pelas aparências, falei várias vezes, é instantâneo, inevitável, e qualquer ser vivo faz isso. Mas acho que podemos pensar que nas sociedades mais evoluídas, há uma grande quantidade de pessoas que aprendeu a julgar as pessoas de forma mais inteligente: elas sabem que estar bem ou mal vestido não torna alguém pior ou melhor. Em Nova York por exemplo, há muitos restaurantes caros que vão atender do mesmo jeito o casal com homem de paletó, mulher de vestido e salto alto, ou o casal de bermuda e papete. (Tenta isso no Jardins, em São Paulo. Eu já tentei. Éramos ignorados pelos garçons).

Nas sociedades mais evoluídas a mulher não precisa ser sexy ou ter um determinado tipo de corpo. Uns anos atrás em Foz do Iguaçu reparei em casais alemães, várias mulheres de cabelo grisalho ou branco, cortado curto, sem nenhum estilo especial, roupas largas, andando de mãos dadas, jeito carinhoso, com homens bonitos, que não pareciam nem um pouco incomodados ou envergonhados da mulher.

Não estou falando que a mulher tem que ser assim: sem tintura, cabelo curto, roupa larga. E sim que é lindo que as pessoas possam ser o que elas quiserem, se vestir como quiserem, ter o cabelo como quiserem. E convivem com pessoas pra quem aquilo não significa que você é menos competente, menos profissional, menos confiável, menos humana, menos mulher.

O guruzinho gosta de falar do quanto somos uma sociedade escravocrata, e esse é um dos tentáculos da dominação. O código de vestimenta, de penteado. Pra deixar bem claro qual seu estrato social. pra saber como você merece ser tratado.  E se você é negro, então… Uma história que uma amiga contou, um amigo negro que sempre tinha que andar muito bem vestido, ou então estava sujeito a humilhações e desaforos constantes. Não que não acontecessem, mas bem vestido, aconteciam menos.

Ai, antes que alguém reclame, eu sei que tem um quadrilhão de coisas ruins em Nova York, nos EUA, não sou baba-ovo de gringo (mentira, muitas vezes sou, principalmente quando comparo parques de natureza lá e aqui). Mas tem coisas que são fatos: as cidades culturalmente desenvolvidas, cosmopolitas, lidam muito melhor com diversidade, ainda mais porque estão acostumadas a e entendem a importância dos milhões de turistas, e no geral têm cidadãos que aprenderam que julgar pelas roupas e penteado é algo arcaico.

Eu já tinha sentido isso nas outras idas a Nova York. Mas é sempre um bom sentimento pra tentar fazer durar o máximo possível. Alimenta também um carinho pelo mundo, penso ou olho pras pessoas e vem essa vontade de tocar seus rostos pra falar

“sabia que não importa…

que você não precisa…

que está tudo bem?”

 

Como diz um desses memes “Te falam que você é feio pra que você compre mais coisas”.

Em vez de gastar tanto dinheiro, tempo e energia pra ter uma aparência X, uma casa de tal jeito, pra comprar tantas coisas inúteis, bem que as pessoas podiam investir tudo isso em terapia, em viagens, em trabalhos por um mundo com menos desigualdade e injustiças.

É difícil não pensar que nada disso é por acaso, e que vivemos o triunfo orc, o mundo em que a maioria das pessoas investe nas coisas mais inúteis e tolas.