Not all those who wander are lost – misantropos passarinhando em grupos grandes

Passei o final de semana passarinhando em Jaú, numa região chamada Marambaia. Eu e mais 20 pessoas, teve um dia de reunir com um outro grupo e devia ter mais de 40.

Em geral evito grupos, mas neste caso havia motivos: nossa expectativa é de que o passeio ajudará a chamar atenção da cidade, da câmara de vereadores, e que poderíamos contribuir para valorizar o local e incentivar projetos de lei para protegê-lo.

I Expedição Marambaia, Jaú – SP, fev/17, por Claudia Komesu

Passarinhar com gente que só quer lifers (fotografar uma ave que você ainda não tenha fotografado) é muito chato. Não é bem um passeio, é uma caminhada com objetivos. Mas nesse fim de semana em Jaú não tinha ninguém assim. Todo mundo estava lá só para curtir o local e ajudar a Marambaia. Duas pessoas do grupo vieram me falar do Virtude-ag, dizer que liam e gostavam bastante. Essas mesmas pessoas me contaram de ideias para aliar o birdwatching com seus trabalhos (um psicólogo e uma enfermeira pesquisadora), foi muito legal.

Conversei com várias pessoas boas. Saí com o meu carro todos os dias do passeio, dei carona pra outros, dentro do carro conversamos bastante, e durante as refeições também. Mas sou misantropa, certo? O que significa que eu não ficava o tempo inteiro falando. Principalmente durante os passeios, porque esses são momentos sagrados, do religare, pra apreciar o que está em volta, pra olhar pra tudo com atenção e amor.

Acho que a Martha, a organizadora do evento, reparou nisso e achou que eu estava deslocada. Primeiro pensei que ela só queria papear, ela é uma pessoa de quem eu gosto muito, me apoiou bastante nos meses da luta pela Portaria 236/2016 e fazia tempo que a gente não se encontrava. Mas teve uma hora que ela falou que nos passeios passarinheiros ela achava que o mais importante é o convívio humano, e que ela sempre identificava a pessoa que está deslocada do grupo e fazia um trabalho pra aproximar aquela pessoa, para que aquela experiência fosse algo bom e ela quisesse voltar a fazer passeios.

“Eta. A Martha está fazendo isso comigo agora, ela acha que eu estou deslocada — ela não sabe que eu sou desenquadrada de nascença, e que isso não é problema”.  🙂 A preocupação da Martha era totalmente compreensível, acho que só seu eu estivesse no meio de um monte de misantropos, ou de gente que me conhece muito bem, saberia que eu andar isolada não significava tristeza ou problema.

Era tarde, mais de 23h. Acho que estávamos papeando há mais de uma hora. No final da conversa quando ela falou sobre a aproximação com a pessoa afastada, e eu entendi o que estava acontecendo naquele sofá, achei que era melhor não prolongar porque eu realmente precisava dormir. Só falei “você sabe o que é misantropia, não?”, “sim… tem a ver com ódio à humanidade, sei que você é misantropa, o Humberto também é”. Nem lembro o que comentei, mas foi algo breve, decidi que não era o momento pra longas explicações, pra dizer que não odeio a humanidade. Espero que eu tenha falado que estava gostando do passeio, que ficar isolada nas caminhadas não era sinal de problema.

Que not all those who wander are lost.

Vivemos nesse mundo dominado pelo padrão de gente extrovertida, então se tem alguém quieto ou isolado as pessoas acham que a pessoa está com algum problema. Mas não é necessariamente verdade, gente. São questões de personalidade, escolha, ou talvez até da estrutura cerebral.

É claro que alguém quieto e isolado pode estar com algum problema. Mas estar quieto e isolado não é a manifestação de problemas. Há muitos sinais da linguagem corporal, da voz, ou você pode apenas perguntar se está tudo bem.

Pra nós misantropos, talvez o certo seja a gente sair do armário.

“Está tudo bem? Você está tão quieto”

“Está tudo bem, não se preocupe, eu sou quieto. Sou misantropo, introvertido no sentido dado pelo Carl Jung, ou seja, eu gosto e preciso de silêncio e tranquilidade”.

E se a pessoa fizer perguntas você explica melhor o que é misantropia e introvertimento. De forma simples, acho que dá pra falar assim:

– há pessoas que se sentem energizadas e animadas pelo contato com outras pessoas, são os extrovertidos. Mas tem outras pessoas, os tais misantropos, introvertidos, com quem isso não acontece. Pelo contrário, muitas vezes é desgastante e cansativo pra gente.  Precisamos de mais silêncio, mais tranquilidade, mais isolamento. Não é que a gente não gosta de ninguém, gostamos de muita gente. Mas sossego é essencial pra nossa vida.

– Não temos certeza de por que é assim. Há estudos recentes, essas coisas de escaneamento de atividade cerebral, que indicam que talvez ser assim não seja uma escolha, é só o jeito como a gente funciona. Por exemplo, uma experiência com extrovertidos e introvertidos mostrava que ao ver imagens de pessoas, a atividade cerebral aumentava para os extrovertidos. Para os introvertidos não: era a mesma coisa ver fotos de gente, de carro, ou de um vaso. E também há estudos que indicam diferenças na configuração do cérebro, os introvertidos teriam mais massa cinzenta na área do córtex pré-frontal, que é a área ligada com pensamentos complexos e tomada de decisões*.

– a gente gosta de ficar sozinho. O QuietRev tem um post bem legal, que explica com ilustrações como você pode falar pros outros que você é um introvertido, e tudo bem: http://www.quietrev.com/9-ways-to-explain-your-introversion/. Meus favoritos são: “Sozinha sim, mas raramente solitária”, e o círculo que fala “Por que eu amo ser uma introvertida: não preciso gastar dinheiro pra me divertir; encontro prazer em tarefas simples; dentro da minha cabeça é um lugar infinitamente bonito; não preciso estar com outra pessoa pra me sentir completa; e porque introvertidos são incríveis!”.

Da próxima vez que alguém achar que você está infeliz porque está quieto ou isolado, ou que você deveria ser mais falante ou ficar mais com os grupos, fale pra pessoa sobre misantropia, introvertimento. E que está tudo bem com você.

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*Research has found that extroverts make up 50-70 percent of the population, and that introverts make up 16-50 percent. In the 1960’s, a psychologist by the name of Hans Eysenck thought that extroverts had a lower level of “arousal” and that they required more stimulation in order to feel alert. This is interesting because studies have shown that  the front part of introvert’s brains are very active and stimulated by solitary activities, while the back part of an extrovert’s brains are most active.

“This part of the brain is stimulated by sensory events coming in from the external world. In addition, a chemical called “dopamine” is released by our brains whenever we experience something positive. It’s an automatic reward center and makes us feel good! Extroverts need more dopamine to feel an effect, whereas introverts have a low dopamine threshold.” (source)

In 2005, researchers concluded in a study that it might all be linked to dopamine, and a study  in 2012 at Harvard University found that introverts tend to have larger, thicker gray matter in their prefrontal cortex – a part of the brain that is linked to complex thoughts and decision making. The study concluded that “this might be accountable for introvert’s tendencies to sit in a corner and ponder things thoroughly before making a decision, and extroverts’ ability to live in the moment and take risks without fully thinking everything through.”

http://www.collective-evolution.com/2015/05/27/introverts-extroverts-have-different-brains-which-one-are-you/ 

http://introvertdear.com/news/introverts-and-extroverts-brains-really-are-different-according-to-science/

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Not all those who wander are lost é um verso de um poema do Tolkien, sobre o Aragorn:

All that is gold does not glitter,
Not all those who wander are lost;
The old that is strong does not wither,
Deep roots are not reached by the frost.
From the ashes a fire shall be woken,
A light from the shadows shall spring;
Renewed shall be blade that was broken,
The crownless again shall be king.