Nós somos a historinha que contamos pra nós mesmos

É por isso que deveríamos ser tão criteriosos ao formar nossa mítica pessoal, ao decidir como queremos nos descrever-definir pro mundo e pra nós mesmos, ao professar nossas crenças. A história que inventamos pra nós é o que acabamos vivendo – e não estou falando de fantasia total, mas sim no sentido de que toda memória é uma construção, e o que professamos é no que escolhemos apostar.

Kingkiller do Patrick Rothfus. Indicação da querida Marcela. Volume 1, dia 1. Começo lento, só não larguei porque era indicação de gente querida. Mas depois que Kvothe vai pra Academia finalmente a história começa, e não me deu paz até terminar. Eu estava no Kindle, mas imaginei, e depois conferi, que era um livro de 700 páginas. Devorado em menos de uma semana, mesmo com fishwatching e passeios.

Uma das boas ideias do livro é exatamente esta: a de que somos aquilo que contamos pra nós mesmos. [Spoilers] O padawan do Kvothe trai o esconderijo do mestre, na esperança de que apareça algum antigo inimigo, ou qualquer um que ainda saiba quem é o Kvothe, e o obrigue a sair da vida bisonha de taberneiro. E assim aparece o cronista, pra quem Kvothe decide contar sua história.

Ontem recebi mais um sinal. Lendo uma entrevista com Edward Wilson na National Geographic, sobre um livro que vou comprar (aê, Taty, vou comprar um Kindle também e voltar a ler de baciada).

O entrevistador pergunta: As a storyteller myself, I was particularly fascinated in one thing you suggest—that we’re “the stories stored in our brains.” Why was storytelling such an important part of the evolutionary process? [“Eu como um contador de histórias fiquei particularmente fascinado por algo que você sugeriu – que nós somos ‘as histórias armazenadas em nossos cérebros’. Por que a arte de contar histórias foi parte tão importante no processo evolutivo?”]

http://news.nationalgeographic.com/news/2014/11/141102-edward-wilson-meaning-existence-darwin-extraterrestrials-ngbooktalk/

E Wilson responde “At any rate, yes, human beings live by stories. That’s what we do. We think stories, we track our own histories, we make decisions about the future on the basis of competing stories. If I do this, then that will happen. On the other hand, if I do that, this story will unfold. And so on.” [“De qualquer forma, sim, os seres humanos vivem por histórias. Isso é o que nós fazemos. Pensamos histórias, investigamos nossas próprias histórias, tomamos decisões sobre o futuro com base em histórias semelhantes. Se eu fizer isso, então tal coisa vai acontecer. Mas se eu fizer aquilo, essa história vai se desenrolar. E assim por diante.”]

Wilson, por sua vez, é um outro fio da meada, talvez uma luzinha de esperança (porque o homem é um otimista, e acha que as coisas ainda vão piorar, mas que por fim a humanidade tomará as medidas necessárias pra evitar a extinção de milhões de espécies e dos próprios humanos). E cita Abba Eban:

“When all else fails, men turn to reason.” [“Quando todo o resto falha, os homens se voltam para a razão”]

Um alento grande, por mais diáfana que a ideia soe.

Apesar de tão frágil, provavelmente pela grande carga otimista, foi uma breve leitura bem mais alegre do que Why conservationists need a little hope: saving themselves from becoming the most depressing scientists on the planet
Que é mais concreto, pé no chão, dá dicas de como agir. Mas não deixa de acentuar a deprê de pensar quantas coisas idiotas continuam sendo feitas contra a natureza, numa velocidade estúpida: http://news.mongabay.com/2014/0819-hance-hope-interview.html

Acho que Edward Wilson está certo. Não sabemos como será o futuro, então por que eu deveria ficar martelando a ideia mais pessimista? Mesmo que seja a mais provável. Eu. Que sempre dei uma banana pra estatísticas. Então, as usual, danem-se as estatísticas e as probabilidades.

Por enquanto escolho ir pro lado de lá, ao lado do Wilson, e acreditar que no fim a razão vai prevalecer. Que quando chegarmos a alguma situação crítica e desesperadora os governantes serão obrigados a reconhecer que a única solução será passar por cima, deixar de lado, ou pagar de outra forma quem lucra com o extrativismo-do-foda-se-o-futuro. E serão criadas políticas e fiscalizações que funcionarão de fato para evitar a extinção dos humanos e mais alguns milhões de espécies que têm o azar de dividir a linda bolota azul com a gente.