Ninguém precisa ter uma religião, nem louvar o nome de Deus

Alegrias da insônia. Pelo menos resta a escrita.

Um amigão me falou que ao ler um dos meus posts, se sentiu estranho por não acreditar em deus. É estranho não acreditar em Deus? Usando o conceito do estranho em relação ao grupo, de forma global dá pra se sentir estranho. A página de demografia do ateísmo dá 2% de ateus e 16% de “não-religiosos”, no mundo. http://en.wikipedia.org/wiki/Demographics_of_atheism. Mas também reconhecem que é bem difícil estabelecer um número, pelas diferenças de definição, por saber que em alguns lugares a resposta pode não ser sincera. Esta página fala de 36% de irreligious, dando como sinônimo de non-religious: http://en.wikipedia.org/wiki/Irreligion#cite_note-gia-3

É claro que entre um grupo de cientistas, provavelmente você não se sentiria estranho. Talvez o estranho seja quem acredita em Deus.

Comecei falando do meu misticismo com a tal ressalva do “crenças desde que inofensivas” porque a crença institucionalizada em Deus é uma grande tragédia em termos de direitos humanos. Vou confessar que até hoje eu não tive coragem de ler pra não ficar com os dados gravados a fogo na mente, prefiro ficar só com a noção geral, mas tenho certeza que é fácil de achar: os assassinatos, torturas, atrocidades, crimes, perfídias e atos hediondos que já foram feitos em nome de Deus são algo aterrorizante. Acreditar numa divindade do meu jeito me conforta, traz conforto pra muitas pessoas queridas, mas na real: não consigo ter certeza de que acreditar em Deus é algo benéfico para os seres humanos. Sei que em nome de Deus também já foram e são feitas ações abnegadas e admiráveis, mas o outro extremo é tão horroroso que a questão parece bem desequilibrada, pro lado de lá.

Uma pessoa boa não precisa ser crente para fazer o bem. Mas muitas pessoas foram e são capazes de fazer coisas horríveis, acreditando que agem em nome de Deus.

Eu não sigo uma religião. Talvez esteja nos 36% de irreligious. Mas sou capaz de meditar e rezar, sinceramente e de coração porque acredito que isso faz bem. Mesmo que Deus não exista, mesmo que anjos e entidades invisíveis não existam, não importa. Faz bem pra mim e a ciência concorda que meditar e rezar são coisas capazes de ter um efeito real sobre a pessoa, não por questões exotéricas, mas por fatores que padrão de ação cerebral e influência de estresse ou tranquilidade exercem sobre o organismo.

Há outros momentos pra me sentir conectada com algo que traz uma sensação de divino, e isso eu sei que você também sente, acreditando em Deus ou não: em lugares bonitos da natureza. E já ouvi isso de várias pessoas, que esses nossos passeios pra ver as aves são os momentos em que elas se sentem mais próximas de Deus. Tranquilidade, sensação de completude, admiração, silêncio de angústias e preocupações. Paz e baterias renovadas. Parece ou não parece coisa do outro mundo? :o)

Com informação, conhecimento e reflexão, sei como é difícil continuar acreditando em Deus. Ou no mínimo, não se revoltar com o fato de Deus ter permitido que tantas coisas hediondas tenham sido e sejam feitas em seu nome.

Sabe que cresci como espírita, e na adolescência e no início da faculdade ainda era capaz de discutir religião e defender o espiritismo. Meu amigo falava “tudo bem, tudo bem… mas o que eu não consigo aceitar é essa postura de que o espiritismo é a única verdade e que um dia todos os povos do mundo vão evoluir e entender isso, e todos serão espíritas”. Daí a gente começa a estudar mais antropologia e história, e realmente fica difícil manter a posição de que o espiritismo é a única verdade. Ou então ler algum livro espírita, ditado pelo espírito tal, e de repente perceber como aquelas palavras são tão humanas – e falhas. Considero meu ponto de ruptura com a literatura espírita um dia que estava lendo um livro desses, e o espírito reclamava das pessoas que ficam na praia, fazendo nada, totalmente indolentes. Eu já divergia dessa crença de mundo de expiação e provas, e quando li aquilo pensei “esses livros estão cheios de opinião de pessoas, não tem nada de necessariamente certo e divino aqui… nem neste, e talvez em nenhum outro livro espírita”.

Eu gosto de pensar que meus avós estão numa colônia espiritual, numa casinha com lindas flores azuis na varanda, trabalhando felizes, com saudades da gente, olhando pela gente, como descrito numa dessas cartas que uma médium entregou pra minha mãe. Gostava tanto deles e sinto tanta saudade deles que mesmo oito anos depois não consigo pensar neles uma vez sem chorar. Mas se você me perguntar o que eu realmente acredito? Eu não sei.

Quando uma pessoa querida morre, eu realmente acredito que ela continua viva em nossos corações porque nosso amor por ela continua. Mas essa é minha única certeza.

Acredito, mas sem ter certeza absoluta, que existem entidades invisíveis que agem como anjos ou demônios. É o que chamo de máfia invisível, e que pelos nossos pensamentos e ações podemos nos conectar a determinado time. Era disso que falava sobre agir de bom coração e sentir que a máfia está recompensando suas ações, te conectando com outras pessoas do time, e ajudando nas pequenas coincidências.

Já conversei com um ex-satanista. Ele não era uma pessoa malvada ou cruel, apenas um jovem curioso que quis experimentar o que era ser satanista. Foi durante um tempo, participou de uns rituais – inclusive ter a sola do pé queimado com um bastão de madeira quente… não lembro o que mais os satanistas faziam. Mas lembro bem do que ele contou sobre o rompimento. Quando decidiu deixar de ser, ele passou uns 2 meses muito azarado. Ele disse que qualquer coisa que ele quisesse fazer, ele tinha que sair com uma grande antecedência, porque tudo que é imprevisto e coisas para atrapalhar aconteciam. Mas depois passou.

Da mesma forma, vejo na minha vida, e já ouvi isso de outras pessoas, sobre diversos momentos de muita sorte, de pequenas ou grandes coincidências que resultaram em coisas boas. Eu presto atenção nessas coisas, vou ligando um fato com o outro e fortaleço minha crença de que, quer seja ação de anjos, quer seja um padrão que minha mente criou, é possível se conectar a uma sensação de maré boa.

Não sei se Deus existe. Não vejo problema em não acreditar em Deus. Criei meu próprio sistema, e nele não consigo supor um Deus que seja pior do que uma pessoa boa. Se Deus é bom, ele não importa se seu nome é louvado ou não, assim como as pessoas boas fazem o bem independente de receberem elogios e reconhecimento público.

Acho que ninguém precisa ter uma religião, nem louvar o nome de Deus. Basta ser bom fazer o bem.