Não vamos entregar a partida pra Trumps e Bolsonaros

Meus bons amigos, pessoas do bem e que acreditam que não há motivo pra querer mandar na vida sexual das pessoas, em suas escolhas religiosas, que é sempre errado cometer violências contra um grupo de pessoas por causa do que alguns indivíduos fizeram: vocês sabem que não podemos esmorecer.

Nesta semana o NY Times publicou este artigo legal, recomendações como se fosse de AA pra reagir à sensação de desespero pela vitória de Trump:

http://www.nytimes.com/2016/11/17/opinion/a-12-step-program-for-responding-to-president-elect-trump.html?emc=eta1&_r=0

Tem coisas como “Eu vou aceitar que meu lado perdeu, não vou ficar comparando Trump a Hitler porque isso não leva a lugar algum, eu vou fazer coisas pequenas mas que têm um simbolismo, como apoiar a organização contra islamofobia, vou apoiar e doar dinheiro para o centro de combate à pobreza, vou me cadastrar no programa ‘acompanhe meu vizinho’, para fazer parte da lista de pessoas que está disposta a acompanhar alguém que está com medo de ser xingado, assediado ou agredido na rua; eu não vou perder a fé”.

Fiquei pensando o que eu posso fazer pra combater Trump e Bolsonaro. Não tem nada consolidado, mas há coisas que sei que posso fazer sem precisar de muito esforço, basta assumir que estamos em tempos difíceis, e que apesar da humanidade ter progredido muito em termos de direitos humanos (ah, e qualquer um que ache que não, vai ler um pouco sobre a História do mundo pra ver como melhoramos sim, ou pesquise o mínimo sobre questões jurídicas recentes, de questões de décadas, algo como “crimes de honra”, e veja o quanto mudou), apesar de termos avançado muito, sempre haverá momentos como esse em que ameaçamos voltar vários passos.

Coisas que sei que posso fazer: em qualquer conversa, eu vou defender muçulmanos, latinos, judeus, gays, negros, nordestinos, mulheres e qualquer outro grupo que sofre preconceito e injustiças.

Não significa ir duelar na caixa de comentários dos portais, essa eu acho que não tenho estômago, mas nas conversas ao vivo vou me esforçar pra não deixar quieto. Mesmo que isso aumente minha fama de chata.

Algo que deixei passar uns meses atrás: estava conversando com meu pai sobre a cena do beijo entre o Sulu e o marido, que foi cortada da edição final do novo Star Trek. Só contei que tinha lido sobre isso (meu pai é fã da série), e ele falou “eu acho certo. Tem coisas que são desnecessárias”. E eu pensei mas não falei. Mas devia ter falado.

Podia ter falado algo como “é uma pena que eles não tenham tido coragem de mostrar. Sabe que homofobia é um problema real, não? Que tem gente que vive com terror, que sofre bullying, apanha, tem casos de assassinatos e suicídios. Se eles tivessem decidido manter a cena, seria algo bom pra mostrar que é normal, que não tem problema, que você pode ser bravo, corajoso, legal e gay.

Só me calei. Mas não devia.

Algo que já estava fazendo antes de ler o artigo é falar do nada que meu cunhado é muçulmano, ou na internet, num site como no Inaturalist, na minha descrição de perfil dizer que sou brasileira, neta de japoneses, meu marido é judeu, meu cunhado é muçulmano. Principalmente a parte do cunhado muçulmano, faço questão de falar, e se me perguntam, como aconteceu no fim de semana passado, eu conto como eles são parecidos com brasileiros na relação com a família, de serem muito conectados, de como meu cunhado cuida da mãe, dos irmãos, conto alguma anedota como a história da primeira visita da minha irmã ao Marrocos cair numa data religiosa em que eles preparam carneiro como prato principal, então minha irmã foi direto pra cozinha ajudar a preparar um cordeiro recém-abatido. De vez em quando ela ia lá falar com o marido “eu não aguento mais o cheiro de sangue”, e ele dizia “não, não, você está indo bem, ninguém está reparando que você está com nojo, continua lá”, e as pessoas, riem, é claro. E sempre penso que estou ajudando a mostrar que muçulmanos são pessoas como qualquer um.

Já ouviram alguém falar algo como: “afe, esse povo é muito violento, fica se bombardeando, guerreando, se explodindo, deviam trancar todo mundo no país e deixar eles se matarem, mas chega de explodir bomba no país dos outros”?

Se ouvirem, ajudem a combater a burrice das generalizações. “Caramba, sabe que esses brasileiros são todos ladrões e corruptos? Eles estragam tudo que tocam, conseguiram ferrar até com uma refinaria nos Estados Unidos. É melhor impedir qualquer brasileiro de sair do país, pra não espalhar a corrupção pra outros lugares”.

Também não deixem ninguém propagar homofobia. Tem várias coisas que dá pra falar:

– a vida sexual e amorosa das pessoas não é da conta de ninguém. Se não é sexo com crianças ou incapacitados, se é de consenso entre adultos, ninguém devia opinar se é homem com homem, mulher com mulher, se é dois, três, vários. O que as pessoas fazem na privacidade é só da conta delas.

– “Mas não é só na privacidade! Esse pessoal é depravado, fica se agarrando no meio da rua, na frente de crianças”. Bom, todo mundo devia ter respeito pelo espaço público. Mas estavam se agarrando mesmo, pegando em partes íntimas, ficando pelados, gemendo? Ou estavam de mãos dadas, ou trocaram um beijinho, algo que se fosse um casal hetero só seria fofo, mas entre gays te chocou?

– “Ser gay é contra as leis de Deus”. Eu respeito que você acredite num Deus. Mas sabe que essa é apenas a sua crença, e que ao longo de uns 150 mil anos de história do ser humano, já existiram milhares ou talvez milhões de deuses, e esse que condena o homossexualismo é só uma das crenças. Não estou falando que o seu Deus não existe, só que você não pode exigir que 6 bilhões de pessoas sigam a mesma crença.

– “O homossexualismo é anti-natural”. Não é. Mesmo que você seja uma pessoa religiosa que acredita que sexo só existe pra reprodução – portanto, só pode ser macho com fêmea, sem camisinha, sem anticoncepcional, sem práticas que não sejam enfiar o pênis na vagina, a verdade é que (1) a natureza tem inúmeros exemplos de animais que praticam o homossexualismo, e se você estudar um pouquinho de história da humanidade verá que diversas civilizações, inclusive machões como os guerreiros romanos ou os samurais, têm muitos  homossexuais. Ou seja, anti-natural não é; (2) se você acha que as pessoas só podem fazer o que parece ser o “natural”, o que fazer com remédios, cirurgias, óculos, próteses, celulares, computadores, a internet, aviões, mergulho, etc, etc?

– “Eu me preocupo com as crianças. Que essa história de dizer que tudo bem ser gay vai influenciar meus filhos”. Meu Deus! “tudo bem ser gay” vai fazer com que seu filho nunca destrate, xingue, bata ou mate uma pessoa só porque ela tem gostos diferentes do tradicional. Ele nunca vai ter que passar por sentimentos de ódio e intolerância (e provavelmente medo misturado com desejo, pavor), que os que cresceram com uma moral repressora e preconceituosa têm que lidar. “Tudo bem ser gay, as pessoas têm o direito de escolher” faz com que seu filho viva mais feliz e contribua para um mundo mais feliz. “E se ele virar gay??”. Ao que parece, ninguém vira gay. A maioria dos gays conta que desde criança sabiam que eram diferentes do modelo tradicional. Não é uma questão do seu filho virar gay, e sim de, caso ele seja gay, caso ele tenha nascido assim, ele não precisará viver uma vida miserável tendo que mentir, esconder, fingir e se torturar pelo o que sente.

Não deixe falarem mal de mulheres só por serem mulheres, ou de negros, ou de nordestinos, ou de mexicanos, ou de baianos.

O autor do artigo do NY Times sugere esta abordagem: quando ouvir as declarações preconceituosas, pergunte “você realmente pensa assim?”, e a pessoa terá a chance de se retratar, ou se afundar. E quando ela disser que é tudo brincadeira é que você é um chato por ficar enchendo o saco, você pode falar que as eleições dos Estados Unidos ou a ameaça do Bolsonaro ser eleito presidente do Brasil em 2018 são a prova de que ninguém devia se preocupar em combater homofobia ou qualquer outra postura preconceituosa.