Não tenha medo de quebrar a cara

Quem acompanha o blog sabe que a neurociência é minha nova queridinha. Mesmo que não acompanha, o resumo é: você tem controle de muita coisa. Pros sentimentos por exemplo, não existe nada inato, é tudo cultural. E tudo que é cultural é aprendível e desaprendível. (A neurociência não fala isso, esta parte é a extrapolação minha, típica de gente que cresceu vendo Hollywood, adoras o EUA e a ideia de que temos controle sobre nossas vidas).

Mas realmente há uma parte da neurociência que diz que nossos sentimentos são coisas que a gente aprende.

Ora.

Eu acredito nisso.

E acredito de verdade que somos capazes de dosar o peso das coisas na nossa vida. Nossos pensamentos, nossos valores, nossas decisões moldam nossa realidade. Temos uma boa dose de controle com o quanto sofremos por alguma coisa.

Por exemplo, eu e o Cris já passamos por vários perrengues em viagens, de comprar passagem pro dia errado, de não poder embarcar porque faltou um documento, de quebrar o barco e ficar 2h sob um sol escaldante, de atolar o carro numa estrada com pouco movimento, estar sozinha no Kruger e furar o pneu numa estrada com pouco movimento, de sermos achacados pela polícia corrupta do México, que queriam levar US$ 800, do Cris perder a carteira com todos os cartões, de sermos azucrinados pelo controle de passaporte em Amsterdã, e depois ter que correr, correr mesmo, pelo aeroporto todo pra não perder nosso voo – várias histórias, e nenhuma delas deu um tom negativo pra viagem. Não ficávamos reverberando isso, entende?

No caso dos relacionamentos amorosos, acredite em mim, as coisas são simples assim:

– Você aprende a gostar de você, você entende que você é uma pessoa incrível, e se você ainda não se considerar uma pessoa incrível, você vai trabalhar pra mudar isso, seja cuidando da sua aparência, seja aprendendo mais sobre quem você é, tendo a porra da sua lista de qualidades, escrevendo sobre você, sabendo contar uma história bonita sobre quem você. Cultive auto-confiança.

– Você também vai cultivar a compreensão de que viver só se aprende vivendo, que a gente tem que viver e experimentar. Se der certo, deu, se não deu, vai aparecer outra oportunidade. Se não dá certo, depende de você o quanto você sofre com aquilo.

– E pros misantropos, então, como sempre apelo pro argumento da inteligência: pense o quanto é algo banal não dar certo. Quer dizer, é claro que pode dar muito certo. Mas pensando no worst case scenario. Se não der certo? Não deu, tudo bem, era uma das coisas possíveis de se acontecer.

– Eu insisto tanto sobre cultivar a certeza de que somos todos pessoas incríveis porque isso é uma força, isso nos ajuda muito a nos arriscar e a não ter medo de dar errado. Quando você tem confiança sobre quem você é, não é que você nunca vai quebrar a cara. E sim você sabe que tudo bem quebrar a cara. Que às vezes dá certo, às vezes não dá. E se alguém não quiser ficar com você, não significa que você é uma pessoa desprezível, feia, ruim ou sei lá o quê. Apenas não deu certo.

Todo mundo (que não tem o tal ticket dourado) tem que viver e experimentar. E fica bem difícil viver e experimentar se você fica alimentando receios de ser julgada, de se dar mal, de se machucar.

Querida nação misantropa: a gente entende muito de dor. Desde criança sabemos o que é a dor de se sentir diferente, à parte, excluído, errado, pária, sempre pensando demais e consciente demais. Algumas pessoas, como eu, passaram um tempo considerando a possibilidade de se matar.

A dor de levar um fora, de quebrar a cara, é apenas outra dor. E a gente não precisa ter medo da dor, ou do conflito, ou de discussões. Porque nós somos incríveis, e sobrevivemos a qualquer uma dessas situações. E somos inteligentes, e vemos o quanto aprendemos a cada situação vivida.

Todo mundo que não tem o ticket dourado precisa se relacionar e experimentar. Se ajude. Livre-se do medo de não dar certo. Se não der certo, se doer, é só outra dor. Você não precisa ter medo da dor. Você é forte. Passa. E sempre será uma pessoa melhor depois disso.

Sobre o ticket dourado: ando me pavoneando por aí, como se estivesse carregando um jarro de terra (coisas de cultura pop, Piratas do Caribe), e me vejo obrigada a comentar. Meu ticket dourado é o fato de eu estar casada há 13 anos, um relacionamento que parece ser pra vida toda, com um homem que eu adoro conversar, com quem adoro passar meu tempo, com quem tenho tantos interesses em comum, e que também me adora e também não imagina a vida dele sem mim. Além do Cris, tenho o Daniel, meu enteado, que conheço desde que era pequeno. Tenho alguns amigos muito queridos e totalmente confiáveis. Vivo em paz com minha família. Não preciso trabalhar, ou melhor, não preciso ganhar dinheiro, só trabalho com as coisas que eu quero. Viajo com frequência, adoro meus dias, e tenho vários dias que nem saio de casa (apesar de conversar com pessoas por email, blog, WhatsApp, Facebook). Não tenho carências. É o ticket dourado da misantropia, e antes de chegar aqui, tive vários relacionamentos, o suficiente pra ser quem eu sou. E quando penso em algumas pessoas queridas que fazem umas coisas bem idiotas, um dos padrões que vejo é o fato dessas pessoas não terem rodado quando tinha 20 e poucos. Tenho certeza de que isso faz muita diferença na vida. Por isso insisto sempre nesse ponto: se você é solteiro, seja misantropo ou não misantropo, tenha experiências, se relacione, se dê bem ou se dê mal. É o melhor jeito de evoluir como pessoa.