Não sejamos fúteis e superficiais

Uns anos atrás a revolução das câmeras digitais aconteceu. Aconteceu, e não há nada o que fazer… conheci fotógrafos da época do filme que lamentam muito, muito mesmo, o tsunami causado por essa inundação de equipamentos cada vez melhores, mais baratos, e com uma concorrência acirradíssima entre as marcas. Eu entendo, era o ganha-pão deles, e essa onda deixou tudo de pernas pro ar. Hoje para um fotógrafo conseguir ganhar dinheiro ele precisa fazer coisas que só ele consegue – como um workshop, ou um livro que reúne as décadas de experiência, ou receber encomendas de fotos específicas.

Mas ele não pode mais viver daquilo que os amadores oferecem, aos milhões, de graça, todos os dias, por um canal incrível como a internet.

Eu sei que muitas vezes as fotos de livre divulgação ainda não são grande coisa… as do Brasil. Mas se você olhar a Wikimedia Commons vai encontrar fotos lindas da natureza feita em outros países. Não porque brasileiro não sabe fotografar, mas porque somos os panacas cujo acesso à tecnologia é sempre dificultado por impostos absurdos, então temos mais dificuldade em conseguir as câmeras boas a um preço razoável. Mas devagar e sempre vamos conseguindo.

A evolução das câmeras digitais é algo tão fabuloso que enche meu peito de alegria e luz :o) Esse meu coraçãozinho negro sorri, toda vez que leio por cima alguma notícia de um novo super-lançamento incrível – e cada vez mais barato. Além dos motivos óbvios, quando leio as notícias que significam mais gente com câmeras boas é um bálsamo contra a lembrança de todas as vezes em que tentei convencer pessoas com fotos boas que a gente deveria fazer algo para facilitar a circulação das imagens de natureza, que as fotos não deviam ser pensadas em primeiro lugar como um simples objeto de comércio.

A maioria me ignorou, alguns disseram que eu estava errada, porque o fotógrafo precisa ganhar dinheiro (fazendo terrorismo, tentando convencer os amadores que eles não podem dar fotos, tentando criar uma reserva de mercado em vez de inventar produtos ou serviços que só um profissional consegue). Até hoje ainda ouço esse blábláblá sobre a importância de não prejudicar o fotógrafo – mesmo que essa atitude esteja prejudicando a natureza.

Antes que eu seja completamente apedrejada, permita-me: não acho que se está na internet é do povo, que as pessoas podem fazer qualquer coisa, que a foto não tem valor, etc. Mas o que não me conformo é as pessoas agirem como se as seguintes pravdas não fossem pravdas:

– a fotografia cresce a taxas exponenciais, de uma forma que é impossível não haver uma enorme oferta de fotos boas.

– o valor de uma foto bonita diminui a cada dia. Ou melhor dizendo: há cada vez mais fotos, mais fotógrafos, mais imagens circulando, mais referências para comparar, mais gente que entende como as fotos são feitas e que saberá julgar se a sua imagem é realmente rara, ou se ela for lá e ficar umas horas ou dias tentando vai conseguir algo bem parecido.

– há cada vez mais imagens de qualquer coisa, e suas fotos competem com outros nem sei quantos bilhões, quadrilhões ou que ordem de grandeza de quantidade de imagens.

– é legal fotografar! E quem fotografa cria uma relação emocional com a foto que tirou, ele nunca a olhará apenas como outra imagem, ela sempre será analisada junto com o quinhão emocional do “fui eu que fiz”.

– a maioria das pessoas não tem cultura fotográfica. Ou seja: elas não sabem olhar uma imagem bonita e entender os elementos técnicos e estéticos que tornam aquela imagem muito boa (aos olhos de quem tem olhar fotográfico e cultura fotográfica). Na verdade, no caso do birdwatching, o que conta é: de perto e com penas definidas, espécie incomum ou rara. Esse é o critério de foto boa.

– junte as duas últimas pravdas, e imagine: a pessoa vai querer comprar uma foto linda de um profissional, ou vai querer imprimir grande e enquadrar uma foto boa que ela mesma fez?

– a natureza não é, nem de longe, a bolachinha mais recheada do pacote. Mulheres seminuas e imagens de celebridades, imagens de bebês ou outros filhotes, imagens urbanas, imagens de guerra, em geral tudo isso vem antes.

– a natureza brasileira precisa de muita divulgação, muita mesmo. Volta e meia um deputado fala em diminuir a área de parques nacionais e estaduais, ou então um parque municipal sofre a pressão da especulação imobiliária, de obras públicas, do crescimento do bairro. Isso só falando de áreas teoricamente protegidas. Nas outras, os tratores que passam as correntes arrancado tudo seguem soltos, e vamos trocando locais com valor inestimável em riqueza biológica, importância vital no equilíbrio térmico e hídrico do planeta, bilhões de dólares em medicina e cosméticos – a gente troca tudo isso por gado e soja.

Já vi vários colegas falarem e agirem como se ainda vivêssemos na era das câmeras analógicas, ou como se a situação da natureza não fosse tão desesperadora – e acredite, é, se você quiser acompanhar as notícias que falam da destruição, corrupção, extinção da fiscalização, todo dia terá o que ler. Notícias que trazem lágrimas de raiva, e isso é só o que aparece na mídia, imagine o que acontece e nem é noticiado.

A capacidade para fazer fotos bonitas está cada vez mais disseminada. Quem via as fotos de natureza principalmente como um objeto comercial, negando seu papel primário de divulgar a tão vilipendiada natureza, terá cada vez menos ocasiões para dizer “não cedo, não faço acordo, não troco por espaço na revista. Só vendo por dinheiro”.

Fotografia de natureza não é de natureza morta. Quando fotografamos uma paisagem, ou as aves, não é a mesma coisa de fotografar o faisão morto pendurado pelos pés com o cesto de frutas embaixo. A natureza é viva, está em sérios apuros, e como fotógrafos temos obrigações morais com ela, não podemos ser criaturas fúteis de apenas clicar e depois ficar comentando entre amigos como aquela foto ficou bonita.

Não sejamos fúteis e superficiais. É claro que cada um tem o direito de fazer o que quiser, mas não sejamos fúteis e superficiais, não esqueçamos nunca que se extraímos tanto prazer do contato com a natureza, não podemos apenas olhar pro outro lado e esquecer o quanto a natureza precisa, o tempo todo de ajuda real.