Não acredito em pacifismo, mas acredito em sinais

Sou um guerreiro.

Não sou o mago, não sou o comerciante, não sou o ladrão, não sou o clérigo.

Acredito em coisas como “não vim trazer a paz, mas a espada”.

O que é o certo, é o certo e deveríamos lutar pelo o que é o certo. Escolhemos nossas lutas, elegemos o que vale a pena investir nosso tempo, nossa tranquilidade, nossa alma, e se isso vai trazer perrengues, conflitos, situações desagradáveis, ora. Não podemos ter medo de escaramuças, discussões. Se o outro, ou você, não sabe refletir, não sabe receber uma crítica, não sabe perdoar, evolua como ser humano. A passividade e imobilidade é um pântano venenoso.

Sou violenta e belicosa. Tento sempre ser gentil e simpática com os inocentes, mas se entro pra brigar em geral é truculento. Não fisicamente, é claro, mas meus argumentos em geral não têm nada de gentil. Mesmo com quem eu amo, ou talvez principalmente quem eu amo, as pessoas de quem eu gosto e com quem realmente me importo. O Cris, por exemplo, vocês podem imaginar o quanto ele já sofreu – mas juro que isso o levou pro tal patamar de ser humano melhor :).

Nem o Daniel escapa. Tivemos umas poucas discussões na vida, mas sinto que é um trauma. No bom, sentido, acho, que o ajuda a andar sempre na linha, a se controlar mais, porque quem já foi obrigado a ficar meia hora sentado comigo e com o Cris, ouvindo o que você tem feito de errado, gostaria de nunca mais passar por essa experiência na vida. Depois dessa tivemos que fazer uma ou duas ameaças de conversas sérias “Você não está cumprindo uma das suas obrigações, que é tratar bem seus vovôs. Você vai tomar jeito ou a gente vai ter que conversar sobre isso?”, e nos últimos meses ele tem sido impecável, mesmo em situações em que está com fome, cansado.

As coisas que fiz pelo birdwatching foram com a espada. Se eu fosse o comerciante, poderia ter construído lentamente e com dedicação relacionamentos com as autoridades, mas sou o guerreiro, então com panfletagem e palavras pesadas – nunca mentirosas, mas também longe da gentileza, tirei a proibição da entrada do tripé no Jardim Botânico de São Paulo, encabecei o movimento pela portaria estadual que reconhece a existência do birdwatching. E depois de um ano sabático, estava me preparando pra entrar numa nova luta – mostrar pro Wikiaves o quanto eles incentivam competição e tapadices.

Juro que não queria. O desgaste com meus colegas no processo da portaria foi tão grande que eu me sentia done for life. Mas no final do ano conheci um ornitólogo, numa trilha, esses encontros ao acaso, o tal que depois descobri ser meu parceiro no Clube dos Chatos. Alguém que também acha errado essa postura lifeira, de tratar as aves como meros números ou troféus, que também vê como o Wikiaves incentiva isso. E ele achava que a gente poderia fazer algo pra mudar essa situação. Conversar com o Wikiaves. Propor mudanças.

Eu ia começar esse trabalho neste ano, já tinha escrito um rascunho de apresentação pro Wikiaves, comparando com escolhas do Inaturalist. Mas então tive o encontro budista em Jaú.

Não acredito no pacifismo, sou um guerreiro. Mas não sou apenas um guerreiro, sou um guerreiro amigo de bruxas, simpático a questões exotéricas, e uma das coisas que eu acredito é em coincidências que têm um sentido. Em sinais. Na máfia do invisível.

Na hora não concordei com tudo que minha amiga falou. Mas fiquei pensando se havia um motivo pra ter tido aquela conversa.

Falei pra minha amiga das minhas preocupações com o que o Wikiaves tem ensinado as pessoas sobre o que é passarinhar, com aquele ranking, votações, ausência de menções a trabalhos pela preservação, desconectado do GBIF.

Minha amiga me falou que eu superestimo a influência do Wikiaves, e que eu não deveria me preocupar com os que pensam diferente de mim, e sim trabalhar com as pessoas com quem tenho sintonia.

Tentar mostrar pro Wikiaves que eles incentivam comportamentos que eles acham ruins seria uma pedreira. Nem o moderador com quem eu tenho mais contato, pra quem mencionei o assunto, aceitou a ideia, me falou que é uma questão cultural de “brasileiro sempre estraga redes sociais”. E imagino que conversar com os outros seria mais difícil ainda.

A gente não deve evitar algo só porque é difícil. Mas reconheço que minha amiga pode estar certa sobre a existência desse outro caminho, o de parar de me importar com o que o maior site sobre aves brasileiras faz, e tentar ir me conectando com quem pensa diferente.

Mostrando fotos de bichos comuns, e de insetos, e flores. Fotografia submarina. Falando de prazer e diversão, nunca de lifers, metas, rankings. Incentivando as pessoas a também fotografarem insetos, flores, peixes. Fazendo posts com fotos grandes, com painéis. E divulgando no Facebook.

Vocês podem imaginar, sou uma lorpa em redes sociais. Não faço social com ninguém, não acompanho as postagens de ninguém, converso e agradeço quando comentam postagens minhas, mas raramente vejo as postagens dos outros. Mesmo assim, quando posto um desses álbuns de fotos tenho mais de 100 curtidas – o que me parece um número altíssimo pra quem é lorpa, low profile e não está postando fotos das aves chamativas. Minha alegria é pensar que estou ajudando as pessoas a pensarem na natureza de um outro jeito, nos passeios de um outro jeito, um que não precisa de lifers, metas e fotões impressionantes.

E posso ler comentários assim: adorei essa borboleta / adorei as fotos macro, que câmera você usou? / que fotos lindas / suas fotos são pura poesia.

Acredito no valor da luta, da guerra, da espada. Mas também acredito na possibilidade de construir uma nova realidade parando de alimentar pensamentos e energia sobre o que lhe parece ruim, e investindo em promover o que você acha bom.

Vocês já viram algo da Seicho-no-iê? Meu avô era da Seicho-no-iê. Foi o que lhe trouxe paz depois que o meio-irmão dele morreu de um câncer fulminante. Meu avô estava inconsolável, e a igreja católica não conseguia dar respostas. Acho que foi minha madrinha que o levou pra Seicho-no-iê. Assim como faço com qualquer tema, tento me apropriar do que me parecem ser pedaços da verdade. De uma forma meio enigmática ou dogmática, daquele jeito oriental, eles falam sobre o poder do pensamento. Uma das recomendações é a importância da gratidão, e também em, em vez de rezar pedindo algo, rezar agradecendo por algo já ter dado certo, como se isso intensificasse o poder da sua mentalização.

Também acredito nisso. Que nossos pensamentos influenciam na construção da nossa realidade.

Uns dias atrás meu parça do Clube dos Chatos perguntou quando a gente ia começar a tentar mudar o Wikiaves. Expliquei pra ele sobre a conversa com minha amiga, acho que ele entendeu, e concordou com minha decisão. E vai ajudar. Ele vai ser pai agora, nos próximos dias, mas falou que nos intervalos entre uma troca de fralda e outra vai começar a separar fotos dele também.

Um Cold Case de um assassinato de uma mulher bonita, uma oriental de cabelos longos, ela era membro da família real de um desses pequenos países que tinha deixado de existir e agora vivia nos Estados Unidos, bem pobres, mas com aquele porte de rainha. Mostra que alguns segundos antes dela levar o tiro, enquanto ela segurava no colo o marido morto, ela olha pro assassino e com muito desprezo e fala “você não existe”. Nego sua existência.

Sempre lembro disso. E tento ao máximo alimentar pensamentos, energia e tempo com as coisas que eu quero que existam, e tento não ocupar meu pensamento com pessoas que não me importam, ou que de quem eu não gosto, é como se fosse lixo mental. Penso em problemas como machismo, xenofobia, manipulação, escrevo, espero que isso ajude os outros a também lutarem contra o mal. Mas busco manter o equilíbrio, tento não ultrapassar a linha que faz seus pensamentos e ações fortalecerem o que você gostaria que não existisse.

E por isso estou dando razão pra minha intervenção budista.