Nada contra as periguetes

Sei que decepciono pessoas queridas ao falar isso, mas vou falar: não penso mal de periguete ou de qualquer pessoa que faz uso dos atributos físicos para se destacar

Posso achar engraçado o jeito como as pessoas, especialmente as mulheres, são capazes de se vestir. Ou ver um casal, em que o cara é obviamente muito legal, e a menina é uma chatonilda de corpo definidinho – e pensar “coisas que o sexo explica”. Mas nunca penso que essas pessoas são usurpadoras ou que estão fazendo algo imoral, errado. Na verdade, acho um puta preconceito considerar que inteligência, sorriso, simpatia, sagacidade são os atributos legítimos, e beleza física ou sex appeal é o jogo sujo.

Primeiro porque não considero sexo ou atração sexual coisas sujas. Segundo porque acho que todo adulto tem obrigação de se desenvolver como adulto – incluindo a capacidade de se entender com seus instintos sexuais. Um homem que promove uma gostosona só porque ela é gostosona, mas não tem competência para o cargo que ocupa, só dá força para o exército corola gritar que a gostosura tem que ser muito disfarçada, desincentivada, e até banida, sob o risco de injustiças. Mas veja que a culpa não é da gostosura: é do chefe que agiu com infantilidade.

O outro problema da exibição dos atributos físicos é o quanto somos palermas – em especial os homens brasileiros, na hora de passar uma cantada. O cara não sabe ser elegante e sedutor ao ver um decote ou umas pernas bonitas, então a culpa passa a ser de quem está mostrando o peitão ou as pernas. Mas, se os homens fossem só um pouco mais maduros e inteligentes, teríamos um ambiente muito mais divertido.

Não é legal ver gente bonita, trabalhar e conviver com gente bonita, ser atendido por gente bonita? E não estou falando de esterótipos de beleza, mas de gente de bem consigo e com seu corpo, e que consegue expressar isso pelas roupas que usa.

Mas não é assim que vivemos. Graças à grande miséria sexual do mundo, à falta de controle masculino (assédio de mulheres em homens é muito mais raro, e são pouquíssimos os casos em que o homem se sente ameaçado), e graças a nossas associações religiosas de que desejo sexual é algo sujo.

Então, nunca consigo participar das críticas à fulana que foi com um shorts muito curto ou uma blusa muito decotada. Dependendo do momento chego a dizer “qual o problema? O que é bonito é pra ser visto”.

Pra mim só há um porém com a gostosura: quando é demais, quando te faz pensar “esse cara / essa menina deve passar 3h por dia numa academia e deve ser muito noiada com tudo que come”, bom, o que eu penso é que fica mais difícil ser uma boa companhia para conversar, passear, viajar. Não é descabido imaginar que o foco dessa pessoa está no culto ao corpo e à aparência e, se esse também não é seu Norte, dificilmente é alguém pra mais de uma noite. Fora esse extremo, nada contra a beleza física.