Mitos, fotolivros, selfies. Ou, por que tudo que você fotografar de família, amigos ou de si ainda é pouco

Claro, sem chegar em níveis de crônicas de Millôr Fernandes. Mas dentro de um limite do razoável, acredite em mim: todo mundo devia ter mais fotos de si e das pessoas queridas. Há vários motivos:

– as fotos são uma ilusão da realidade. Ilusão no sentido de recorte, é um pedacinho que você decidiu destacar e valorizar. Uma grande oportunidade para fixar aquela imagem boa.

– as imagens nos ajudam a montar uma história e um sentido para nossas vidas. E não precisam ser só de imagens boas. Durante um período bem conturbado da minha vida eu tinha a foto de uma pena no chão. Uma pena branca meio desfragmentada, provavelmente de um pombo-doméstico. Dia nublado, luz triste, cena triste. Uma foto que eu ficava reolhando.

– relembrar é mais do que viver, é reinventar nosso passado. Vocês sabem que a memória não é algo fixo – nem confiável. Nesse processo de metamorfose constante, as imagens certas podem ajudar a guardar as coisas certas – que em geral são as coisas boas, mas nada impede que você guarde uma imagem ruim para não se esquecer por que não confia mais em tal pessoa.

Um dos caras com que eu saía – maldito racional calculista, não entendia por que os casais deviam falar coisas doces um para o outro. “Eu gosto de você, você gosta de mim. Já sabemos disso. Por que as pessoas precisam ficar repetindo essas coisas um para o outro o tempo todo?”, e eu explicava “porque existem os momentos ruins. E quando você está triste ou bravo com alguém, você se ancora na lembrança de todas as vezes que a pessoa falou que gostava tanto de você, e como você é importante pra ela. E isso pode ajudá-la a perdoar, a transcender”.

(Aliás, “eu gosto de você” e similares sinceros são o outro artigo que nunca é demais, assim como as fotos boas. Claro, tem que ser sincero. E ainda que a gente possa gostar de alguém só por gostar, penso que não é certo investir sua amizade em alguém que não tem a mesma consideração por você. Pérolas aos porcos.)

Aproveitemos que hoje em dia fotografar já não é ridículo como na época do japonês estereotipado, e registremos a alegria.

Como disse o Campbell, o tempo não volta. O que volta é a vontade de voltar no tempo.