Misantropos não entendem carência

Às vezes lamento não haver coisas ridículas como um clube de misantropos, ou um fórum de misantropos — contradições em termos, mas são daqueles momentos em que a gente gosta de pensar o quanto nossas excentricidades são apenas nossas, ou se são compartilhadas por outros da nossa tribo.

Curiosidade: desconfio que os misantropos são extremamente auto-suficientes e que odeiam ter que pedir alguma coisa ou depender de alguém.

Carência? O que é isso?

Quer dizer, não que a gente não goste de carinho, atenção e elogios sinceros. Só desconfio que de forma geral a gente cresce tentando se tornar alguém que depende pouco dos outros. Não queremos depender dos outros, pra nada. Principalmente pra questões emocionais.

Misantropos podem se apaixonar? Claro que sim. Antes de finalmente me amarrar com o Cris, me apaixonei várias vezes. Platonicamente. Algumas declaradamente, mesmo sabendo que não ia acontecer nada. Eu sei o que é ter o fogo que te corrói por dentro, que te torna monotemático. Mas também sabia dar um fim. Desde os 15 ou 16 anos, juro. Alguém capaz de me declarar pro garoto por quem eu era apaixonada e dizer “eu sei que você não gosta de mim, que você gosta da fulana. Mas preciso ouvir da sua boca que não vai dar certo entre a gente, pra eu parar de pegar qualquer coisa que você fala e interpretar como um sinal de que pode dar certo”.

Misantropos resilientes desalmados pragmáticos filhos da puta.

Não é que a gente não tem sentimentos. Temos muito, temos um vulcão aqui dentro. Mas não é um vulcão desgovernado, sabe? E desde a infância a gente vai desenvolvendo formas de conter o vulcão. Ou no mínimo, pra saber o que fazer nos casos de erupção.

“Você é do tipo ‘Quer ser meu amigo? Vou pensar no caso. Não quer? Foda-se’ ” — uma das frases ótimas do Cris pra me descrever. O “foda-se” é mais engraçado, mas o mais correto seria um “não me importo”.

Detesto ter que pedir qualquer coisa. Quando alguma entidade (natural ou sobrenatural) vem me pedir fotos de natureza, e eu não tenho o suficiente, e preciso pedir pros meus colegas, ai que cacete ter que pedir e ter que ler as reclamações sobre as entidades que pedem fotos. Os únicos momentos em que lamento não ser listeira, ter mais de 1.500 espécies de aves brasileiras registradas com fotos ótimas e não precisar pedir nada pra ninguém.

Pedir carinho também é algo estranho demais. Aliás, nunca penso que é pedir carinho, sempre penso que é mendigar carinho, porque carinho não se pede, eu acho que ou rola ou não rola.

Sei trabalhar em campanha de doação de alimentos. Soube vender 100 Super RGs. Mas as situações em que eu tenho que pedir algo, ouço uma réplica, e tenho que bancar a civilizada são absolutamente antinaturais.

A gente está procurando apartamento pra mudar. Um que a gente gostou precisaria quebrar uma parede de dry wall pra tornar a sala grande, e o dono não está topando. O Cris já imaginou vários argumentos pra comover o tal delegado de justiça. Enquanto eu já estava no pique de “não quer deixar a gente quebrar a parede? Foda-se, vamos ficar com o outro apartamento”.

“Você é uma péssima negociadora”

“Sou. Como você falou ‘Quem quer, quer, quem não quer, foda-se’ “.

Paparicação não é comigo. Vacilo não é comigo. Enrolação não é comigo. Incertezas paralisantes não são comigo. Frescura não é comigo. Dó não é comigo.

Ou seja, chantagem emocional com misantropos não funciona. Argumentos toscos também não funcionam. Apelos pra piedade, pra dar um desconto, também não adiantam. A gente sabe o que é sofrimento real e pesado. Luto e separação de pessoas queridas estão numa categoria. Angústias e incertezas sobre a vida estão num outro balaio, o balaio dos temas com que lidamos o tempo todo desde a infância, e não temos a menor disposição em tratar alguém com dozinho.