misantropia

O que é ser misantropo – parte 1

O verbete da Wikipedia é bom: https://pt.wikipedia.org/wiki/Misantropia

E se quiser ler mais posts sobre misantropia, criei uma categoria: http://claudiakomesu.club/category/_misantropia/

Não costumo assumir rótulos, mas aconteceu do Cris me contar um diálogo com um dos melhores amigos dele, um dos caras que deu o tal presente pirografado muitos anos atrás. Eles conversavam sobre trabalho voluntário, e o Cris falou “tem as ONGs ligadas ao meio ambiente, eu poderia me interessar porque é assunto que a Claudia gosta, mas sabe como é complicado, ela é misantropa e…”, e o tal amigo disse que não tem problema, que ele conhece uma ONG em que o fundador também é misantropo, e acha que daria para encontrar uma função legal que respeitasse minha misantropia.

Sempre falo de ermitão, isolamento, torre, anti-social. Mas eu nunca tinha levado a sério a ideia de ter um rótulo clássico descrito pela ciência. Se você também se sente um pouco desenquadrado, ou precisa entender um ermitão, talvez este post ajude 🙂

O Google repete os mesmos trechos, em inglês e português. O texto de que mais gostei é este:

http://tartarugademocratica.wordpress.com/2014/01/17/misantropia-socializacao-e-respeito-vantagem-ou-desvantagem/

“Misantropia NÃO É uma doença, nem um distúrbio, mas apenas um padrão comportamental, como muitos outros, não existe tratamento e, penso eu, que nem deveria existir um; pois, reitero: NÃO É DOENÇA, E O MISANTROPO É QUASE SEMPRE UMA PESSOA FELIZ.

Por ser extremamente caseiro e reservado, o misantropo tem uma enorme tendência em ser uma pessoa reflexiva e observadora; normalmente utiliza-se de ironias para se referir a grupos de pessoas, pessoas ou situações. O misantropo normalmente prefere gastar seu tempo com atividades literárias, seja no sentido de letramento tal como abordado por Magda Soares apud Simões (escrever e ler), como este que vos escreve; ou como o misantropo moderno, muitas vezes confundido com os geeks, que são os nerds de computador, muito envolvidos com informática e TI. (…)

O misantropo por preferir o isolamento, só participa de eventos sociais ou tende a se socializar quando extremamente necessário, sendo muito pragmático quanto às pessoas à sua volta (…)”

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Vou falar das partes com que me identifico e que parecem ser comportamentos típicos. Compartilho aqui porque sempre acho que ler sobre as coisas estranhas que os outros fazem ajuda a se sentir mais normal.

– Gosto de ficar sozinha. Gosto mesmo. Sou aposentada, no apartamento em que moramos não tem nem gato, cachorro ou planta. O Cris passa o dia fora, o Daniel vem uma vez por semana, e nos fins de semana a cada 15 dias. Sou capaz de passar o dia sozinha, sem falar com ninguém. Em geral tenho e-mails ou zapzaps pra responder, mas ainda assim muitos dias fico offline pra poder me concentrar em algum trabalho, e em geral não me sinto solitária. (fora em algumas poucas ocasiões em que me sinto fraca, fracassada, solitária, chata, sem graça, sem amigos, pensando que eu devia ser uma pessoa diferente… mas sempre passa, e cada vez mais rápido).

– Tenho aversão a multidões. Aversão de evitar festas ou aglomerações (o Cris se diverte em falar que eu evito lugares com mais de 3 pessoas), de voltar cansada e às vezes com dor de cabeça depois de ter que andar em um lugar com muita gente (mais de 3), de quase ter surtado uma vez que fomos ao Z Déli da Augusta comer hambúrguer e era um lugar tão pequeno em que as outras mesas ficavam tão coladas que o Cris teve que me falar “aqui, olha pros meus olhos, respira”.

– Fui capaz de pedir pra não ser mais madrinha de casamento de uma pessoa querida, porque a tarefa – só soube depois, requeria costureira, três ou quatro provas de vestido na companhia das outras madrinhas, preferencialmente maquiagem e cabelo na companhia das outras madrinhas – e usar cor de rosa. Não é algo de que me orgulho, e foi difícil ter que explicar isso pro amigo, mas conforme as instruções iam chegando, comecei a me imaginar bem brava no dia da festa – que deveria ser um momento de pura alegria, então, com muita delicadeza, pedindo mil desculpas, dizendo que eu sou estranha e esquisita, que gosto de andar no mato, que não tenho nem secador de cabelo, pedi pra sair.

– Não ter grande interesse por festas. Ser idiota a ponto de às vezes contar isso. “Me desculpe, acho que não vou à sua festa de aniversário… se você estivesse com um problema, precisando de verdade, eu iria, mas pra uma festa, não conte comigo”.

– Não vejo minha família com frequência, apesar dos meus pais não morarem longe. Mas converso bastante com eles toda semana, às vezes falo que vou, e são eles que dizem pra não ir, que é cansativo pra mim. Meu pai – outro misantropo inveterado sempre me diz “amamos você, você nos ama, todas as vezes que precisei você veio. Não se preocupe com o resto”.

Sei que sou esquisita, mas sei disfarçar, e se não fosse uma tendência à sinceridade muita gente nem saberia.

– No trabalho, por exemplo, eu era totalmente funcional e, acreditem ou não, tendendo pra Miss Simpatia. Depois que saí, e o Cris comentava com alguém sobre o “ah, não, a Claudia não vem porque é uma festa e tem mais de 3 pessoas”, meus colegas ficavam surpresos.

– Houve uma ocasião em que trabalhei num estande de uma RPPN que eu ajudava, e as pessoas me conheciam principalmente por e-mail, em que eu falava francamente minhas opiniões. Meu amigo da RPPN ficou abismado de me ver atendendo as pessoas, vendendo produtos. E até confessou “quando você contou que tinha vendido 100 Super RGs no seu trabalho (um projeto muito legal, um Super Trunfo de aves brasileiras) até pensei que você podia estar mentindo, que você tinha comprado mas pra não me chatear disse que tinha vendido… mas agora eu acredito que você vendeu”.

– Sou capaz de ir a um show ou a uma apresentação. Por exemplo, umas semanas atrás vimos duas apresentações de Cirque du Soleil em Las Vegas, e mesmo tendo sido zoados no Mystere (daquelas situações em que tem um palhaço que te pega pra Cristo, passeia com você pelas fileiras, holofotes na gente, todo mundo rindo), isso não foi ruim. Talvez porque estava tudo dentro de um contexto. Mas ir a um restaurante e ter que ficar ouvindo o papinho da mesa ao lado me incomoda muito, ter que ouvir as histórias dos outros invade totalmente minha privacidade. Eu e o Franzen grunhimos de frustração.

Bom, cabe perguntar: por que raios eu sou contra a socialização? Veja o próximo post.

 

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