Misantropia não é doença, é ideologia

Misantropia não é doença. Transtorno Obsessivo Compulsivo é um distúrbio leve ou pesado e que muitas vezes obriga a pessoa a rituais que ela mesmo detesta. Transtorno bipolar é uma doença que precisa de remédios. Depressão é doença e pode levar a suicídio (a OMS acha que pode ser a doença mais comum do mundo daqui a 17 anos). Anorexia e bulimia são doenças que também podem matar ou deixar a pessoa com deformações pro resto da vida.  Claustrofobia, síndrome do pânico, agorafobia também são doenças que incapacitam a pessoa de fazer várias coisas.

Mas misantropia não é doença. A misantropia não me impede de fazer coisas. Eu faço escolhas. Não é como agorafobia ou claustrofobia. Posso ficar brava e irritada, mas nunca será algo que vai causar uma reação violenta-agressiva. Xingo por dentro, xingo pra alguém querido. Mas não causo, não vou estragar o evento.

Ao que me parece as doenças e distúrbios são as coisas que te limitam, te prendem, te impedem de fazer coisas que você queria fazer, ou fazem você agredir os outros ou a si mesmo. E vários transtornos citam o problema da falta de empatia, algo que realmente não me falta. Eu posso escolher não agir com piedade pelo outro, mas entendo o que ele está sentindo.

Neste ano arrumei o apartamento, dei um jeito em várias bagunças, chamei até encanador e eletricista, tenho plantas no apartamento (cactos e suculentas, coisas que não vão morrer na minha próxima viagem) e ando feliz da vida em passar muito tempo em casa. Mas se meus amigos me chamam pra sair, eu vou. Se tiver uma exposição ou mesmo um show que eu quisesse ir, eu vou. Vou a festas importantes, participo de datas comemorativas importantes, falo sempre com a minha família e os vejo imediatamente se acontecer algo que eles precisam de mim. Vejo sempre a família do Cris.

Não gosto de muvuca, não gosto de aglomerações, não gosto de ir a festas ou eventos porque em geral me pego pensando “eu podia estar em casa, vendo fotos. Ou escrevendo. Ou desenhando”.

Meu problema não é encontrar com outras pessoas: meu problema é encontrar com outras pessoas com quem sinto pouca conexão. Em geral não tenho interesse em falar de atualidades e frivolidades, e em geral as pessoas não falam de forma aprofundada sobre nada, principalmente sobre elas mesmas. Não preciso sempre de intimidade, só preciso de assuntos interessantes. Falar com franqueza sobre si é sempre interessante, mas também tem casos de pessoas que não falam sobre si, mas sabem falar de temas bons. Tem um amigo do Cris apaixonado pelo trabalho que sempre está aprendendo algo novo, e nos encontros se você pergunta ele é capaz de te explicar o funcionamento e o mecanismo de muitas coisas. Eu gosto de encontrar com ele, encontraria sempre com ele. Iria a mais encontros sociais se sempre encontrasse pessoas com quem aprendo coisas.

Mas sair de casa pra ter conversa de salão? Pra ouvir comentários sobre notícias de portais, reclamações sobre chefe ou colega de trabalho, comentários fúteis sobre qualquer coisa? Porra. Por que tem gente que acha que eu sofro de algum transtorno ou doença porque evito essas situações?

Não é errado viver na badalação, de festa em festa, postando tudo no FB e no Instagram. Errado é tentar dizer que quem não faz isso tem doenças e transtornos.

Acho que sou misantropa desde sempre. Por personalidade, por questões de criação familiar. Meus pais são mais misantropos do que eu, eles são capazes de não ir a casamento ou festas importantes de parentes que moram na mesma cidade. Eles não incentivavam a ideia da gente ir na casa dos amigos “enche o saco” (dos outros, não queriam incomodar), mas sempre recebiam todo mundo que ia em casa, e era muita gente. Meus amigos da adolescência eram sempre muito bem recebidos, com comida e bebida, e podiam ficar até a hora que quiséssemos. Eles entendiam que eram nossos amigos, nossas companhias favoritas. E que era muito melhor assim do que a gente na rua, sem saber onde estávamos.

O que é uma criança, adolescente e jovem misantropo? Difícil definir, mas vou dar um chute, com base em mim. Pessoas não populares, com pouca desenvoltura social, não sabem contar piadas, ser o centro das atenções, não tentam falar mais alto pra chamar a atenção do grupo pra sua história, não interrompem os outros, na verdade estão ouvindo o que os outros estão falando. Reparando em tudo. Aprendendo como o mundo funciona.

Não somos do grupo dos populares, mas em geral somos inteligentes, disciplinados e honrados, e as pessoas a nossa volta percebem isso. Eu não era do grupo dos descolados, mas todo mundo queria fazer trabalho em grupo comigo. Não fugimos de festas e aglomerações, mas eu era capaz de num churrasco à noite, montar o confessionário: não ficava nas rodinhas de conversas cheias de risos, e sim num canto, em que conversava com uma pessoa de cada vez, momentos pra gente falar de coisas íntimas e importantes.

Fui a festas, quando podia viajava com amigos, tive uma vida intensa de relacionamentos virtuais, e um punhado de casos reais, vários com pessoas que conheci pela internet, algo bem comum agora, muito mal visto quase 20 anos atrás.

Um tipo calado (como o Haroldo), mas capaz de alimentar conversas diversas, a ponto de no começo surpreender o Cris. Festas que a gente ia juntos, e ele achava que eu ia ficar num cantinho, e de repente descobre que estou conversando com várias pessoas. As pessoas da consultoria não desconfiavam da minha misantropia.

E acho que os misantropos são assim: totalmente funcionais. Inteligentes, intelectualizados, com sensibilidade artística, com muita percepção sobre o mundo e as pessoas – e junta tudo isso, é ou não é fácil decidir que em geral você está melhor sozinho do que na companhia de pessoas que acham que aquela pobreza são interações sociais?

Não é que a gente não goste de pessoas. Gostamos das pessoas. Mas gostamos das pessoas de verdade, pra saber delas de verdade, não pra papinho de salão. Acho que o grande problema é que em festas e eventos, as pessoas ligam o modo “conversa de salão”, e no geral só falam de assuntos inócuos, há pouca oportunidade pra ter um momento real.

Alain de Botton entende. Ele falava sobre o “o que você faz?”, das festas, e como seria diferente vivermos num mundo em que as primeiras perguntas são coisas do tipo “do que você tem medo?”, “o que você não consegue perdoar?”, em vez de algo relacionado com a sua profissão.

Misantropia não é doença ou transtorno. São escolhas com base em experiências próprias e conhecimento sobre o mundo e as pessoas.

Encontrei um blog de que gostei muito do texto sobre misantropia, tão detalhado em situações que me fez pensar “tá. De onde você sabe tudo isso? Deve ser por experiência própria”. Trechos como:

“A crítica que fazem, não tem o desejo de ofender ou engrandecer autores, artistas e etc., eles são especialmente neutros quanto a fama de alguém e por isso fazem uma crítica “limpa”;

um misantropo pode ser extremamente perfeccionista no que faz, mas, mesmo que não tão exageradamente, possui um quê de fazer corretamente e de forma perfeita.

A pior coisa que se pode fazer a um misantropo é forçá-lo a algo; quando forçado, ele irá fazer de mal grado e com certeza te infernizará até que você desista e diga que ele não precisa continuar.

Ser misantropo é uma ideologia, isso ocorre por viverem em um mundo de raciocínio tão lógico, que analisam o ser humano constantemente e sentem repulsa; são frios, mas extremamente sensíveis.”

http://baudasvariedades.blogspot.com.br/2011/04/misantropia.html

Gostei bastante dessa. Ser misantropo é uma ideologia.

Da próxima vez que te perguntarem, ou que você se perguntar se misantropia é doença, acho que essa é uma boa resposta: não, misantropia não é doença, é ideologia.

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E qual a diferença entre minha ideologia misantropa e misóginos, machistas, rascistas, nazistas, xenófobos, ou quem despreza pobres, ou quem não tem PHD, ou quem comete erros de gramática, ou quem é evangélico, ou quem é espírita, ou quem é da umbanda? É simples. Eu não sou burra. E não agrido nem machuco gratuitamente, burramente.

O que é agir burramente, agredir gratuitamente? Achar que mulheres têm capacidade intelectual inferior a dos homens e merecem ganhar menos. Ou que se o homem não consegue controlar seus impulsos de agressão sexual, a culpa é da mulher que usava roupa curta ou decotada. Ou achar que se a pessoa é negra ela vai te roubar. Ou que se ele é judeu ele merece morrer. Ou se ela é oriental você pode falar diversos desaforos e tudo bem. Ou que todas as pessoas de tal religião são de tal jeito. Dizer que o machismo não existe porque as mulheres têm expectativa de vida maior e no Brasil podem se aposentar antes. Ou concluir que uma pessoa com uma câmera grande num parque estadual, nacional ou municipal só pode ser um profissional, e portanto tem que ser proibida de fotografar.

Tudo isso é ser MUITO burro.

 

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