misantropia

Misantropia é doença?

Não. Misantropia não é doença. É como a cura gay: não há cura para o que não é doença.

Entretanto, há casos de pessoas que têm algumas características misantropas, mas além da misantropia possuem problemas. Essas pessoas precisam de ajuda, mas não é a cura misantropa, e sim ajuda para aquilo que as tornam infelizes.

O protagonista do Mr. Robot é muito inteligente, genial até. Gosta de ficar sozinho, não gosta de multidões, quer fazer o bem. Mas ele tem um problema: ele se sente sozinho. Ele tinha uma grande amiga, por quem até tinha se apaixonado, mas ela só o via como amigo, e agora namora outro. Ele tinha uma vizinha, fornecedora de drogas, que ele gostava da companhia. Mas ela morreu. Agora ele trolou a terapeuta dele, trolou no sentido pesado, de a aterrorizar ao contar que ele é hacker e hackeia a vida dela e de muita gente. Porque se sente triste e sozinho.

O problema de Elliot não é a misantropia, é estar sem amigos, sem amor. Qualquer um pode se sentir só. Se você se sente só, precisa ir atrás de companhia.

Há outros casos. Nestes dias conversei com alguém que tem algumas características de misantropo mas é  alguém com problemas. “Gosto de ficar sozinho. Não gosto de ver gente, não gosto dessa história de encontrar amigos, fazer reunião com amigos. Não sei do que eu gosto, o que eu quero. Eu acordo, vou trabalhar, volto, mas ainda não tenho um hobby, um lazer, não sei o que eu quero fazer”. “Você devia passear mais, viajar mais”. “Não gosto de viajar, fico ansioso, preocupado com as coisas que podem dar errado”. “Isso está errado. Viajar, conhecer outros lugares, ver como as outras pessoas vivem é uma das melhores coisas do mundo. Você tem que aprender a relaxar pra curtir a viagem”. “Cada um é cada um, eu tenho o direito de não gostar de viajar”. “Não tem não. Você não gostar de viajar (e de encontrar amigos) é um sinal de que você tem problemas, você devia fazer terapia”.

Somos seres sociais. A vida em sociedade é uma das principais características do que define ser humano. Vivemos em sociedade e precisamos do contato com outras pessoas. Misantropos não são pessoas que vivem isoladas, e sim pessoas que assumiram que são exigentes quanto ao tipo de contato que querem ter.

Elliot do Mr. Robot é um misantropo que está surtando porque se sente desconectado da melhor amiga (pelo menos nos episódios que eu estou vendo). Eu também ficaria mal se não tivesse mais pessoas queridas, com quem me sinto à vontade, com conexões de alma.

Meu amigo que não sabe do que gosta e não se interessa em fazer encontros com amigos… não sei se ele é mesmo um misantropo. Talvez seja só uma pessoa com muito entulho, que precisa de bastante ajuda pra se descobrir, pra saber quem ele é, do que ele gosta. E quando ele conseguir avançar nisso, talvez ele descubra que nem gosta de passar tanto tempo sozinho.

Talvez eu esteja apenas dourando a misantropia. Mas realmente vejo a misantropia como algo bem definido: profunda consciência do eu e do tempo, não querer desperdiçá-lo fazendo coisas ou tendo que papear com pessoas que não te interessam intelectualmente ou por quem você não tem carinho e consideração. Precisar de um tempo sozinho. Ser bastante seletivo com quem você escolhe passar seu tempo.

Pronto.

Se além disso a pessoa se sente sozinha, ou angustiada, ou isolada, essas coisas não são misantropia. Elas podem ser carência, confusão, solidão. Se você está triste por estar sozinho isso não é misantropia. Significa que você devia procurar companhia. Vá atrás de amigos, de amores.

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Como se fosse fácil. É fácil?

Nem sempre é fácil. Mas invista em você. Em saber quem você é. Do que você gosta. Em gostar de você. O meu lado que acredita em magia diz que isso torna tudo mais fácil. Que sabendo quem você é e gostando de você, você atrai as pessoas certas.

Eu não sou alguém que busca novos amigos. Quero aproveitar os que eu tenho, os que eu não vejo faz tempo, às vezes anos, mas fazem parte da minha história de vida. Não fechei a porta, só não faço buscas ativas.

Entre os meus amigos mais queridos, dois deles conheci há pouco tempo, algo como uns dois anos, num momento em que me senti sozinha e decidi que precisava conhecer novas pessoas.

Se por algum caminho tortuoso da vida eu me afastar desses amigos (mudança de cidade, correrias loucas de trabalho, ou de repente eu ou eles mudamos nosso jeito de ver o mundo e nos desintonizamos), e eu começar a me sentir sozinha, eu irei atrás de novas companhias e acho que não seria tão difícil achar. Sou seletiva e chata que a porra, e esses meus amigos são pessoas muito especiais. A crença de que não seria difícil achar não é um desprezo por quem eles são, ou ignorância sobre como eu sou exigente, é só minha crença em magia.

Talvez você pense que é apelativo e idiota usar o argumento de magia, mas tem muitas vezes que eu realmente acho que tem tudo a ver com magia. Encontrar as pessoas certas. Eu acredito em magia (ou seja, em auto-conhecimento, em rigor, em franqueza, em verdade, honestidade, intensidade), e coisas boas acontecem na minha vida.

Se você estiver precisando de companhia, acredite que você vai encontrar. Ande com passos leves, aberto ao mundo. As linhas certas vão se conectar, os caminhos vão se cruzar. Mantenha os olhos abertos, e não será como dois navios à noite.