Millennials, Geração Z, procrastinação e misantropia

Tenho 40 anos, nasci em 1977. Sou o final da geração X, um final que já sabia que carreira profissional não seria o foco da minha vida. Não queria ser engenheira, médica ou advogada, não queria ser diretora, vice-presidente ou presidente. Escolhi cursar editoração e, antes de conhecer o Cris, achava que levaria uma vida bem simplória mas sem grandes tensões e perrengues.

Sou responsável e nem um pouco procrastinadora, pelo contrário, na consultoria meus chefes davam risada de mim com frases do tipo “daí veio a Claudia, que não consegue deixar bola pingando”. Não fico adiando tarefas, responsabilidades conversas ou respostas, mesmo que seja pra falar “desculpe, não sei responder isso”, ou “vi sua mensagem, mas só poderei trabalhar nisso na semana que vem, te aviso”. E vivo cada vez mais num mundo em que as pessoas não respondem nem mensagens importantes nem perguntas se vamos nos ver na data tal.

O que eu sei sobre a Geração Y e a Z?

Tenho um enteado nascido em 2003. Ele é Geração Z, mas atípico. Não procrastina, pelo contrário, em geral faz as tarefas antes do prazo. Por personalidade e educação familiar ele é bastante responsável, e a gente incentiva isso. Ele é gamer, como quase todo mundo da geração dele e de outras, e usamos isso a favor. Não somos os pais tolos que ficam falando mal de jogos e computadores – a gente joga com ele, desde que ele começou com o Wii quando tinha 7 anos, e hoje a gente joga juntos jogos de computadores e temos assunto infinito. Ele faz a lição de casa antes do prazo, pra poder jogar sem ninguém perguntar se ele já terminou a lição, e nos jogos se ele decide fazer alguma coisa, ele estuda os vídeos e faz.

Ele é muito inteligente, tem o raciocínio bem rápido, tem toda aquela desenvoltura com tecnologia, pesquisas. Mas tem 13 anos. Ou seja, também tem vários momentos de destempero emocional, principalmente quando está com fome ou cansado. E a gente nunca deixou barato “Sei que você está cansado e com fome, mas não é motivo pra falar desse jeito”. Nos amamos muito e temos muitas discussões, aliás, é um dos meus orgulhos que a gente cultive nele o entendimento de que você deve conversar, falar racionalmente sobre o que você não concorda ou está bravo, e que podemos até brigar, mas que depois nos abraçamos, pedimos desculpa e fica tudo bem. Quem evita conflitos perde muita coisa da evolução como ser humano.

Temos regras claras sobre obrigações. Você tem a obrigação de ir bem na escola, você tem a obrigação de fazer exercícios físicos, você tem a obrigação de ter um grupo de amigos e se relacionar com eles, você tem a obrigação de tratar bem as pessoas, especialmente a família. Enquanto você cumprir suas obrigações, você tem liberdade pra ocupar seu tempo livre com jogos, vídeos do youtube, leitura, o que você quiser. Se você deixar de cumprir alguma delas, essa liberdade que você tem pode ser revista.

Ele anda muito na linha.

Foram poucas as vezes em que a gente precisou ter conversas sérias com ele. Ele é muquirana, economiza a mesada, não se importa com roupas ou marcas, não se importa em usar roupas de segunda-mão (a mãe dele tem uma amiga com um filho um pouco mais velho, e ele ganha várias roupas que não servem mais pro filho dessa amiga). Tem atitudes de líder: no último aniversário dele, numa hamburgueria, o Cris viu ele mandar 10 garotos ficarem quietos enquanto anotava os pedidos de cada um com os detalhes do lanche, e quando o garçom chegou ele só leu a lista e deixou o garçom surpreso.

Qual será a profissão dele? Não sei. Quando ele era pequeno, uns 7, 8 anos, falou que não queria ser médico (a mãe dele é médica), porque vê o quanto os médicos trabalham, inclusive em fins de semana e qualquer horário, e que gostaria de ter algum trabalho que permitisse que ele viajasse bastante (que deve ser como ele vê o Cris).

Ele é desses felizardos que gosta de matemática, é a matéria favorita dele, então talvez ele vá pra exatas, quem sabe até faça alguma engenharia. Ou não.

Sei de vários garotos de 20 e poucos anos, filhos de conhecidos do Cris, que cursaram ou estão cursando Letras, Música, Filosofia, História, Psicologia. Tem pelo menos dois que começaram a fazer Economia e resolveram mudar de curso: pra Letras e pra História, pro desespero dos pais. A mãe de uma dessas pessoas disse que todos os amigos da filha também decidiram fazer cursos assim, e que ela não sabe de nenhum que tenha feito engenharia ou medicina.

— x — x

A procrastinação e a misantropia são coisas distintas. Você pode ser um extrovertido procrastinador, você pode ser um misantropo que não procrastina.

Há várias explicações de por que a procrastinação é tão disseminada entre as Gerações Y e Z, e a meu ver há três fatores bastante inter-relacionados:

– internet, indulgência dos pais e a consciência sobre a farsa do sucesso.

Em um cenário em que:

– há fontes demais de informação, diversão, ocupação, e muita, muita dispersão, com toda a facilidade de ficar pulando de uma aba pra outra, de um app pro outro;

– há pais indulgentes, em geral gente que teve que trabalhar duro e querem dar aos filhos conforto, mordomias e oportunidades que não tiveram (mas confundem isso com falta de rigor ou de cobrança);

– em um mundo globalizado com sucessivas crises econômicas, em que você sabe que se matar de trabalhar não garante uma vida feliz;

– como não surgiriam um monte de jovens procrastinadores que não querem carreiras de sucesso e prestígio, que não têm pressa de sair da casa dos pais, que não sabem o que querem da vida?

— x — x

Até a geração X ainda havia a ideia de estudar, conseguir emprego, sair de casa, comprar uma casa, casar, ter filhos.

A partir da Y só existe o estudar. Pra alguns o emprego ou é um mal necessário, ou é visto como extensão dos estudos, oportunidades para aprender mais. Com o objetivo de ser um ativo mais valioso, com chances de melhores salários, cargos mais altos. Ou só porque é tedioso ficar na mesma função por muito tempo. E muitos continuarão morando com os pais, sendo sustentados pelos pais.

Não existem mais grandes eixos. Sucesso profissional. Casa própria. Encontrar um grande amor, casar e ter filhos, tudo é visto como farsa. Como não se sentir perdido? Como não procrastinar infinitamente, vagando pelas redes sociais, relacionamentos superficiais, vídeos, twitters, posts?

A previsão é de que em 20 anos, metade das vagas de emprego vão deixar de existir pelo desenvolvimento da tecnologia. E há uma grande discussão de como será feita a distribuição das riquezas, a possibilidade de no futuro qualquer pessoa receber uma renda básica, só pelo fato de existir, sem precisar fazer nenhum trabalho. Mas é um cenário incerto e num futuro não tão imediato.

— x —

Não é você. Não é uma questão de personalidade, genética ou azar. Há todo um caldo que preparou essa situação e aí está você: em busca de sentido, motivação. Sem conseguir encontrar algo bom o suficiente pra vencer a procrastinação ou a mera inércia.

— x — x

Um dos leitores do .club com quem troquei e-mails uma época, que falava sobre o problema de procrastinação disse que lamentava que os pais não fossem mais rigorosos. Que ele gostaria que houvesse acordos e cobranças, e que talvez isso tivesse feito diferença na capacidade dele de executar tarefas.

Há perspectivas sombrias pra geração que não quer sair da casa dos pais, que não tem grandes preocupações em guardar dinheiro, que viverá mais de 100 anos e que vai enfrentar as reformas da previdência necessárias pra adaptar as contas pra nova expectativa de vida: https://www.vice.com/pt_br/article/o-futuro-dos-millennials

Claro que esse é um cenário generalizado. Eu acredito na felicidade pessoal de várias pessoas, acredito que inteligência, conhecimento, zen, sabedoria, podem fazer a pessoa viver bem mesmo sem ter muito dinheiro. Mas o artigo da Vice faz sentido pra um panorama.

— x — x

E o que você pode fazer pra vencer sua procrastinação?

Acredito que são duas atitudes principais que precisam andar juntas:

– Buscar o seu sentido. Ter várias experiências, procurar conhecer pessoas, associações, ONGs, trabalhos voluntários, grupos, hobbies – e descobrir qual é o momento em que seu coração vai saber, sua alegria vai saber.

– Se sujeitar a algumas técnicas demodê chamadas planejamento, comprometimento, disciplina, foco, concentração.

Eu sei que você é multitarefa, e é tão legal ser multitarefa. Mas dispersão é dispersão.

Comprometer-se com algo exige momentos, horas, meses ou anos (por exemplo, quando você decide dividir sua vida com alguém) tendo que fazer coisas que não são pura fruição que você pode começar e interromper quando quiser.

Comprometer-se exige obrigações. Acordos. Coisas que você terá que fazer mesmo que te obrigue a sair da sua zona de conforto, ter menos tempo pra fazer suas tarefas favoritas e descompromissadas, como os jogos, os vídeos, as redes sociais, o borboleteamento entre as notícias – que são as tarefas que em geral não exigem nada, não te cobram nada, não enchem o saco e você só faz quando quer.

 

Parece horrível se comprometer com algo ou alguém?

Tem muitas partes chatas sim. Mas é impossível realizar algo se você não decidir dar esse passo.

Quer ser escritor de sucesso? A maioria das coisas que parecem ótimas demandou os 90% de transpiração. Trabalhando re-trabalhando reeditando, lendo a concorrência e críticas, aprendendo o que funciona e o que não funciona, editando de novo, buscando os personagens certos, as frases certas, o universo certo.

Tenho certeza de que você pode ser um escritor de sucesso. Mas também tenho certeza de que você não será se não colocar disciplina na sua rotina. Obrigar-se a trabalhar x horas por dia no projeto. A vencer a inércia, a vencer a vontade de ficar de aba em aba, de app em app, ou de apenas não começar a fazer.

Não tem outro jeito. Ou você assume um compromisso e trabalha com afinco, ou não vai conseguir fazer algo legal.

 

Misantropos e muitas pessoas das Gerações Y e Z são bem inteligentes. Use sempre a seu favor. Pesquise sobre planejamento, disciplina, como fazer seu dia render, e aplique as técnicas, ao mesmo tempo que você busca a tarefa e ou as pessoas que vão te dar o click, a sensação de que que aquilo é diferente e te move de coração.

Dá trabalho e provavelmente vai ter bastante frustração no meio,  mas a alternativa a isso é continuar na sensação de vazio, tédio, insatisfação.

Quer dizer, eu suponho que você tenha vários momentos assim. Todo mundo que me escreve, eu sempre suponho que a pessoa tem alguma insatisfação séria na vida, ou não teria caído no .club e se dado o trabalho de me escrever.

Talvez você me fale que está tudo bem na sua vida, que você está feliz e só quis me contar que às vezes pensa em escrever, e eu que entendi errado. Se for isso, peço desculpas pelo meu erro de julgamento.

Mas se eu estiver certa, simplesmente comece a trabalhar no seu projeto. Não tem outro jeito de dizer isso, ou de fazer isso: você tem que assumir um compromisso, colocar disciplina na sua rotina, e cumprir seu compromisso. Sem preguiça. Sem enrolação. Simplesmente faça. Comece como uma obrigação, e com o tempo vira hábito e se for a tarefa certa vira prazer, algo que você faz sem nem precisar colocar o despertador ou se obrigar.

Tenha planos de médio e longo prazos, e tenha planejamento de atividades semanais e até diárias, e cumpra o plano. Saiba que tem que dedicar pelo menos x horas por dia pra tarefa. Obrigue-se a ficar com aquele tema e mantenha as abas fechadas, o celular longe.

Foco, dedicação, disciplina, comprometimento. Fazer qualquer coisa sem essa postura é bem mais difícil, e às vezes impossível.

Vai. Apenas vá.

 

Se quiser ler mais algumas coisas sobre Geração Y:

http://www.huffingtonpost.ca/ken-rabow/mentoring-millennials-_b_11741640.html

https://www2.deloitte.com/pt/pt/pages/human-capital/articles/geracao-millennial.html