Meu profundo respeito por quem me xinga do fundo do coração

“E você, e você também: vão tomar no cu por não terem ido no meu casamento. Vão tomar no cu. Vocês não imaginam como me doeu quando eu entrei na igreja e vi que da nossa família só tinha a Simone, o Fábio, a tia Luzia e o tio Zé”.

Desde o começo da conversa eu já tinha me aproximado e colocado as duas mãos sobre os ombros dele, quase como um abraço, pra dar aquela certeza de que ele podia falar tudo que ele quisesse e que eu estava ouvindo.

Se ele estava bêbado? E daí. O álcool não transforma ninguém, só tira travas e inibições. “Não leve em consideração o que eu falei, estava bêbado”, imagine, os bêbados são os mais confiáveis pra verdade.

Fui xingada do fundo do coração, e meu coração se encheu de amor. Depois pensei no Franzen contando sobre as discussões amorosas por celular, berradas a plenos pulmões, e que o enchiam de esperança na humanidade. Pensando na catarse de poder falar pra alguém que te magoou, enchendo a boca, “vai tomar no cu”.

O Cris e o Daniel já tinham vindo me chamar pra ir embora três vezes. O Daniel estava quase chorando. Era mais de meia-noite e a gente tinha 2h de estrada. Por fim o Cris me falou “eu vou embora com o Daniel, você pode ficar” (não era o fim da picada, estava cheio de parentes pra pegar uma carona e depois um ônibus no dia seguinte, ou um hotel e ônibus no dia seguinte), mas não foi preciso, a Virgínia me arrancou de lá, garantindo pro Renato que eu tinha entendido tudo.

Em meio ao vai tomar no seu cu por não ter ido ao meu casamento, e todos os outros palavrões não verbalizados mas que estavam nas entrelinhas pelas outras situações que nos afastaram, eu achava que estava ouvindo uma grande declaração de amor, dor e saudade.

Se fantasio, se interpreto errado, não sei. Talvez. Mas desde então só consigo fazer planos de convencer pessoas magoadas do passado que o passado é passado, que o que doeu fica pra trás, mas que os laços de amor e amizade não se dissolvem assim tão facilmente.

Fico pensando em festas e encontros. Em noitadas de buraco, no estilo clássico meio rouba-monte e ter que ficar prestando atenção pra ver se o coringa não mudou de lugar. Em tardes preparando comida. Pão-de-queijo desses que você tem que ralar o queijo, escaldar o polvinho. Rabanadas. Bolinho de chuva. Pão caseiro. Coxinhas, bolinhas de queijo.

Penso nos meus avós. Como eles ficariam contentes de ver isso, de ver os netos juntos de novo.

Eu vou tentar, Renato. Obrigada pela coragem de falar assim. Não quero discutir nada das questões do passado, e acho que você também não. Não importa. A gente vai deixar as coisas ruins do passado pra trás, mas tem uma montanha de coisas boas pra frente.