Meu coração remendado

Algum trocadilho ruim, dessas coisas bestas, nem sei contar o que era. Nada ofensivo, só daquelas coisas que você fala “ah, não”, o Daniel riu, e eu falei pro Daniel “Você não pode rir, você sabe, senão incentiva a babaquice”. Incentiva a babaquice é uma expressão comum na minha família em Limeira, usada exatamente em situações como essa – piadas ruins, trocadilhos, mas provavelmente o Cris não lembrava, porque resolveu subir nas tamancas “eu não admito que você use essas palavras e fale assim comigo na presença do MEU filho”.

Ai, caralho. Eu quero que cicatrize, mas todo dia vem alguma pancada nova. Apareceu de novo a névoa de gelo ao meu redor, que se traduz principalmente em eu parar de olhar pra cara dele. Ele tentou me tirar da cozinha (onde está montado nosso QG – a gente é tão nerd, o notebook do Daniel está bichado, então ele trouxe o destktop) “você está cansada, acordou cedo, seu olhos estão vermelhos, vem cá que eu vou te colocar na caminha”. Mesmo quando a gente vai dormir depois das 3h, é raro eu acordar depois das 9h, todos esses dias blogo nessas horas em que eles dormem. Falei “não estou cansada, não”, o Daniel confirmou que era mentira que meus olhos estavam vermelhos, e eu falei “não quero ir pra cama, quero ficar aqui na cozinha com o Daniel”.

Mas a nuvem de gelo continuava, então ele me puxou num canto e eu falei bem rápido “Você sai do quarto depois das 13h, fica um tempão longe da gente fazendo suas coisas, depois chega aqui na cozinha e vem com essa de o que eu posso ou não posso falar na presença do ‘SEU filho’? Você acha que eu sou o quê, a babá?

Ele se desculpou e passamos o dia razoavelmente normais. Mas na hora de deitar na cama eu me sentia triste. Não falei nada, estava quieta, ele falou que eu estava triste, por que, fiz alguma coisa? Nas últimas horas não. É por aquelas coisas? É, é pelas coisas que você falou nos últimos dias, por hoje. Ele não falou nada, só me abraçou, e coincidência ou não fui ficando desconfortável, achando que precisava tomar um remédio pro estômago, e não queria voltar pra cama. Peguei um cobertor e ele foi me buscar no sofá alguns minutos depois.

Quando começamos a conversar, eu explicando que sentia um laço se rompendo entre a gente, e tentei explicar invertendo os papéis “imagina que eu te ofendo e te machuco, mas quando você me fala disso, minha resposta é só o silêncio. O que significa que não acho que te devo desculpas, e que sua dor é uma frescura”. E falei sobre ele assumir a pose do “MEU filho”, dele me falar “O Daniel é MEU filho, ele é muito bonito e nunca poderia ser SEU filho porque você é feia” ou “não fale assim comigo na frente do MEU filho”. Ele perguntou se eu estava querendo machucá-lo, e eu achei uma pergunta absurda “Te machuca ouvir as coisas que você tem me falado?”

Uma longa conversa. Mas curativa. Acordo cansada, mas não mais destroçada, despedaçada. Não mais a Medusa ou uma das Fúrias. Mais pra um ursinho de pano desses de papel de carta antigo, com um remendo num dos pedaços do coração.

Em resumo ele reconheceu que talvez, talvez, seja isso. A questão com o filho. Se meu calcanhar de Aquiles é minha aparência, o calcanhar de Aquiles do nosso casamento é o fato de eu não querer ter filhos. Eu sei. Sei que isso é motivo de separação entre muitos casais, e sei que o Cris queria muito. Mas eu não quero. Gosto de crianças, amo muito o Daniel, morreria pelo Daniel. Mas ser mãe é outra coisa, e eu não quero ser mãe. A teoria é de que o fato de eu estar chegando aos 39 anos, mais as tensões do trabalho têm feito surgirem essas situações. Um pouco da vazão da dor dele por eu não querer ter filhos.

E acho que foi a primeira vez que ele me falou “por a gente não ter outro filho”, em vez de “por a gente não ter um filho”. O Daniel não mora com a gente. Guarda compartilhada, tempo mais ou menos dividido meio a meio e se for contar horas líquidas com ele, talvez a gente passe mais tempo com ele do que a mãe dele. O Daniel não mora com a gente, ele não é meu filho, não saiu da minha barriga, mas eu o amo muito, nós três estamos sempre juntos, conversando, jogando, rindo, brincando, e damos broncas uns nos outros quando é preciso. Não é um arranjo de família tradicional, mas o Daniel é nosso filhote. Ele não é só nosso, ele não dorme com a gente todas as noites. Mas estamos unidos, talvez cada vez mais unidos. O tempo que temos juntos é quase todo dedicado à apreciação da nossa tríade. O Daniel ainda escolhe ficar com a gente em vez de chamar amigos, ir na casa de amigos, ficar jogando com amigos online. Eu escolho não passarinhar, não viajar, não trabalhar. O Cris não consegue desconectar tanto, mas ainda que eu fique mais tempo focada no Daniel, ele também passa um bom tempo com a gente. Escolhemos atividades em que nós três possamos fazer coisas juntos, porque adoramos a companhia uns dos outros, porque estarmos juntos é uma das melhores sensações do mundo, e se isso não é uma família, o que é uma família?

Eu acho que vou continuar recebendo umas patadas. Mas pensar que tem a ver com essa dor grande do Cris, por eu não querer ter filhos, me ajuda a suportar melhor. Não pra ouvir quieta. Mas pra suportar melhor.

 

Também andei pensando em questões do mecanismo da amizade, questões do tempo, a doce indolência, mas acho que agora vou parar de escrever, porque no momento não preciso mais. Vou fazer uma tarefa que é uma das formas de amor: ir ao supermercado, ter coisas gostosas para meus amores comerem. Acho que alimentar as pessoas quando não é algo que se faz como obrigação ou rotina é um dos atos mais amorosos. Feliz 2016, amigos queridos, e obrigada pelos pensamentos bons.