Mercenários argentinos em Cuba morando no Brasil

Um texto de 2011. Pra uma pequena série de textos sobre taxistas que eu nunca escrevi.

Precisava ir ao centro, na maravilhosa região das lojas de câmeras fotográficas. Pegar a lente do Cris, a 500  f4 (vulgo Negrone), que tomou um solavanco grande demais no Tocantis e deslocou o centro ótico. Felizmente a Anatec consertou, mas passamos dois dias no suspense de que talvez não tivesse conserto.

Almocei no Higienópolis. Sem táxi no ponto, peguei um táxi na rua. Época pré-aplicativos Um motorista bem velhinho, mas com voz firme, e aquele sotaque de estrangeiros que eu adoro. Fomos conversando o caminho todo, e olha as informações que foram surgindo:

– tenho uma filha que está na faculdade. Fui pai aos 59, tenho 79 agora.

– trabalhei 44 anos na Viação Cometa, me aposentei, mas não aguentei ficar parado. Fiquei 6 meses sem trabalhar… ia ao cinema, assistia DVD, mas não aguentava aquilo. Um dia quebrei a casa toda – faço kung fu até hoje, minha mulher perguntou “o que foi?”, “não sei, acho que não aguento não trabalhar”, “então vai catar latinha pra pagar o que você quebrou seu filho da puta”.

– aí comprei essa licença pra táxi, pra me divertir um pouco

– no fim do ano me mudo pra Santa Catarina. Os três filhos do meu primeiro casamento moram lá. Lá a vida é muito melhor. Só estou esperando terminar o semestre da faculdade da minha filha, ela vai pedir transferência pra lá, Direito Internacional. Quer ir pro Itamarati.

– eu tinha uma casa de 1.500 metros na Praça Panamericana. Vendi nesse ano, no fim do ano a mulher termina de pagar a última parcela. Aí eu mudo pro Sul, e vai dar certo com a faculdade da minha filha.

– tentei morar no Sul uma época, mas minha mulher não conseguia emprego, estava chateada. Ela fala 3 línguas, todas as entrevistas que ela fazia o cara falava “não posso te contratar, senão você pega meu lugar”.

– Conheci o Brasil em (ele falou o ano, esqueci). Quando vi as mulheres, pensei “meu lugar é aqui”.

Não sei direito como veio o assunto… talvez porque eu tivesse explicado que estava indo pro centro pra pegar uma lente, “você é fotógrafa?”, “é meu hobby, gosto de fotografar natureza, passarinho, aves”, “… você é casada?”, “sou”, “ia falar uma besteira, então não vou falar”, “pode falar! (é claro)”, “ia te falar: você pode me fotografar pelado – nu artístico. Uma mulher de cabelo comprido tira foto assim, cobrindo os seios, com a mão aqui, e diz que é nu artístico”

Rimos muito. Era um velhinho muito simpático. E só chamo de velhinho porque ele era seco, poucos cabelos, pele bem enrugada, bronzeado, mas a voz era firme, gentil, e me chamava de senhora daquele jeito respeitoso, colocado no final das frases.

Por algum motivo, por causa das fotos eu acho, ele contou que já foi mercenário em Cuba, contratado pelos EUA para treinar cubanos. “Eram todos trabalhadores rurais, não tinham a menor ideia do que fazer. Rastejávamos no escuro, ensinei-os como desarmar uma pessoa, como matar uma pessoa usando só as mãos. Oito mil dólares eram depositados todo mês, e nos entregavam 500 dólares para gastar lá. Quando deixei o trabalho em 1959 tinha 432 mil dólares numa conta na Suíça, fui pra Europa, gastar com mulheres e jogo.

“Mas a vida do senhor daria um livro!”

“Escrevi um livrinho, senhora”

“Como eu faço pra ler?”

“Está com o meu filho, ele decide. Se quiser publicar, publica, senão fica como uma lembrança do pai, senhora”.

Desci do táxi hesitante, achando que estava fazendo a coisa errada… por algum motivo besta não tive coragem de pedir um cartão, um telefone, de perguntar se não poderia tomar um café com ele, ou mesmo fotografá-lo pelado.

Pode dizer que é tudo fantasia, ou golpe pra ser fotografado pelado, não tem problema.

Na região de Higienópolis, fique atento: Corsa branco mal conservado, bancos um pouco rasgados. Pequeno, magro, alguns poucos cabelos brancos, óculos de sol bem escuro, sotaque estrangeiro, voz gentil e firme. Reparei que usava tênis bege claro, estilo bamba. Não deveria ter deixado ele ir sem pegar o telefone, se você o encontrar, pegue o telefone pra mim.