Mensagem a Cláudio Maretti: o caminho da confiança e da divulgação

Amigos, o presidente do ICMBio, Cláudio Maretti, abriu um canal de comunicação no Facebook dele para falar sobre o uso das Unidades de Conservação:

https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=662011367264759&id=100003677040576

Meu comentário ficou tão grande que acho melhor transformar num post com link do que colar direto no FB. Segue aqui:

 

Prezado Cláudio Maretti,

Agradeço muito a abertura de canal de comunicação direto aqui no Facebook. Foi uma atitude que eu realmente não esperava e que trouxe grande alegria. As dificuldades de negociação com o presidente do ICMBio até 2012, Rômulo Mello, haviam nos encaminhado para uma postura de esperar o pior, de ter que pensar em embates políticos, projeto de lei, batalha na imprensa. Após sua decisão de abrir este diálogo, acredito que poderemos chegar a decisões e acordos satisfatórios para gestores e para os amantes da natureza.

Você nos deu um panorama das dificuldades e problemas discutidos entre os gestores. Vou falar sobre as questões relacionadas com birdwatchers e fotografia de natureza, e também palpitar um pouco sobre os outros assuntos.

Acredito que o foco da gestão de uma Unidade de Conservação precisa ser mesmo a proteção da natureza. Parques urbanos podem ser focados no lazer. Unidades de Conservação guardam o pouco que resta dos nossos ambientes naturais e precisam ser protegidas.

O problema é que, a meu ver, a proteção precisa contar com o envolvimento e participação ativa da população. Os gestores dos parques não recebem recursos suficientes para proteger essas áreas fundamentais à sobrevivência de tantas espécies (e, no mínimo, pra qualidade de vida dos seres humanos). Ou talvez, mesmo que houvesse muito dinheiro envolvido, sem a conexão emocional das pessoas com o parque seria bem difícil gerir.

Nosso cenário ideal é o de uma comunidade de amigos dos parques dipostos a trabalhar em conjunto com os gestores, zelando pela sua preservação, pensando em formas de melhorar a estrutura e a proteção, aumentar a visitação, trazer visibilidade. Pessoas cuidando do parque com aquele carinho de sentir que aquele pedaço de terra é nosso também, de dar bronca em alguém que jogou um pedaço de papel no chão, de estar sempre panfletando sobre o quanto o parque é belo, importante, frágil.

Não parece o paraíso? Isso é possível. Não tenho grandes detalhes, mas sei que o Central Park em Manhattan é mantido em grande parte com doações particulares. Estive lá num mês de migração e numa manhã tinha mais de 40 de birdwatchers e fotógrafos num cantinho do parque, num clima de confraternização, de quem se sente totalmente à vontade com o local.

City of Henderson, em Las Vegas, conta com grande apoio da comunidade de birdwatchers da região.

Na África do Sul, no Kruger, há bancos, hides, estátuas com placas repletas de carinho “Em memória do meu amado marido John Smith, que amava esse parque e etc” – placas que com certeza custaram uma quantia razoável, significaram renda pro parque, e também expressam a relação amorosa que as pessoas podem desenvolver com um parque em que elas se sentem bem-vindas, à vontade, sentem que é bem administrado e repleto de belezas.

Quando estou pesquisando destinos e passeios em outros países, às vezes topo com fóruns de birdwatchers e você vê que as pessoas falam com familiaridade dos locais, como quem frequenta o local há anos e sabe tudo sobre ambientes, migrações, onde ver o quê. Na verdade é bem fácil encontrar informações detalhadas: no parque tal você pode ver tal coisa no verão, no inverno, na primavera, para chegar lá siga esse caminho, na estrada tal na altura desse entroncamento, no lago tal no lado leste…

Há uma questão cultural dos americanos serem bons em compartilhar reportes detalhados e eficientes. Mas também considero a prova de que é possível desenvolver uma relação longa, duradoura e carinhosa com uma área natural, a ponto de você saber tanto sobre ela, e poder compartilhar isso com colegas e desconhecidos.

E tenho certeza que se surgissem ameaças de destruição a essas áreas, essa comunidade reagiria. Já ouviu falar da ave de rapina mais famosa de Manhattan, o Pale Male Hawk? Ele mora há 24 anos nos arredores do Central Park, os birders sempre o observam. Em 2004 ele fez ninho num prédio chique da 5ª Avenida. O ninho foi retirado duas vezes porque os restos de ratinhos e outros alimentos, além de penas, fezes, estavam incomodando alguns dos moradores do prédio em que cada apartamento custa US$ 20 milhões. A comunidade se organizou e protestou tanto que os administradores do prédio se viram obrigados a retornar o ninho.

Você já ouviu falar do Tanquã? É o único minipantanal paulista, em Piracicaba, uma área criada a partir da represa de Barra Bonita. Depois de décadas de reequilíbrio ecológico, hoje ela é refúgio de muitos animais, inclusive aves ameaçadas de extinção. A construção de uma barragem em Santa Maria da Serra destruiria totalmente o local. Mas o Centro de Estudos Ornitológicos – especialmente o colega Luciano Monferrari, monitora o local há anos, contestou os relatórios superficiais do Consórcio responsável pela obra, os birdwatchers organizaram protestos, o Ministério Público também comprou a briga, e a autorização do início das obras foi adiada. Daí neste ano chegou a crise, e estamos comemorando a ideia de que pelo menos nesta ano as obras não saem (não somos xiitas contra o progresso: é que o projeto estava cheio de questionamentos, e o Consórcio claramente menosprezava o valor ambiental do local, tanto no discurso pra imprensa, quando no que apresentaram como compensação ambiental).

A cidade de Americana agora conta com um terreno especialmente destinado pra proteção de ninhos de mochos-do-banhado. É uma coruja linda, e os ninhos estavam sendo ameaçados devido a incêndios propositais, desses que o pessoal faz pra limpar o terreno sem ter que carpir. Gustavo Pinto e demais amigos se mobilizaram pra pessoalmente apagar incêndios quando os bombeiros demoravam pra aparecer, fizeram campanhas, arrecadamos dinheiro pra comprar ratos criados especialmente para serem alimento de aves de rapina e poder alimentar os filhotes, porque os incêndios nos outros terrenos haviam acabado com a área de caça das corujas. E depois Gustavo conseguiu reunião com prefeitura, além de atenção da imprensa, apoio de juíza.

Ações como o Tanquã e o monho-dos-banhados não seriam possíveis se não houvesse um envolvimento emocional das pessoas que decidiram defender os bichos e os habitats. O envolvimento emocional com certeza não teria acontecido se o Tanquã ou a área dos mochos fosse regida por autoridade, burocracia, taxas, formulários. E dificilmente haveria envolvimento de dezenas (no caso do mocho) e centenas (no caso do Tanquã) de pessoas apoiando, defendendo dando dinheiro se não houvesse centenas de fotos dos locais e dos bichos circulando pela internet, junto com os depoimentos de quem foi conhecer o local pessoalmente.

Você perguntou “(1) confiar, estimular auto-regulação ou (2) controlar, desconfiar, prevenir danos, arrecadar?’

Acredito ser possível unir o melhor dos dois. Escrevi textos agressivos, sarcásticos, sensacionalistas – porque preciso de um volume de atenção da comunidade, e infelizmente, a verdade é que não são os textos comedidos que ganham atenção. Mas agora que estamos aqui conversando sobre o que é possível, quero dizer que entendo o lado de quem gere, e sei que não é fácil passar da postura de controle para a liberdade.

Admiro muito a liberdade típica dos Estados Unidos, mas acho que podemos fazer adaptações. Ter coisas como a Lista Branca proposta pelo Marcos Amend, meu marido também me falou de algo assim ontem. Não tenho nada contra preencher um cadastro em que dou meu nome, endereço, CPF, RG, leio e assino saber as regras do parque, as orientações sobre visitação de mínimo impacto. Mas meu nome nesse cadastro também significa que posso fotografar a natureza mesmo com DSLR e tripé, e que posso usar essas imagens para divulgação da natureza mesmo que seja um produto comercial (e desde que não seja nada associado a drogas, sexo, discursos de ódio, etc). E que de preferência me desse alguma vantagem em relação a quem não assinou… como será que a gente poderia fazer para que não seja mais preciso que um segurança venha perguntar “Já assinou a Lista Branca?” porque isso não é muito diferente do famoso “Tem autorização pra fotografar?”. Que não precisássemos ser abordados pelo segurança, e sim que houvesse aviso no site do parque, cartaz na entrada do parque, falando sobre o tal cadastro online e as vantagens de se cadastrar. Talvez algo como os cadastrados podem compartilhar suas fotos no site do parque, podem fazer uma carteirinha pra ter direito a entrar às 6h, mesmo que isso requeira alguma taxa.

Uma empresa grande gravando um comercial num parque com certeza deve pagar taxas ao parque, e taxas bem razoáveis, proporcionais ao patamar de dinheiro que eles movimentam.

Mas o que andei reclamando tanto é a ideia de que um fotógrafo, seja amador ou profissional, tenha que pagar taxas pra fazer um livro que está divulgando a existência e belezas do parque. Ou mesmo uma caneca ou uma camiseta ou um quebra-cabeça.

Não seria possível trocar a palavra “comercial” por “publicitária”? Ou então, qual seria a melhor forma de ficar claro que o pagamento de taxas é para o caso das empresas grandes? Ou talvez a questão seja não só quando envolve empresas grandes, mas também pela divulgação não ser do parque em si, e sim o parque como pano de fundo de alguma coisa… Eu não vi a tal propaganda da Jeep, mas se ele mostrasse imagens dando o nome do parque nacional em que foi feito, será que a taxa dele não deveria ser menor do que se só usasse o parque como um cenário qualquer? No caso de coisas pequenas como livros, camiseta, quebra-cabeça, além do patamar de dinheiro ser incomparavelmente menor, teria a questão de sempre também ser uma peça de divulgação do nome do parque.

Pelo o que ouvi falar e tenho lido, parece que há várias pessoas, inclusive gestores, que concordam com a ideia de que pagamento de taxa é pra empresa grande. Mas o problema é que a portaria como está escrita hoje fala sobre fotografia comercial, o que fica vago demais. Se coloco no meu site e tem um banner de patrocínio, significa que a foto é comercial? Ou se coloco no meu blog e uma pousada quer me dar uma diária, a foto é comercial? Se quero fazer um livro que provavelmente terei prejuízo, ou que seja desses Blurb que só é impresso sob demanda, é comercial?

Tenho muitas dúvidas e o mundo inteiro também. Tanto que não existem publicações ou produtos sobre os parques. Na verdade, na gestão de Rômulo Remo havia a certeza de que o ICMBio considerava um livro de natureza ou a eventual venda de fotos atividades passíveis de pagamento de taxas. A ShutterStock diz que não se pode nem fazer uso editorial das imagens feitas em Parques Nacionais!

Prezado Claudio, falei que escreveria sobre os outros assuntos mas pra variar minha mensagem ficou tão comprida que vou ter que quebrar e temas.

Este primeiro contato é para dizer que:

– acredito que o caminho de confiança e aproximação com o público, de tratar as pessoas como pessoas e não suspeitos que precisam ser abordados por segurança, traria diversas vantanges para o desenvolvimento e proteção das áreas naturais

– acredito que o incentivo a fotografia e divulgação das áreas naturais é fundamental para a proteção e existência a longo prazo das áreas anturais.

Nas próximas mensagens vou falar sobre o que tenho pensado para aumentar o envolvimento das pessoas com as UC’s, sobre formas de arrecadar dinheiro.