Medo medonho dos linchamentos eletrônicos

Folheando uma Piauí enquanto esperava minha vez no Charles. Um artigo de Jon Ronson “A vida por um tuíte”, falando das pessoas que tiveram as vidas destruídas, destruídas mesmo, de perder o emprego, entrar em depressão, virar pária pra família e amigos, porque postaram alguma bobagem que caiu nas mãos da turba.

Turba. Quando agimos em massa somos uma turba, bárbaros como qualquer outro. Podemos não ter mais espadas nas mãos, mas nossas palavras podem cortar como ferro e destruir muita coisa.

Vou explicar: eu sou totalmente a favor de turbas, se o objetivo for combater uma ideia. Reclamo da proibição da fotografia em parques, não digo “o diretor tal, o segurança tal”. Reclamo de racismo, cito casos mas nem dou os nomes. Assino petições que protestam contra uma obra, uma empresa, uma decisão injusta. Reclamo de gente que diz que é exagero falar que tem tanto machismo no Brasil – eu lembro quem falou, mas nunca citaria o nome das pessoas. Reclamo dos colegas birdwatchers que não acham que temos responsabilidades na conservação da natureza (mas nunca daria nomes, mesmo porque eu não sei o que cada um faz da vida. E mesmo que tivesse certeza de que a pessoa realmente não faz nada fora passear e fotografar, por que eu citaria o nome dela?).

Tenho pensado como é importante me policiar pra não participar de linchamentos. Lembro que há poucos meses fiz um post reclamando da menina que xingou o jogador de macaco durante o jogo, mas depois me arrependi, ainda mais quando vi a repercussão que o caso teve. Mais uma das pessoas que teve a vida destruída, de perder o emprego e ter que mudar de bairro.

Não tive tempo de terminar de ler o artigo da Piauí, mas parecia que Jon Ronson também se compadece dessas pessoas. Ele cita como exemplo um colega, que costumava sempre criticar e reclamar do que ele escrevia, e uma vez esse colega participou de um safári e comentou como foi bem mais fácil do que ele imaginava matar um babuíno. Ronson usou esse post para criar um movimento contra esse colega, e diz que ainda lembra que entre as muitas frases de críticas ao caçador, havia uma pergunta a Ronson “você é do tipo que costumava bater nos mais fracos quando estava na escola?”

Porque essa é um dos pontos principais. Um linchamento eletrônico contra uma pessoa é um bullying gigantesco, uma turba ensandecida de gente que canaliza insatisfações e raivas diversas contra alguém, e tudo isso potencializado pelo conforto da distância da tela.

Explicando de novo, pra não parecer que sou maluca ou hipócrita: eu xingo muito no blog, mas principalmente porque reclamo de ideias e posturas. Tento não xingar uma pessoa, e vou me esforçar pra não participar mais de linchamentos eletrônicos… já me pesa na consciência ter colocado a foto da menina que xingou o jogador, mesmo tendo apagado depois, mesmo comentando isso só no meu blog, e não numa caixa de comentários geral.

Pense nisso: um linchamento é feito por uma turba, e turbas têm dimensões e direções incontroláveis. Se é pra destruir uma ideia, ótimo. Vamos reclamar da caça esportiva, do racismo, da corrupção, da burocracia, da alienação. A quem servir a carapuça, que doa em si, e quem sabe a pessoa até pensa em mudar de postura. Vamos tornar público para os analistas políticos ou tomadores de decisão em empresas o que a população considera aceitável ou não, e esse nosso poder como turba ajuda a moldar decisões.

Mas linchar uma pessoa é errado. Nem a Dilma merece isso. Também tirei meu vídeo da galinha pintadilma, mesmo tendo achado engraçado na hora, não precisa ficar postado.

Apontar o dedo pra uma pessoa é errado. Ainda mais porque sabemos que as coisas na internet têm dimensões incontroláveis, e que as pessoas realmente podem ter as vidas destruídas por um fiapo, por algo que sai do contexto e vira um monstro.

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Tem muitas coisas que acho errado. Racismo contra negros, contra muçulmanos. Mas fui capaz de rir da piada do Gentille, quando ele falou que os judeus não queriam metrô em Higienópolis porque da última vez que entraram num trem foram parar em Auschwitz. Contei pro Cris, que é judeu, e ele também riu. Mas talvez seja porque as questões da guerra parecem tão longe, como se fosse uma ferida cicatrizada, e porque nos dias de hoje nunca vi os judeus como um povo oprimido – pelo contrário, como diria o Frank (Sinatra), Jewish people own the bus. Mas não há piada sobre negros ou escravidão que eu ache engraçada. Talvez porque a discriminação contra negros seja algo vivo e atual.

Ao mesmo tempo, também gosto de South Park, e tenho medo de um mundo politicamente correto.

Não é uma equação fácil… O artigo da Piauí comentava de uma moça que resolveu ir a um Halloween vestida de maratonista de Boston, e foi xingada por uma pessoa que teve parentes muito machucados na maratona. Talvez os judeus que reclamaram do Gentille se sentissem assim.

A coisa mais doída que já aconteceu na minha vida foi a morte da minha avó. Fui chorando 150km, parei quando estava chegando lá, mas daí quando entrei no velório e a vi no caixão quase tive um treco, de faltar ar, de chorar de soluçar. Isso porque ela era uma senhora com a saúde debilitada, indo e voltando do hospital há meses. Faz 8 anos que ela morreu. Mas se alguém tentasse fazer qualquer piada jocosa sobre ela, acho que eu socaria a pessoa.

Eu não quero viver num mundo politicamente correto. Mas tenho medo de turba. De ser mal interpretada. De, por uma piada sem importância, machucar feio alguém, ou ser linchada eletronicamente e ter a vida destruída.

Não sei bem o que fazer… é um mundo tão perigoso. O artigo da Piauí conta o caso de um cara que fez uma piada para um amigo, que ele nem lembra direito o que era, como se fosse menção a algo fálico, mas a mulher de trás ouviu, tirou uma foto dele e postou no Twitter dela, com a frase, e ele teve a vida destruída. (depois, ela também).

Não sei como resolver a questão do politicamente correto x machucar alguém.

Mas uma coisa é certa: ninguém deveria participar de linchamentos eletrônicos contra pessoas. Vamos combater ideias. Linchar uma pessoa numa caixa de comentários pode destruir, destruir de verdade, a vida de alguém.

(Falei desse assunto pro Cris, ele disse que o único motivo de eu ainda não ter sido demitida pelas coisas que escrevo é porque eu não tenho emprego).