Manual prático pra cantadas

Um post que surgiu de uns pensamentos sobre mais um atendente da NET que resolve cantar a cliente da NET, com mensagens ótimas do tipo “quer levar uns tapas? Toda burguesa gosta, sua vaca / estou bêbado” — e na caixa de comentários da notícia, as declarações de sempre falando que é frescura a mulher reclamar disso, que as cantadas são fundamentais pra perpetuação da humanidade, que o cara é que devia processar a garota porque ela disse “deixei um maníaco entrar na minha casa e não sabia” — e olha que feio chamar o rapaz de maníaco. Pensei e escrevi várias coisas, mas no final saiu assim: Manual Prático pra Cantadas.

Imagino que existem garotas com pouca vivência, inexperientes, incultas (não no sentido pejorativo, só como fato), pra quem as cantadas funcionam.

Mas se você está lidando com uma mulher com um pouco mais de bagagem cultural e de vivência, você realmente acha que uma frase pronta falando dos atributos físicos dela vai fazer ela gostar mais de você? Geralmente é motivo pra ela te descartar na hora porque você é um idiota que pensa que ela também é idiota.

Regra número 1 das cantadas: chega de cantadas

Se o seu objetivo é ter alguma chance com aquela mulher, pelamor, deixa de lado as frases prontas, elas são um desastre. Só imagino uma situação em que as cantadas são permitidas: não é pra sedução, é no momento piada do dia, quando há um grupo de amigos falando de coisas toscas e todo mundo está rindo.

Regra número 2: nada justifica deixar uma mulher com medo ou acuada. Tem que sempre ir de babysteps

Somos o país dos 5 mil assassinatos de mulheres por ano, e de 47 mil a 500 mil estupros. Somos o país dos estupros coletivos, dos esquartejamentos, das mulheres queimadas com fogo, ácido, espancadas até a morte porque cansaram de ser assediadas e foram falar pro homem parar, ou estupradas e assassinadas porque falaram que queriam terminar o namoro. Estupros e assassinatos de garotas de 11, 12 anos. A violência acontece em todas as faixas sociais, com qualquer uma, inclusive nas famílias ricas, inclusive em festas das universidades de maior prestígio do país.

Para e pense. Por um segundo, tente se colocar no lugar de uma mulher, tente imaginar o medo que é de levar um soco e ser estuprada. Difícil se imaginar como uma mulher? Pense em alguém querido, sua irmã, uma amiga.

As mulheres sabem dos perigos de ser mulher. Nunca aborde uma mulher num lugar escuro e com pouca circulação de gente, a não ser que seja pra ajudar se ela estiver com problemas. Se for abordagem pra um flerte, tem que ser num lugar em que ela não sinta medo. Pelos mesmos motivos, nunca agarre, ou force um beijo, ou chegue falando de sexo. Não é frescura, amigão, é pavor mesmo. A violência contra as mulheres é um fato histórico e ninguém sabe quem é a próxima.

Ok, tenho que ir devagar, com respeito, com calma, e sempre checando se ela esta interessada.

Como saber se ela está interessada?

A abordagem começa com um diálogo. Se você começar falando do peito, das pernas ou da bunda dela, a não ser que esteja lidando com uma mulher tosca (daquele jeito que descrevi: alguém sem cultura, sem vivência, que nunca se relacionou com um homem decente) você é gongado na hora. Mesmo pra falar de olhos, sorriso, cabelo, faça isso não como primeiras frases, e sim mais pra frente e de um jeito que não pareça frase pronta, cantada barata “o brilho dos seus olhos”, e sim alguma observação sobre ela como pessoa.

Vocês começam a conversar. Com as redes sociais hoje a maioria das pessoas é conhecido de um conhecido, mas se for pra abordar uma total desconhecida você fala oi, de uma forma que não a assuste. Tem que ser num lugar iluminado e com gente, sem risco dela ficar com receio de ser atacada. Peça informação ou ajuda sobre alguma coisa e vê como a conversa evolui.

Se ela estiver interessada, a conversa vai fluindo. Vocês se olhando nos olhos, um diálogo em que as duas partes falam, um pergunta o outro responde ou comenta o que o outro falou. A invasão do espaço físico começa com um leve toque na mão ou no ombro e você checa a reação. Se ela continua olhando pra você e sorrindo e conversando, tudo bem. Se ela ficou tensa, recue, não é o momento de tocar, ou talvez não chegue o momento de tocar e ela só queira conversar com você. Se as coisas vão evoluindo você se inclina mais, se aproxima mais, e deve encontrar reciprocidade. Ela também vai te tocar, ou vai deixar claro que gostou de você deixar sua mão alguns segundos sobre a mão dela, e assim o negócio vai evoluindo: com sinais claros e inequívocos de que ela está gostando de você.

E lembre-se: não tem nada, absolutamente nada que justifique sexo forçado. Vocês podem estar pelados no motel, se ela falou não quero, é não. Por quê? Porque toda pessoa tem o direito de não querer, e se você não consegue controlar sua vontade sexual você precisa de tratamento e talvez de cadeia.

É preciso ter mais cuidado ainda se você tem uma relação de poder sobre a mulher – como ser o chefe ou o patrão, pra andar nessa linha fina tem que ter certeza absoluta de que não tem coisas rolando lá só por medo de ser demitida ou coisas do tipo.

E quando é adolescente, as coisas ficam mais complexas ainda. Li outro dia uma dúvida que uma menina de 14 anos mandou pra um portal “no meu trabalho, não sei o que fazer. Os homens ficam me falando coisas como ‘ah, se eu tivesse 30 anos a menos’, e outro dia um veio cheirar meu cabelo. O que eu faço?”. Olha que loucura desses caras. Você não faz isso com uma garota, não importa o quão linda ela seja, o quanto ela já tenha corpo de mulher, não importa que ela esteja te provocando. A suposição é de que o menor de 18 anos não tem maturidade pra se responsabilizar pelos seus atos, inclusive nos momentos em que ele acha que quer sexo. Você também quer? Arrisque-se a ser preso.

Regra número 3: a abordagem a uma mulher sempre visa um relacionamento. Se você queria só dizer que ela é bonita e gostosa, fale isso sozinho no seu quarto fazendo você sabe o que, ou com seus amigos. Se você queria só sexo fácil, apenas pague uma prostituta, não encha o saco de uma mulher comum

Ocasionalmente você pode topar com uma mulher que não quer um relacionamento, e só uma noite ou várias noites de sexo fácil. Você começa com a abordagem civilizada, e é ela que avança o sinal e dá mostras claras pelas frases e linguagem corporal (ou ações mesmo) que está a fim de sexo sem ter que ter um relacionamento com você. Mas o poder está nas mãos dela, é ela que coloca as coisas nesses termos, e você decide se é isso que você quer também. Se isso acontecer com você, espero que não seja uma situação de estar se aproveitando de uma mulher bêbada ou fragilizada. Isso é desonroso e vexatório. Você quer mesmo pensar em si como alguém que só consegue sexo fácil se a mulher estiver bêbada ou transtornada?

Você sabe por que o poder de decisão fica na mão das mulheres? Porque fora alguma situação muito bizarra de filme B, ela não pode te forçar a fazer sexo. Mas o homem pode, com facilidade. Se a suposição é de que somos seres humanos e não bichos, as interações têm que ser feitas de forma que a mulher se sinta segura.

Acha injusto? Imagine se as mulheres tivesse algo como um pau, que elas podem enfiar no seu cu, e tivessem força física pra te dominar. E você sabe que muitas delas gostam de estuprar homens, matá-los, a todo momento você vê notícias sobre homens que foram estuprados e assassinados por mulheres. Você ia topar ir pra uma cama com uma mulher sem ter certeza de que ela não é do tipo violento? Ou você não ficaria apavorado se uma mulher se aproximasse de você num lugar escuro e com poucas pessoas por perto?

O homem tem a força física e um histórico de violência contra a mulher. Uma história que continua até hoje e infelizmente está longe de ser resolvida. Mesmo os países de primeiro mundo, tão civilizados pra questões de segurança, administração, interações sociais públicas, ainda enfrentam o cenário dos abusos que acontecem dentro da casa das pessoas.

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Achou a garota linda, maravilhosa e não consegue parar de pensar nela? Tem que se imaginar tendo um namoro com ela, e fazer uma estratégia pra construir isso. Tomara que ela seja legal também. Ou talvez não… Às vezes vejo casais em que o cara parece ser tão legal, e a menina tão chata, que só consigo pensar “o sexo explica essas coisas”.

Regra número 4, um resumo das outras três: uma mulher não é um pedaço de carne com alguns buracos pra você enfiar o pau. Se é isso que você quer, compre uma boneca inflável ou aquelas bonecas incríveis de silicone, as love doll ou sex doll, por algo como uns 1.500 a 3.000 dólares. https://reallovesexdolls.com/ready-to-order-sex-dolls/

Uma mulher é um ser humano, com sentimentos, desejos, anseios, e toneladas de motivo pra ter medo de homens. Ao abordar uma mulher, sempre tenha isso em mente. Abordar uma mulher pra ter sexo fácil (a não ser que você esteja num aplicativo ou numa festa ou algo do tipo em que declaradamente o objetivo é esse, e sempre lembrando que não é não) é uma tremenda falta de respeito, é agir como um idiota uga-buga fútil que não dá a mínima pros casos de espancamentos, estupros e assassinatos de mulheres no Brasil e no mundo.

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E esse post ficou muito bom porque parece que montei todo um papinho só pra ganhar comissão da reallovesexdolls 🙂

Não ganho. Não sei nada deles, foi só o site mais interessante que apareceu na pesquisa. Mas juro que sou a favor. Se o homem não tem inteligência emocional, ou não tem saco pra se relacionar com uma mulher, compra uma boneca de silicone e se resolve. Ou paga prostitutas e se resolve. (Ou, como acontece no Japão, esse lugar maluco, não-Cristão, e tão pragmático: paga por companhia. No Japão homens e mulheres pagam pra ter alguém pra sair pra beber, pra rir, pra deitar no colo, e tudo resolvido. Ah, sim, a taxa de natalidade é péssima, em algumas décadas o país vai acabar, mas é a vida, são as escolhas das pessoas).

Não esqueça disso: o risco de ser espancada, estuprada, assassinada é algo muito concreto na vida das mulheres. Nada, absolutamente nada justifica fazer algo que deixe uma mulher com medo. Incluindo cantadas grosseiras.

Acha que é frescura? Então explica os 5 mil assassinatos, os 47 mil a 500 mil estupros. Pense na sua irmã ou em uma amiga querida recebendo uma cantada, uma secada, uma passada de mão, e tendo que aguentar tudo quieta por vergonha, medo de apanhar, pavor de se imaginar criticada pela galera que fala que as reivindicações por respeito são puro mimimi. E me diga de novo que as lutas feministas são coisa de sapata, de baranga, de mulher mal comida que só quer aparecer.

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Eu sei que esse parágrafo transparece uma parte da minha raiva, e tenho mesmo. Muita raiva. (ah, feminazi, é como os cretinos gostam de falar). Tenho raiva de quem maltrata mulheres. Mas talvez tenha mais raiva ainda de quem não espanca, nem estupra, mas faz um esforço enorme pra dizer que as reivindicações feministas são pura frescura. Gente inteligente, culta, mas que quando chega no tema feminismo, dá um bug e só consegue falar de forma jocosa, destacando as coisas idiotas que as mulheres fazem, pra dizer que o feminismo é coisa de mulher histérica.

Que gente tosca faça coisas toscas, que machistas psicopatas cretinos espanquem, estuprem e matem mulheres eu entendo — é horrível, mas faz sentido.

O que não me faz sentido é por que gente que é tão inteligente e legal em diversos campos, quando chega no tema feminismo resolvem ignorar o cenário e pinçar os casos mais escabrosos de comportamento idiota feminino, pra dizer que isso é o feminismo. E parecem não sentir um pingo de compaixão pela violência contra a mulher. Discursam como se não houvesse relação entre a luta feminista e o cenário de violência, como se feminismo fosse uma modinha politicamente correta e chata, em vez do único movimento que luta de forma persistente, há décadas, pra que a mulher pare de ser tratada como objeto de uso e posse.

Sei que sempre escrevo sobre isso, que já lancei hipóteses diversas. Mas continuo desconsertada. Sempre que topo com as caixas de comentários e leio os argumentos escritos com gramática correta, pontuação correta, bem estruturados, mas com a lógica idiota de quem despreza o feminismo, me vem esse desgosto. Ou então pensar nos meus conhecidos que também desprezam o feminismo e não se importam com a violência contra a mulher. Não consigo entender.