“Manterei sempre” e recursos fofos contra o desânimo

Ainda não é o post de retrospectiva ou balanço, mas já tenho pensado no assunto. Parece que 2015 não foi um ano tão forte em questões trágicas pessoais (pra maioria dos meus conhecidos) como foi 2014, mas também foi um ano intenso.

Pro birdwatching, então, ainda me sinto besta, porque lembro claramente onde estávamos em maio: conversando sobre a possibilidade de processar a Fundação Florestal e o ICMBio por inconstitucionalidade, pelas proibições de fotografia, e sabendo que processar significa pelo menos dois anos de luta difícil.

E agora estamos aqui: sabendo que existe um grupo de trabalho para desenvolver o birdwatching na cidade e no Estado de São Paulo. Pipocando iniciativas diversas, inclusive de pessoas com dinheiro e poder. E a promessa da Fundação Florestal de que até o final de dezembro teremos a carta de alforria, o primeiro passo na direção do uso público dos parques.

É tudo muito inacreditável. Se eu de agora tivesse voltado no tempo pra visitar o meu eu de maio, pra falar “relaxa, tudo vai mudar muito, confie em mim”, provavelmente eu não acreditaria e me xingaria.

Conheci muitas pessoas boas e inspiradoras nesse processo, mas também o oposto — pessoas que me trouxeram raiva, frustração, desânimo. Sentimentos ruins fodendo e poluindo minha atividade favorita. Ganhei do Cris uma lente nova, a incrível Nikkor 300 f4 VR há 2 semanas e nem consegui sair pra estrear. É verdade que choveu bastante, que fiquei resfriada como não ficava há anos, mas em outros tempos nada disso me impediria de sair. Tem algo errado aqui dentro.

Hoje ganhei um presente do meu semideus das frivolidades internéticas. Um vídeo de qualidade ruim, mas com altíssimo grau de fofoleza. Os bichos são parentes desta da abertura do post (um Blue Waxbill, Uraeginthus angolensis, fotografada na África do Sul. A ave do vídeo é o Blue-capped Cordon-bleu – Uraeginthus cyanocephalus), vale muito a pena ver:

Um casal de passarinhos dançando, como se fosse um número de sapateado, dança lenta. Já dei play mais de cinco vezes, e na primeira até escorreu uma lágrima. Pra me lembrar que o birdwatching é isso, é ver fofolezas como estas, é garantir a sobrevivência de bichinhos incríveis como estes. Não a indiferença de quem acha que birdwatching é só likes e lifers, não as discussões cornas com gente que não lê e já sai criticando, gente capaz de caluniar na cara dura, ou pra quem a natureza não tem prioridade.

Ando cansada.

Sentindo falta do meu tempo pessoal, dos meus projetos sem prazo. Ao mesmo tempo, é só aparecer alguém dizendo que minha nóia em ficar buscando formas de valorizar a natureza ferem liberdades artísticas da fotografia de ninfetas que eu não me seguro e estou lá, fazendo discurso comprido sobre o quanto a fotografia de natureza está mesmo num patamar diferente, sobre o quanto precisamos tanto de divulgação e do envolvimento das pessoas para salvar a natureza brasileira.

Textos desse tipo comem as horas que eu deveria estar pesquisando minhas férias, ou terminando meu livro, ou desenhando, ou testando a Silhouette Cameo. Mas era a única coisa a fazer, e lembrei de uma frase bonita do livro da Barbery, um bordão usado pelos elfos.

Manterei sempre.

Mantendré siempre.

Mais um dos casos em que a ficção lança suas teias sobre a realidade. Pensar na perseverança e coragem dos elfos na luta pela natureza alimenta as minhas forças em não chutar o balde. Eu me enfiei aqui porque quis, não tem nada que me obrigue a lidar com essas pessoas. Poderia estar no mundo maravilhoso das ilustrações e criações pop, silk screen, pintura em vidro. Mas se não eu, quem? E se não agora, quando?

Manterei sempre.

Obrigada, Muriel. Obrigada, Wagner. E obrigada aos amigos que continuam acompanhando e apoiando sempre. Não vou desistir. só estou cansada, sou só uma misantropa saudosa do meu tempo dedicado a temas inócuos e artísticos, meio ressentida do contato com as pessoas. Mas não vou desistir. Manterei.