Manifestações de março de 2015

Dizem que agora estão ouvindo. A voz das ruas. Precisa fazer volume, encher o saco, incomodar, ser motivo de vexame internacional. Senão não tem por que ouvir.

Dizem que não há coerência no que se pede, que as pessoas querem coisas abstratas, que combate à corrupção e à impunidade não é algo que acontece de uma hora pra outra.

Não, não é de uma hora pra outra. Mas não dar nenhuma mostra de que o assunto está sendo tratado com a seriedade que merece? Nenhuma.

A corrupção é a nossa grande besta. No Brasil, tão antiga quanto o país. Cultural, arraigada, um monstro desses de filme ou de livro, de dimensões tão medonhas, tão amplo, ardiloso, fétido e peçonhento que um vislumbre do seu tamanho faz morrer todas as esperanças.

Até 2 anos atrás eu achava que era realmente inútil, que a besta é forte demais.

Mas daí aconteceu. Daquela forma meio desengonçada, desarticulada, estranha. Tão criticada. Ter que ler gente de bem dizendo “isso aí? Bobagem. E sou contra”.

Mas aconteceu, e pela primeira vez na minha vida de neta de imigrantes, que compartilha a frustração do um homem que 80 anos atrás veio de umas ilhotas dominadas por solo vulcânico, um país que enfrentou a bomba atômica e se reergueu “O Brasil é um país tão grande, tão rico, com tantos recursos… não entendo como não é um país de primeiro mundo”…

Bom, pela primeira vez na vida pensei “Talvez”. Talvez haja esperança. E, como nos filmes, é graças a um herói improvável, esse monstro desengonçado e atrapalhado, que não sabe bem o que quer, pra onde ir. Mas tem tamanho. Tamanho suficiente pra preocupar um pouco a grande besta, pra pelo menos fazer os governantes do país dizerem que sim, é verdade, vamos combater a grande besta.

É uma batalha terrível, vocês sabem. A besta é antiga e muito inteligente, ela tem mil formas de atuar, inclusive, e talvez principalmente, nos grupos de trabalho destinados a combatê-la.

Nada fácil, e o resultado mais provável é que ela continue.

Mas talvez… talvez no mínimo o herói atrapalhado seja capaz de torná-la um pouco menos petulante. Talvez as manifestações e o tal pacote anti-corrupção obriguem a besta a agir com mais cautela, e talvez até faça com que os lacaios mais tolos sejam pegos na rede pra peixes pequenos, necessária para ostentar “estamos fazendo alguma coisa, está funcionando”.

Queria poder dizer que minha esperança é imortal, mas é mentira.

Ainda assim, hoje tenho esperanças… não de ver mudanças sérias, mas de pensar que o discurso contra a corrupção e a impunidade se torne parte da cultura do país. A besta não é realmente uma besta, um demônio, e sim ações e decisões feitas por pessoas. Talvez os filhos e netos das pessoas que hoje roubam muito o país, que apodrecem a capacidade das pessoas progredirem como gente, talvez essas pessoas no futuro tomem decisões diferentes e decidam seguir por um caminho que permitirá ao Brasil ser um país de primeiro mundo.

Talvez no futuro, em parte graças a ações como essa do herói disforme e desengonçado, um jovem político ou um jovem empresário decidirá seguir um caminho que não é o do maior lucro possível e dos interesses pessoais, e sim um que permite haver investimento em educação pra população, em preservação da natureza. Talvez essas pessoas não aceitem mais a mentalidade de troca de favores, de troca de votos, e os projetos possam florescer por mérito próprio, e não como moeda de troca, na dependência de quanto a família e os amigo de fulano vão lucrar.

Talvez. Tenho fé. E tem esse poema da Ana Carolina que sempre enche meus olhos de lágrimas.

Só de Sacanagem

Ana Carolina

Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais.
Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração tá no escuro.
A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam:
” – Não roubarás!”
” – Devolva o lápis do coleguinha!”
” – Esse apontador não é seu, minha filha!”
Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar. Até habeas-corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar, e sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.
Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda eu vou ficar. Só de sacanagem!
Dirão:
” – Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba.”
E eu vou dizer:
“- Não importa! Será esse o meu carnaval. Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos. Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.”
Dirão:
” – É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”.
E eu direi:
” – Não admito! Minha esperança é imortal!”
E eu repito, ouviram?
IMORTAL!!!
Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final.