Mais orgulho misantropo

oi …, sua mensagem me deixou comovida, com os olhos molhados, obrigada, me emocionou. Vou postar minha resposta pra você no blog também, porque é daqueles assuntos que podem interessar aos outros.

Você falou sobre se reconhecer como uma pessoal incrível, e querer ter mais momentos incríveis, mas não saber bem como. No final da sua mensagem você mesma deu a resposta “não que eu queira várias aventuras com intensa adrenalina, ou mudar meu estilo de vida, eu quero apenas utilizar meu tempo com mais coisas que eu goste e mais experiências agradáveis e não desperdiçar as possibilidades que isso me dá.”

Eu concordo com você. Minha lista de momentos incríveis depende de estar fazendo coisas que eu goste, e depende principalmente das pessoas com quem eu estava. Como eu já fiz muita coisa em 40 anos e tenho essa mamata de poder ter viajado pra vários lugares, nessa lista acabam entrando alguns momentos solitários na África do Sul, mas na maior parte do tempo eu estava com o Cris, ou com o Cris e o Daniel, ou na companhia daquela lista vip que a gente chama de amigos (Eu também não só não me conformo, como até me irrito quando ouço as pessoas falando “meu amigo tal, meu amigo fulano”, e eu tenho um grau razoável de certeza que a pessoa é colega, não amigo).

Acho que provavelmente você já vive momentos incríveis fazendo coisas favoritas, ou na companhia das pessoas queridas, os amigos bem especiais. Uma noitada. Um jantar. Um passeio. Alguma troca especial de mensagens. Ou mesmo momentos silenciosos, em que vocês não está conversando sobre nada, mas há aquela sensação de paz, comunhão, do quanto vocês estão felizes de estar juntos sem precisar provar nada pra ninguém. Ou estar sozinha, escrevendo, ou desenhando, ou lendo, ou tocando a flauta e sentir paz, felicidade, tudo certo com o mundo.

Estou certa?

Se é assim, você só precisa de uma coisa: fortalecer o conceito do que é ser misantropo e introvertido. Acreditar de verdade, do fundo do coração, que não tem nada de errado em ser quieta e low profile e, mais do que isso, entender que a gente vive numa sociedade com vários mecanismos pra fazer você se sentir mal, achando que você é errada ou inferior por não estar “curtindo muito a vida” do jeito que os extrovertidos parecem estar fazendo.

Balada com open bar. Festas noturnas onde todo mundo pula na piscina e fica se pegando. Camarote vip, Cancun-Punta del Este-Trancoso-Rio de Janeiro. Provavelmente essas coisas até podem ser divertidas pros extrovertidos, mas te juro: não tem nada de anormal em ir pra uma dessas super baladas e se sentir perdendo tempo.

Tem dois caras de quem eu leio blogs de vez em quando, o Eric Barker do Barking up the Wrong Tree e o Tim Urban do Wait but Why. Acho que os dois são misantropos. O Tim mora… em NY, tenho quase certeza, e uma vez ele escreveu um post falando sobre uma balada. Sobre ter que ir pra um lugar em que você fica mais de 1h na fila pra entrar, com seguranças que ficam escolhendo quem entra ou não, e você vê um monte de gente sendo passada na sua frente, depois você finalmente entra pra um ambiente em que você mal consegue se mover de tão lotado, com música tão alta que não dá pra conversar com ninguém, se você quer uma bebida você tem que ficar mais 20 minutos num balcão tentando conseguir a atenção do barman, mas então você e seus amigos conseguem beber, vocês bebem muito, passam mal, vomitam, e isso é considerado uma ótima noite.

Descrito assim parece bem besta, não? Talvez os extrovertidos até se divirtam, mas alguém como eu, li esse post e pensei “é, eu também acho”.

A gente vive momentos incríveis. Tudo que a gente precisa é da desprogramação mental, se libertar dos conceitos que dizem que se é low profile não pode ser incrível, se não é romântico ou com sexo selvagem não é incrível, se vocês não tiverem corrido o risco de morrer ou de serem presos não foi incrível, se não for algo que você possa postar no Facebook ou no Instagram e conseguir centenas ou dezenas de like não foi incrível.

Você tem acompanhado o Quietrev.com? O slogan deles é “desbloqueando o poder dos introvertidos”. Vale a pena, principalmente pra quem ainda tem os momentos de dúvida. Não é que a gente queira se sentir superior aos outros. Mas quem ainda não consegue se sentir incrível e orgulhoso de si, precisa se fortalecer e parar de ficar pensando que somos inferiores pelos motivos errados. Você é inferior se for mesquinho, maldoso, desonesto, vil. Ninguém é inferior por ser quieto. Por não saber contar piadas. Por não ter comido todas. Por não ser rico, sarado. Por não ser o centro das atenções.

Cultive o amor por você mesma, o orgulho por ser quem você é, pelas suas qualidades. Interaja mais com as pessoas, você está na idade perfeita pra isso, é bem mais fácil do que quando você ficar mais velha.

Você também está certa sobre a grande armadilha da comparação, lembre sempre que é uma armadilha burra e sem o menor sentido. Ninguém pode ser comparado com ninguém, cada pessoa é única, especial e incrível, todo mundo tem características únicas, qualidades e defeitos únicos. Não devemos comparar as pessoas entre si e, o mais importante, nunca nos comparar com ninguém. Comparar pra se sentir superior é idiotice, vaidade besta, e comparar pra se sentir inferior é auto-sabotagem, não te leva a lugar nenhum.

Eu sei como é uma droga homens que têm medo da gente, da nossa franqueza, da nossa intensidade. Ou então, não é que têm medo, mas simplesmente não nos enxergam. Tudo bem. Continue experimentando. Ou só aproveite a relação pelo o que o cara pode te oferecer, às vezes é só sexo, tudo bem também.

Mas quanto mais você gostar de você, sentir orgulho de você, ter menos momentos pra se sentir inferior, cultivar mais o sentimento de se sentir incrível e, se possível, ser capaz de fazer coisas sem medo de ser julgada ou rejeitada – tenho certeza de que você vai atrair caras mais legais.

Cultive bastante o orgulho de ser quem você é. Já divulguei este post mais de uma vez, não sei se você viu, achei que sintetiza com leveza sentimentos do orgulho misantropo: http://www.quietrev.com/9-ways-to-explain-your-introversion/

Escreva sempre que quiser, é um prazer.

beijos,

Claudia