Mais Japão: coisas que eu achava que eram minhas ou da família, e depois descobri que são culturais

(Estas não são imagens das tais coisas, são só exemplos de destaques da cultura japonesa)

Tirando um casamento de alguns minutos quando eu tinha 6 anos, o fato é que nunca tive relações muito próximas com japoneses durante toda minha infância e adolescência. Não tinha laços com a família do meu pai, onde ficavam os primos da minha idade. Por parte de mãe, todos os primos eram mais novos. Na escola, acho que até o colegial não estudei com outros japoneses. Não frequentámos clube. Não tínhamos amizade com vizinhos, não podíamos brincar na rua. Havia um kaikan em Limeira, mas ele tinha um grande problema: era cheio de japoneses e, acredite ou não, levou anos pra não me sentir uma anã na convenção de anões do CSI Las Vegas quando me vejo no meio de um monte de japoneses.

Ser netos de japoneses é muito diferente de ser neto de italianos, de portugueses, de espanhóis, de alemães, de ingleses. Era triste se olhar no espelho e ter aquela sensação de que os contos de fada, os livros de aventura, e os filmes românticos ou de turma de amigos não são pro seu bico. Hoje há os animes e mangás… mas tenho uma certa curiosidade em saber o quanto as crianças conseguem se identificar com os personagens. Será que as meninas se veem retratadas, ou ver aquelas imagens de garotas loiras de enormes olhos azuis é mais um tipo de conto de fadas?

Na minha infância não havia animes, O Último Samurai, Memórias de uma Gueixa, Evangelion. Ser japonês significava ser fechado, tímido, calado, nerd, não-popular, não-sexy. Havia algumas exceções, em geral mestiços ou mestiças em que brilhavam os genes não-orientais.

Não precisei participar das convenções de anões, mas em compensação passei anos sem saber que muitas coisas que pareciam ser da minha família ou da minha personalidade na verdade são culturais. E saber disso hoje é um conforto a mais, é sentir-se menos ET, mesmo que eu não conviva com outras pessoas pra quem essas coisas não são estranhas.

Exemplos:

– É cultural ser sério, responsável, focado, ter obrigação de tirar notas altas, não permitir que diversão, amigos, namorados ou qualquer outra besteira atrapalhe os estudos.

– Até o terceiro colegial havia uma proibição de namorar, porque poderia atrapalhar os estudos. Eu sei, eu sei, tanta gente recebe proibições desse tipo e se vira, mas não era o meu caso. Eu tinha zero de desenvoltura física, social, não me achava bonita, não conseguia acreditar que qualquer garoto pudesse estar interessado em mim.

– É cultural não ligar muito pra aparências, ou melhor, em ser pragmático. Tínhamos roupas de festa, meu avô e meu pai tinham ternos e sempre apareceriam bem vestidos nas ocasiões apropriadas. Mas eu queria ter roupas bonitas pro dia-a-dia, pra escola, pra encontrar os amigos. E tinha vergonha de às vezes aparecer de fusca, um fusca velho, empoeirado, sem o banco do acompanhante, que tinha sido retirado pra facilitar o transporte de ferramentas entre a casa e a chácara.

– O quintal da minha casa era assim (feio e bagunçado mas sempre cheio de amigos):

Quintal_01

– Meus pais tinham tentado arrumar algumas vezes, mas meus avós não deixavam jogar nada fora. Em dias que chamavam a caçamba, era a comédia de ver meu pai levando pra fora, meu vô trazendo de volta. Eles sempre diziam “talvez um dia precise”. Coisas de quem viveu a pobreza do período da guerra e foi imigrante trabalhando na lavoura de café e de algodão.

– A escrivaninha que ficava no quarto dos meus avós era uma zona e ninguém podia colocar a mão. Meu avô dizia que se entendia na bagunça dele, e que não era pra ninguém mexer. Engraçado como alguém com aquela escrivaninha ao mesmo tempo tivesse uma pequena oficina com pregos organizados em caixinhas, separados por tamanho, cadernos de contabilidade lindamente organizados, e também era a pessoa com quem eu comia sashimi, já quando estava na faculdade. Ele fazia o corte – sem nada de muito mestria, e sem nada de peixes especiais, estávamos em Limeira na década de 90, mas queria arrumar tudo bonito no prato, e pedia pra minha avó cortar nabo bem fininho, para fazermos alguns enfeites, e recebia como resposta um “ah, Mura (de Murakami), não inventa”.

(Num outro post vou falar de como a apreciação da estética sublime não tem nenhum conflito com bagunça atroz. Não sou só eu: o Kan (o badalado restaurante de sushis de São Paulo) está aí como prova. )

– Honra, pontualidade, lealdade, dedicação, honestidade, comprometimento, eficiência, não ter frescura, não ter preguiça. Isso sempre foi o feijão com arroz, ou melhor, o gohan, o básico da minha casa. Estava lendo sobre o Japão e topei com um texto de outro descendente, pra me endossar:

Tem horas que não é fácil segurar o lado “Samurai”. Tenho problemas com pessoas que não aguentam “pressão”, tenho preguiça de gente indisciplinada e tenho ojeriza de gente que mente. – See more at: http://101macaco.com/colunas/bushido/

– Quando eu trabalhava na consultoria era elogiada por não deixar bola pingando, por sempre tentar resolver as pendências. Meus chefes falavam disso rindo “e daí a Claudia, que não consegue ver bola pingando, foi lá e…”, e eu pensava “uai, como assim? Não é isso que todo mundo faz?”, ou melhor “não é isso que todo mundo deveria fazer?”

Trabalhar com afinco, elevar a arte um campo que você quiser se aplicar, seja a culinária, a cerâmica, tomar chá, jardins, artes marciais, massagem, dobraduras em papel ou figuras cortadas com estilete, carros, câmeras, videogames. Obviamente não estou dizendo que os japoneses podem fazer qualquer coisa, é claro que não, vide futebol, ballet, maratonas, UFC, música, cinema, moda. Inclusive no quesito grandes invenções, não há destaque. Não aposte num japonês para criar algo nunca antes visto. Mas conte com japoneses para se dedicar a aprimorar algo, tornar algo mais acessível, funcional, seguro, barato. E também para criar beleza, especialmente aquela marcada pela imprecisão, a valorização do lado espiritual e da admiração pela natureza e simplicidade.

Sushi, ikebana, bonsai, niwaki, zen, shodô, ninja, samurai, gueixa, ronin, shibari, aikido, kendo, kintsugi, shiatsu, kanzashi, kirie, kabuki, chanoyu, karesansui, moku hanga, shibui, manga.

PS: fiz um post avisando que ia atrasar no compromisso de ter post novo toda terça, mas meu lado japonês não deixou, me fez ficar até 2h da manhã pra poder dormir com a consciência tranquila.