Mais importante do que combater a pedofilia é parecer esperto

Hoje eu tive o desprazer de ver a caixa de comentários de uma notícia do uol, homens reclamando da matéria em que a Natalie Portman conta que a primeira carta de fã que ela recebeu, aos 13 anos, era de um cara contando uma fantasia de estupro com ela. Que ao longo da carreira ela viu reportagens que comentavam o crescimento dos seios, que tinha um site que fazia contagem regressiva pros 18 anos  – quando não seria mais ilegal transar com ela. E como essas coisas moldaram a carreira, que ela percebeu como o corpo era um objeto, e que teve o cuidado pra escolher papéis que não explorassem isso, tanto que hoje ela tem uma imagem de séria, nerd.

E talvez você tenha pensado “Closer”, que foi o que os babacas ficaram comentando “ai, ela fala isso, mas fez aquele papel em Closer”. Ah, putaqueopariu, essa infantilidade masculina, e às vezes de mulheres também, é o tipo de coisa que me dá vontade de jogar uma torta de merengue na cara das pessoas. Ela tinha 13 anos e recebeu uma carta em que um cara se deliciou em contar como ia estuprá-la. Ela era adolescente e via a mídia falando sobre os seios dela, e fazendo contagem regressiva pro dia que os caras poderiam fodê-la sem serem presos. E nada disso importa, só o que importa é tentar mostrar um “furo” no argumento da pessoa, como se o fato dela fazer um ou alguns filmes em que há cenas sensuais mudasse o fato de que dá pra ver uma orientação na escolha de papéis, tanto que ela tem essa imagem de séria e nerd e, o mais importante, o fato de que os caras não tinham o menor pudor de falar publicamente sobre ela como um objeto pra sexo.

Um dos comentários até dizia que o papel dela em O Profissional era de uma garota com alguma sensualidade — ou seja, então ela não deveria reclamar de ter recebido uma carta que narra o estupro dela, ou de ver a mídia falando dos seios dela e dos 18 anos. Ou então, que se ela teve consciência de que a tratavam como objeto, era só ter deixado de ser atriz, foi ela que insistiu em ser atriz (juro, leia abaixo).

Se você sofrer assédio no trabalho, se passarem a mão nos seus peitos, se enfiarem a mão na sua buceta, a culpa é sua, foi você que insistiu em trabalhar num lugar em que os homens fazem essas coisas. A culpa é sempre da mulher.

https://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2018/01/22/aos-13-portman-recebeu-carta-com-fantasia-de-estupro-terrorismo-sexual.htm

As figuras públicas perdem alguns privilégios. Mas quem não consegue enxergar que é muito errado os homens acharem que tudo bem expressarem publicamente seu interesse por sexo com adolescentes. Quem não acha isso grave? Os caras que fizeram os comentários acima não acham, não se importam com o fato de que os homens podem falar e fazerem o que quiserem, inclusive espancar, estuprar, matar, e acham que não tem nada demais em debocharem de quem pede mudanças, afinal, todos têm direito a ter opinião.

Lembram do caso Valentina? A garota de 12 anos, Master Chef Jr, que nas redes sociais começaram a falar dela pra sexo? A emissora disse que o programa foi bem de audiência, mas que não haveria uma segunda edição por causa do risco de novas polêmicas do tipo.

http://entretenimento.r7.com/blogs/keila-jimenez/2016/10/25/apos-acusacao-de-pedofilia-band-desiste-de-masterchef-jr-e-investe-em-mais-uma-edicao-com-profissionais/

E aí, garanhão, que se sentiu tão esperto e articulado ao criticar a Natalie Portman. Tem filha? Sobrinha? Afilhada? Já imaginou se ela participasse de um Master Chef, ou fizesse alguma apresentação musical, uma peça de teatro, e ela começasse a receber mensagens como essas, e a mídia começasse a falar do crescimento dos seios dela, da bunda, fizesse contagem regressiva pros 18. Legal, não?

Bem legal. As grandes alegrias de ser mulher. E de ter que desperdiçar um tempo absurdo brigando com quem nunca estupraria ou bateria numa mulher, mas fica aí fazendo campanha pro mundo não mudar, porque “esse assunto é tão chato, tô cansado de ouvir falar disso, podemos falar de algo mais divertido?”.

Eu fico possessa porque imagino que a maioria dos caras que perde uns minutos da sua vida pra reclamar de qualquer notícia feminista provavelmente nunca estupraria ou machucaria uma mulher. Mas são burros, burros, burros de não conseguir enxergar o grande mal que eles causam pro mundo ao ficar reclamando do feminismo, e a reclamação não é porque vai tirar a casa onde eles moram, o emprego deles, ou vai impedi-los de estuprar e bater em mulheres — porque isso eles não fazem. Mas ficam reclamando só porque acham o assunto chato.  Só porque é chato falar de coisas chatas. É uma futilidade do cacete.

Todas as vezes que vocês tentam posar de espertos, em vez de ter um mínimo de empatia com quem sofre abusos, vocês estão contribuindo pra perpetuação da violência.

 

Mãe de participante do MasterChef Júnior quebra o silêncio e comenta assédio

“Muitos dirão, são doentes, são pedófilos. Discordo, senhores. A maior parte deles são simplesmente rapazes que desde sempre foram impactados por imagens e mensagens nas quais as mulheres ou pedaços delas eram tratadas como objetos sexuais. Imagens e mensagens contidas nos anúncios, nos filmes e outdoors que os leitores deste jornal criaram, aprovaram e veicularam. E assim, cresceram, crescemos… ajudando através da publicidade a construir a cultura do estupro.

Eu não ia falar sobre isso, porque é muito dolorido ver a tua própria família se tornar vítima de uma cultura que de alguma forma direta ou indiretamente você ajudou a construir. E ainda ver, supostos influenciadores, cobras que ajudamos a criar, ironizando o caso e desmerecendo a importância da discussão que se deflagrou a partir dele com a campanha #meuprimeiroassedio.”