Mais explicações sobre seres estranhos

O que é ser estranho? Ser estranho sempre depende do contexto, é claro. Dos valores vigentes naquela comunidade.

Meu texto anterior não era um exemplo de coisas estranhas que eu faço. No máximo uma menção a um dos aspectos de quimera: admirar a sensatez do pensamento científico, mas também ser capaz de acreditar em coisas não científicas, desde que inofensivas.

Exemplos das coisas que me tornam um ser estranho: falar pouco, não saber falar de assuntos cotidianos, ser analfabeta televisiva e de atualidades, gostar de coisas que poucas pessoas gostam e não gostar de coisas que muitas pessoas gostam, não ter nenhuma habilidade física, nenhuma – nem fôlego, não saber praticar nenhum esporte, nem mesmo pingue-pongue, não saber dançar, não saber cantar. Ser uma lorpa pra small talk, mas me interessar deveras por qualquer coisa mais pessoal e aprofundada, me preocupar com questões existenciais. Não gostar de festas, não gostar de saídas em grupo (é quando vários observadores de aves saem pra fazer um passeio juntos). Agora não importa mais, mas quando morava em Limeira outras coisas que contribuíam pra sensação de ET era sempre tirar notas altas, ganhar prêmios de melhor aluna do colégio e da cidade (um dia explico), e ser rotulada de nerd, obviamente. Ser japonesa também me colocava na categoria dos esquisitos, não é como na cidade de São Paulo. E não bebia na adolescência, algo que em geral te ajuda a socializar.

Veja, não adianta dizer “você não é estranha”, ou que não há nada de estranho nas coisas relatadas. Nós esquisitos sabemos que somos esquisitos, que estamos à margem. Minhas palavras para os desenquadrados são tentativas de conforto. O Silvio citou People are Strange, do The Doors. Palavras importantes aí. Down. Unwanted. Alone.

Todos nós esquisitos já tivemos, e sempre vamos ter, vários momentos pra se sentir tristes-párias-solitários. É inevitável. Mas diminui a tristeza pensar que há outros tristes-párias-solitários, e que podemos assumir que temos características e valores diferentes do grupo.

Acredite: todo esquisito já quis muito não ser esquisito. Ser comum e feliz como as pessoas não esquisitas parecem ser. Sei que cada um tem sua cruz e seus problemas, mas os esquisitos sabem do que eu estou falando, e minha conversa é com eles-vocês. Minha sugestão é estabelecer como fato que há mais esquisitos no mundo que imaginávamos – afinal, tentamos disfarçar, e que devemos abrir as portas e os sentidos para estabelecer contato, ter acesso ao lado que pra mim é o mais precioso na relação com uma pessoa. O lado esquisito e verdadeiramente humano de alguém.