Mais alguns comentários sobre o Franzen

(post de 2013, de um antigo blog)

“Como ficar sozinho – ensaios”, que carrego na bolsa quando acho que terei um tempo sem fazer nada E que posso ler aos pedaços, refletindo sobre as ideias.

Quando dizem que um autor é muito chato, e quando você lê descobre que gostou, isso provavelmente te coloca na categoria de pessoas muito chatas, imagino. Pelo menos pelo crivo de quem considera o autor chato.

Gosto do Franzen porque ele não posa de cool, não usa frases hiperbólicas desmedidas. Fala de assuntos íntimos, pessoais e importantes, é birdwatcher!, se incomoda com detalhezinhos bobos, que pra maioria das pessoas seria idiotice falar sobre isso, mas é o tipo de detalhezinho bobo que importa pra mim, que diz que a pessoa segue o deus das pequenas coisas.

Já havia transcrito alguns trechos do livro. Em que ele fala sobre o momento que se viu obrigado a reconhecer que era um birdwatcher. Sobre a relação com a nicotina.

Nesses dias relia o texto de apresentação, o discurso de abertura no Kenyon College, maio/2011, em que ele fala da leviandade do “curtir”, sobre a persona nas redes sociais, nossa necessidade de sermos curtíveis. É o mesmo texto que ele fala do birdwatching e da paixão. Muito bom.

E também gosto do texto seguinte, em que ele reclama da proliferação do “Love you” falados no celular, pós 11 de setembro, como ele detesta ouvir isso, a vontade que dá de ir morar na China toda vez que ouve um “Amo você”, e que “Fuck you, asshole” é menos invasivo do que a declaração de amor, falada em voz alta, em tom casual. Eu também concordo com essa.

“Privacidade, para mim, não significa manter minha vida pessoal longe dos outros. Significa me manter longe da vida pessoal dos outros.”

(ah, eu também me sinto assim… quantas vezes sou obrigada a ouvir coisas que adoraria não ter ouvido, e penso em Cyrus Spitama: “Sou cego, mas não sou surdo. Devido à incompletude das minhas desgraças, fui obrigado a ouvir durante 4 horas o enfadonho discurso…”)

“Para mim era difícil prever até onde chegaria essa tendência: Nova York queria verdadeiramente se tornar uma cidade de viciados em celulares deslizando pelas calçadas sob desagradáveis nuvenzinhas de vida privada, ou de alguma maneira iria prevalecer a noção de que deveria haver um pouco de autocontrole em público?

(…) Nem é preciso dizer, não houve debate algum. O celular não era uma moda (…) e o celular então estava livre para continuar fazendo estragos sem medo de sofrer mais críticas, pois elas seriam antiquadas e nada cool. Aê, tio.”

Estou lendo saltado, então não achei o trecho exato para descrever, mas há um outro pedaço, talvez não nesse mesmo texto, em que ele opõe os zumbis que caminham pelas ruas teclando mensagens, combinando festas nas calçadas, com as pessoas que têm discussões amorosas aos berros pelo celular, de peito aberto, e que isso é o que o enchia de esperança.

E eu não vejo oposição de opiniões. Sou no mínimo tão chata quanto o Franzen, e evito ao máximo fazer ligações enquanto estou num táxi. Prefiro passar mais dias sem falar com minha família, mas ter um momento em que estarei sozinha na minha casa, me sentindo tranquila e sem pressa para conversar com eles, do que papear no trajeto pra algum lugar e aproveitar o tempo. Também não gosto de ouvir as conversas dos outros. Também acho estranho “Amo você” ser metralhado pra lá e pra cá. Mas concordo que meu coração se encheria de ternura e esperança pelo mundo ao presenciar discussões amorosas ferozes pelo celular.

Não gosto de falar pelo celular ou telefone. Pra mim é por escrito ou ao vivo. Mas lembrei de uma discussão amorosa que já tive pelo celular, eu num ônibus intermunicipal, prisioneira daquela discussão, com a cabeça quase entre os joelhos e vociferando em voz baixa, a mão em concha por cima da boca, tentando impedir de todas as formas que o resto do ônibus ouvisse, mas brava demais pra desligar e dizer “conversamos depois”.

Acho que o Franzen aprovaria.

 

  • Duas colunas
  • Celular
  • News
  • Alternative
  • Banner
  • Featured
  • Plain
  • Condensed