Livros favoritos

Oi Crauber, devido à sua lista, quis juntar os meus favoritos. Não estão em ordem de preferência, é só uma lista de livros queridos.

Você vai ver uma certa superpopulação de Cees Nooteboom e Michael Ondaatje. Considero meus romancistas favoritos, e com ótimos tradutores. Roteiro, estrutura, frases, personagens, tudo é elegante, quase todos passam no teste de pegar o livro, abrir ao acaso, e ver se consigo ler umas duas páginas. O outro teste em que esses dois autores passam com louvor é o de construir personagens com quem você jantaria, ou que você poderia fazer uma viagem longa de carro.

Dia de finados – Cees Nooteboom – Um cinegrafista free-lancer que perdeu o prumo depois que a esposa e o filho morreram num acidente de avião. Alguns ótimos amigos em Berlim, um projeto pessoal de filmar no fim do dia, o invisível, aquilo que ninguém presta atenção. Só trabalha quando precisa de dinheiro. A vida não está ruim, mas falta sentido. Até conhecer uma mulher capaz de mudar tudo e levá-lo até Madrid, onde ele precisará conciliar essa relação entre os vivos e os mortos, na comemoração de finados.

A seguinte história – Cees Nooteboom – um pequeno livro tragicômico, com um protagonista muito cativante. Imagine um professor de grego, branquelo, celibatário, cujo único passatempo era ler, e de repente está envolvido no imbróglio de ser o amante escolhido pela professora de biologia, para tentar fazer ciúme no marido, professor de educação física, que está tendo um caso com a garota mais adorável do colégio.

Bandeiras pálidas – Michael Ondaatje – a guerra civil do Sri Lanka como pano de fundo, mas personagens intensos e instigantes, como o médico que ama a cunhada – sabe que não é correspondido, mas não importa, é daqueles amores platônicos. Num dos dias que ele está de plantão, ela entra numa maca: tinha engolido veneno, algo comum, muita gente simplesmente não aguentava ver tanta morte e tortura diariamente. Ela está lá morrendo, não tem nada que ele possa fazer, e ele sabe que ela sofre dores horríveis, mas não dá o analgésico que faria ela apagar, porque ele quer que ela olhe pra ele, veja que é ele que está lá do lado dela, e não o irmão.

Running in the family – Michael Ondaatje – crônicas familiares fantasiosas e deliciosas, com frases do tipo “quando me perguntam do que minha avó morreu, digo que foi de causas naturais” (ela morreu numa enchente no Sri Lanka).

The Cinnamon Peeler – Michael Ondaatje – poesia que gruda na cabeça, como o cheiro de canela na pele.

Religião para ateus – Alain de Botton. Não sei se Deus existe ou não, mas algo inegável é o papel social das religiões, quantas coisas podemos aprender com elas na relação com as pessoas, na necessidade que os seres humanos têm de colo, de lembretes da importância da reflexão sobre nosso comportamento, nossa necessidade de perdão e redenção.

Como ficar sozinho – Jonathan Franzen. Ele é birdwatcher :o) Dizem que é muito chato como pessoa, e alguns o detestam como autor. Ele ficou famoso porque foi capa da Times, depois da Times passar muitos anos sem dar capa pra nenhum autor. Tenho conhecidos que acham horrível e vergonhoso as coisas que ele conta sobre o que ele já foi capaz de fazer para chamar a atenção, para parecer cool. Não acho vergonhoso, acho ternamente humano.

Num dos capítulos ele conta que pra ele privacidade significa não ter que ouvir sobre a vida dos outros. Quando estamos naquela famosa cena de restaurante, tendo que ouvir a conversa da mesa ao lado, nos imaginamos na companhia do Franzen e do Cyrus Spitama, diplomata de Xerxes. Em Criação, do Gore Vidal, o livro começa com Cyrus dizendo algo como “Sou cego, mas não sou surdo. Devido à incompletude das minhas desgraças, fui obrigado a ouvir durante três horas o discurso de…”. Aliás, esse é outro livro muito legal, mas não chega a figurar entre os mais queridos.

Memórias de Adriano – Marguerite Yourcenar. Adriano, o imperador romano, sucessor de Trajano, predecessor de Marco Aurélio (o das Meditações de Marco Aurélio). Narrado pela perspectiva de Adriano, num tom de voz suave, maduro, sábio, homossexual, profundo. Um imperador, um homem formado pela espada, pelos livros, pela experiência em lidar com soldados, políticos, o povo, alguém que consultava sábios, pitonisas, bruxas, astrólogos e astrônomos, participava de ritos de iniciação.

“Pequena alma terna flutuante
Hóspede e companheira do meu corpo
Vais descer aos lugares pálidos duros nus
Onde deverás renunciar aos jogos de outrora….”

O mundo assombrado pelos demônios – Carl Sagan. Livro antigo, mas que só li neste ano. Essa voz de homem sensato da ciência, que acredita no valor do conhecimento para libertar as pessoas de tantos ledos enganos. Mas não é o cientista arrogante, sabe? É alguém que entende os pontos em que a ciência erra e afasta o público, que acaba caindo vítima de tantos charlatões.

Um antropólogo em Marte – Oliver Sacks. Outro antigão que só li neste ano. É fascinante pensar na amplitude do espectro dos seres humanos, como a normalidade é uma farsa. O capítulo sobre o cirurgião com Tourette é o mais legal, mas todos são muito instigantes.

The heart of God – preces de Rabindranath Tagore. Coisas assim:
The Grasp Of Your Hand

Let me not pray to be sheltered from dangers,
but to be fearless in facing them.

Let me not beg for the stilling of my pain, but
for the heart to conquer it.

Let me not crave in anxious fear to be saved,
but hope for the patience to win my freedom.

Grant me that I may not be a coward, feeling
Your mercy in my success alone; but let me find
the grasp of Your hand in my failure.

Pra quem anda perdidamente apaixonado, a leitura de Fragmentos de um Discurso Amoroso , do Roland Barthes, complementa a loucura.

E pra quem quer pensar na fotografia como arte e com alma, A Câmara Clara, também do Barthes, é outra leitura essencial.

Deuses americanos – Neil Gaiman. É mais do que uma leitura fácil e juvenil: é algo pra dar uma dimensão a mais pra rotina. Depois de ler o livro, você tem certeza de que ele está certo, e que os deuses perambulam por aí. Vida mais divertida.

Quem é você, Alaska – John Green. Esse é legalzinho, mas bem abaixo do patamar do Nooteboom e do Ondaatje. Tem o mérito de valorizar os nerds. Uma história bem montada, leitura doce pra quem tem saudade do colegial. O Teorema Katherine folheei, mas achei bem chato.

Sack, Walt Whitman, Rex Stout (Nero Wolfe).

E a patota da FC: Isaac Asimov, Kim Stanley Robinson, Charles Scheffield, Orson Scott Card.

Se valem artistas plásticos favoritos: Edward Hopper, Munch, Gustav Klimt, Jack Vettriano, Kees van Dongen, Turner, Kamisa Sekka, Egon Schiele, Toulouse-Lautrec.

Não sou grande fã de mangá, e há anos me afastei das HQs. Mas O Lobo Solitário é uma obra incrível. Acho que até não-japoneses devem gostar. Tinindo de honra e inexorabilidade.