Jesusaladomesalve, me apaixonei por um misantropo!

O mais comum é a ignorância, a santa ignorância. Por um motivo qualquer vocês começaram a conversar, engrenaram nos assuntos certos, e você descobriu que o rapaz ou a rapariga, é sagaz, inteligente, culto, com um senso de humor bem peculiar, que ele presta atenção em você, ouve o que você fala, capta sutilezas do seu discurso ou da sua linguagem corporal, não emana ansiedade, não disputa atenção do grupo e de repente, capuft, você se vê o tempo todo pensando na pessoa, querendo voltar a vê-la, falar com ela, ouvir ela falar de você ou de qualquer coisa porque ela tem opinião sobre qualquer assunto que você pedir pra ela falar, e tudo sempre é sensato ou no mínimo faz sentido e é divertido.

Talvez ela tenha gostado de você também, e vocês começam a namorar.

Mas quando é que você poderia imaginar que aquela pessoinha tão encantadora quando estão a sós, ou num grupo pequeno de pessoas queridas, pode se tornar um animal tão arisco pra festas, eventos e badalações? Como é que uma pessoa tão legal pode ser tão irascível, não gostar de se divertir? Meudeusdocéu, o que é isso, é um caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde??

Só que se você reparar bem, a transformação não é aleatória. Ela está diretamente ligada com as situações de muita gente, ruído, conversas de salão, papinho, música alta.

Congratulations, Sir, você se apaixonou por um misantropo. E agora?

 

Me apaixonei por um misantropo, e agora?

Você se apaixonou por um misantropo, e já devem ter atravessado algumas escaramuças, com mortos e feridos pra ambos os lados. Sei que sou altamente suspeita em falar, afinal, sou misantropa panfletária,. Mas você já deve ter reparado que em geral somos pessoas justas. Lembra de alguma vez que seu amor foi injusto? Talvez vocês até tenham brigado na hora, mas quando fizeram as pazes e ele ou ela explicou seus motivos, você viu que havia razão, que não era algo mesquinho, mas sempre orientado por uma racionalidade. Então se puder dar mais um pouco de crédito, veja se as ideias abaixo fazem sentido:

Você realmente gosta da pessoa? Uma boa forma de avaliar quanto ela vale é imaginar sua vida sem ela. Como seria se vocês terminassem? Imagine seus dias. É algo bom ou ruim?

Supondo que você não quer terminar, que você quer continuar o relacionamento, fazer dar certo, superar as diferenças, você precisa entender que misantropia-introvertimento existem e não são escolhas. Uns anos atrás eu achava que era apenas ideologia, mas outros textos que li, especialmente sobre os introvertidos, me levam a crer que é algo mais forte do que ideologia. Nós nascemos desse jeito. Assim como algumas pessoas nasceram gays, ou sem orientação de gênero. É assim e pronto. Não há cura, não há tratamento. Não há doença. É só o jeito como as pessoas são.

Pesquise por aí e leia sobre misantropia, introverts. Aqui no blog tem muitos textos na tag _Misantropia e o site https://www.quietrev.com/ também tem muitos textos que ajudam a entender.

 

Que droga, me apaixonei por um misantropo (ou uma misantropa), não posso mais me divertir!

Misantropos têm muitas diversões e alegrias. Mas também temos limitações, talvez sejam físicas, relacionadas com percepção, neurônios e configuração cerebral.

– Lugares com muita gente nos desgastam, não é só uma gastura emocional, é um cansaço físico mesmo, de se sentir acabado.

– Música alta e grupos grandes também acabam com a gente.

– Não gostamos de conversas inócuas. Papo social “como está o trabalho?”, “como estão seus pais?”, “e as crianças?”, nossa, que tristezadaporra.

– Entenda: essa história de que misantropos odeiam a humanidade é um equívoco burro de se levar uma palavra ao pé da letra. Misantropia significa ódio à humanidade, e não é o nosso caso, muito pelo contrário. A gente ama a humanidade, mas aquilo que seja humano, real, autêntico. Não o fake, o sem graça, o superficial.

– Estava numa festa de casamento e encontrei um cara que não via há uns anos, mas gostava dele. Fui falar oi, estávamos só nós dois, e ele me falou “E aí, Claudia, como a vida tem te tratado?”, e eu vi que era uma oportunidade pra uma conversa de verdade, e me esforcei pra falar de algo mais pessoal e importante, e ele fez o mesmo.

– Mas veja bem: numa roda social comum, não é isso que acontece. As pessoas não estão conversando, elas estão disputando espaço, às vezes tentando falar mais alto do que as outras, pra tentar contar algo de si, alguma história pra posarem de cool, ou pra contarem alguma notícia de portal ou meme ou mostrar um vídeo no celular.

Misantropos adoram conversar, mas tem que ser conversa de verdade. Papo-furado não é com a gente. Notícia de portal mencionadas com superficialidade, vídeo do youtube, bravatas, generalizações toscas, escatologia, perrengues do trabalho, histórias que você sabe que fulano já contou pra outras 20 pessoas antes de você. Essas coisas me mortificam.

O que me atrai? Quando tem alguém contando sobre algo importante e pessoal, quando tem alguém fazendo uma pergunta sincera, quando tem alguém que quer realmente saber o que o outro pensa.

Meu melhor amigo uma vez disse que sou melhor do que o soro da verdade. Em várias ocasiões, colegas ou recém-conhecidos decidem me contar coisas pessoais. Não porque eu perguntei, mas acho que é só porque não emano ansiedade, não me demonstro alguém ansiosa pra contar algo sobre mim, e presto atenção e olho nos olhos das pessoas enquanto elas falam. Tenho um monte de exemplos. Agora no fim de ano, tem uma conhecida da minha sogra (elas se conhecem há décadas) que me contou que o nome dela não é …. e sim ….. Minha sogra ficou boquiaberta. “Como assim?? E por que ela te contou isso?”. “Não sei. Não perguntei nada, eu só estava sentada do lado dela”.

Guias ornitológicos que contratei em 2017, gente de quem gostei muito, e que me contaram coisas pessoais, como diálogos com a filha sobre educação sexual, ou sobre um dos piores dias da vida, que foi a morte do melhor amigo.

Nós adoramos conversar, e gostamos muito das pessoas. Mas entenda e reconheça: um evento com música alta e um montão de gente não é um local pra conversar de verdade.

 

Misantropos gostam de beber e de dançar?

Não sei falar pelos outros, posso falar por mim. Eu até gosto de dançar, mas em geral acho os programas noturnos muito cansativos. Pode ter relação com eu ter virado birdwatcher e gostar de acordar cedo. Em compensação à noite, não conte comigo pra sair, nem pra procurar coruja.

Adoro beber. Se dependesse de mim beberia vinho ou cerveja todos os dias, só não faço isso porque uns anos atrás recebi o cartão amarelo do triglicérides, e porque engorda. E agora tenho que considerar os riscos de câncer :). Adoro beber, adoro ficar bêbada, mas só gosto de fazer isso quando estou num ambiente seguro e tranquilo. Não gosto de ficar bêbada num bar. Quero poder ficar bêbada na minha casa, na casa de um amigo, numa casa de Airbnb. Em ocasiões especiais aceito beber mais do que devia, mesmo estando longe de casa.

Mas beber rotineiramente todo fim de semana, até passar mal ou até fazer coisas vexatórias? Pra mim isso não é diversão.

 

Misantropos conseguem ir a shows?

Faz muitos anos que não vou a um show de música, mas tenho um leitor-amigo misantropo que sempre vai a shows de rock. Ele adora rock, vai a shows, vai a bares. São coisas que ele gosta de fazer, então ele vai.

Já fui a apresentações de Cirque du Soleil, Broadway, Lincoln Center. Lugares cheios de gente, teve uma apresentação de Cirque du Soleil que fomos pegos pra Cristo, sabe o casal escolhido pro palhaço ficar fazendo gracinhas antes do show começar? Fomos nós. E não foi nada ruim.

O que me leva a concluir que a questão com as multidões não é só sensorial, ela tem algo de moral. Meu amigo consegue ir a shows. Eu estava no Cirque du Soleil pagando mico e tudo bem. Mas estar num restaurante, com alguém da mesa ao lado falando alto demais, isso me incomoda e me desgasta. Ir a um evento social com um monte de gente falando papo de salão me desgasta. Mas eu me imagino fácil indo a um evento social com muita gente disposta a conversar de verdade, pessoas com uma visão cândida e generosa sobre o outro.

 

Benzadeus, vocês são estranhos. Com o que vocês se divertem, se é que se divertem

Eu adoro fotografia de natureza e sempre encontro diversão onde muita gente não vê nada. Fotografo aves, insetos, flores, besouros, aranhas. Fico horas, dias seguidos, entretida em observar e fotografar.

Adoro snorkeling. Adoro snorkeling de rivalizar com o birdwatching. Me imagino morando numa cidade de praia e indo todos os dias aproveitar a maré baixa. Eu já tinha gostado do snorkeling, mas o quem e fissurou foi fotografar e ter descoberto o site inaturalist.org.

Já mergulhei de cilindro (e fui reprovada no check out – o tal alagamento da máscara), mas talvez em algum momento do futuro a gente passe um tempo indo pra esses lugares do Caribe onde é lindo, fácil e barato mergulhar de cilindro – e depois de inventarem a vacina pra Zika. Eu sou encanada com essas coisas, e li as notícias sobre gente que perdeu a visão, ou que tem dores que não saram, tiveram que parar de fazer exercícios físicos.

Fiz rafting  e caiaque algumas vezes, até achei legal, mas hoje em dia quando penso em água só dá vontade de snorkeling.

Já tentei snowboard, e desisti no início da primeira aula. Nem tentei esqui. Mas se morasse num país em que neva por meses, me dedicaria a aprender.

Além de fotografar, também gosto de editar e divulgar a natureza.

Também gosto de desenhar, sempre gostei, desde a infância. Tenho uns poucos rascunhos, faz uns anos que estou ameaçando voltar a desenhar mais a sério, mas a fotografia e as questões políticas do birdwatching ocupam tanto tempo.

Gosto de ler e gosto de escrever. Gosto de blogar. É um prazer escrever e pensar que as coisas que escrevo ajudam e divertem os outros.

Gosto de cozinhar com o Cris, inclusive quando a gente viaja. Fazemos pratos simples no capricho, com muito sabor, sempre regados a algum álcool e em geral com alguma vista bonita.

Posso falar que adoro viajar, apesar de parecer meio redundante com a história da fotografia. É tão sobreposto e intercalado.

Adoro ir a museus. Sempre que a gente vai a uma cidade grande vamos pros principais museus, e sempre pensamos que devíamos ir mais de uma vez na mesma viagem.

Adoro encontrar alguns amigos bem especiais, e conversar e beber como se o tempo não existisse.

Às vezes eu jogo. É bem esporádico, considerando que o Cris e o Daniel adoram jogos. Mas sou capaz de passar horas jogando Ark – Evolved com eles, já chorei quando meu primeiro pteranodon morreu, tenho centenas de horas de Minecraft e Terraria com o Daniel.

E os outros devem ter outras diversões… repare que não sou só misantropa, também sou capricorniana, que talvez signifique misantropia exacerbada nos aspectos frios, considerando posts como este: http://claudiakomesu.club/capricornio-e-cafe-preto-e-amargo/, ou seja, eu sou um dos piores cenários possíveis.

 

Como conciliar meu amor misantropo com minha vida social?

Repare: sua vida pessoal. Sua. Ser um casal não significa fazer tudo junto, apenas aceite isso. Seu amor misantropo irá com você em alguns eventos mais importantes, e graciosamente escapará dos outros.

O que eu falo pros outros?

Pra família, em geral recomendo não se falar a verdade. Quando não vou a uns eventos da família do Cris é sempre porque fui jantar com uma amiga, ninguém precisa ouvir um “ela é uma misantropa e não queria vir”.

Você pode fazer a mesma coisa. Diz que seu cacho tinha outro compromisso, ou que precisava trabalhar, ou que foi ver a família, socorrer um amigo que levou um fora, jantar com um que não via faz tempo. Ou se for encontro com alguns amigos bem queridos, desses que você pode falar qualquer coisa, você pode dizer “fulano não veio porque ele é uma porra de um misantropo, vocês sabem o que é isso? Descobri há pouco tempo. Que há milhões de pessoas assim no mundo, que simplesmente não se divertem como a gente se diverte, que não gostam de badalação e agito, e que ficam desgastados e meio malucos se não tiverem um tempo de sossego. Não foi fácil engolir essa, primeiro eu achava que era frescura, mas depois de ler vários textos, vi que esse negócio realmente existe, é da pessoa, nada pode mudar isso. E se a gente ama alguém… tem que aceitar a pessoa como ela é, certo? Não é falha de caráter, não é como se a pessoa fosse ladrão ou mentirosa. Ela simplesmente precisa de sossego”.

 

E é isso, meu amigo que teve a (in)felicidade de se apaixonar por um misantropo.

Você tem que aceitar que somos o que somos, e não tem nada que vai mudar essa nossa necessidade de sossego e tranquilidade.

Se você não se imagina indo a algum lugar sem seu cacho, considere a possibilidade do problema ser você, e não o cacho misantropo. Somos pessoas, somos indivíduos. Você já era uma pessoa antes de conhecer o outro, você não precisa depender dele pra ir pra algum lugar. Se você acha que estará deslocado, sem ter com quem falar, você realmente precisa ir? Se for algo como uma obrigação que não tem como escapar, você pode pedir pro seu cacho misantropo ir pra te fazer companhia, como um caso especial. Mas na rotina, nos encontros frequentes com seus amigos, ainda mais se não há muita comunhão, por favor, não espere e não peça pra ele ir. Fazer isso é uma violência, é desrespeitar quem o outro é.

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Você sabe o que é passarinhar no Brasil? Significa acordar às 5h30, às vezes antes. Vestir calça comprida, camisa de manga longa, bota, chapéu, mesmo que esteja um calor dos infernos. Se besuntar de repelente e protetor solar. Em geral carregar um trambolho de uns 3kg, que é a DSLR com a tele, às vezes com um tripé também. Andar por trilhas às vezes enlameadas e íngremes. Passar fome, calor, vontade de ir ao banheiro (pras mulheres mais reticentes em fazer xixi no mato). Às vezes fazer isso do amanhecer ao por do sol (e tem gente que emenda com a corujada), vários dias seguidos.

E acredite, há milhares de pessoas no Brasil e milhões no mundo que adoram isso, que são capazes de pagar caro pra passar vários dias nessa rotina. Atrás dos tais emplumadinhos. Pintei um quadro meio ruim, mas não é o pior, tenho colegas que são capazes de navegar mais de 5h em barquinhos desconfortáveis, pra chegar numa pousada com precariedades de estrutura e higiene, só pra ver alguma ave rara.

E o snorkeling de que eu tanto gosto? Na Austrália no verão em Sydney a temperatura média da água é de 22 graus. Vi homens barbados gritarem quando a onda bateu nas partes íntimas. Mas eu entrei mesmo assim, só com lycra (ainda não tinha comprado meu macacão de neoprene). Fiquei lá alegremente, só porque tinha peixinhos pra fotografar.

 

Por que estou contando essas coisas? Pra ver se fica mais claro o seguinte: como você se sentiria se você fosse meu namorado que não tem toda essa atração por natureza, e eu te obrigasse a ir comigo passarinhar ou fazer snorkeling?

Obrigar um misantropo a ir a eventos sociais que não o interessam é um perrengue do tipo ser uma pessoa urbana obrigada a acordar às 5h30, passar o dia no mato, entre insetos, calor, fome, lama. Ou obrigado a entrar no mar gelado. Ou seja, apenas não faça. Respeite quem o outro é, entenda que as pessoas são diferentes umas das outras. Seu amor misantropo também tem uma lista de coisas que ele gostaria que você agisse diferente, mas ele não fica te pedindo ou jogando na cara, ele aceita. Aceite quem o outro é. Misantropia não é doença é não é frescura, é só o o jeito como nós somos. A gente não te pede pra parar de gostar de festas ou de encontrar seus amigos. Por favor, não nos peça pra parar de precisar de sossego e tranquilidade.