Intimidade

Essa coisa maravilhosa que te permite falar sobre qualquer coisa, ou quase qualquer coisa, especialmente para xingar o outro ou os outros.

Sentir-se querido, respeitado, ouvido, ver que a pessoa está lá com você, ou mesmo quando vocês estão fazendo cada um uma coisa, a sensação é de conforto silencioso, aconchego. À vontade perto do outro, com o corpo do outro, em tocar o outro. Não estou falando de libido, mas de poder estar próxima, ou tocar o braço, o ombro, a perna, a cabeça do outro e não ser uma invasão de espaço.

Também não significa ausência de conflitos. É amor e confiança profundos, que sabem que aguentam o tranco da honestidade e clareza.

Meu enteado, por exemplo. Uma das 7 maravilhas do mundo moderno. A primeira vez que o vi, um bebezinho no colo do Cris, ainda com aqueles olhos cinza-azulados. Na teoria sou uma madrasta, mas sempre fui tratada como Tatá (tinha uma época que o Cris me chamava de Cla-clá, ele não conseguia falar e falava Tatá). Uma tatá é muitas coisas, mas de uma forma simplificada podemos dizer que sou uma irmã mais velha. Com quem ele pode falar sobre misantropia, o horror às multidões, sobre metralhar pessoas, sobre vômito, cocô, dizer que meu machucado no joelho parecia algo podre, falamos sobre o dia que eu morrer, meu enterro, eu ser assombração. Sobre injustiças – um tema muito sensível pra gente, não sei se é influência minha, mas no fim é um dos meus orgulhos que a gente tenha brigas e discussões e se ele começa a balbuciar eu falo que não pode balbuciar, que tem que falar o que ele discorda, e ele fala. Ou às vezes não fala na hora, mas depois voltamos ao assunto.

Cantamos músicas com melodias reais e letras inventadas na hora, até alguém não aguentar e apelar pro “piuuummm” – coisas de Larte. Concursos de quem é a coisinha mais nada a ver do dia. Numa das vezes, o troféu foi pro desconhecido que me abordou com um “German?”, e até agora tentamos imaginar que tipo de gente acha que eu sou alemã.

Olhar o cardápio e dividir pratos. Jogar uma partida de Two Dots e me devolver o celular com um “Ih, Tatá, eu perdi um dos seus coraçõezinhos”.  Andar abraçado com o meu braço, algo que meus amigos do colegial já sabiam – em dias quentes eu transpiro um pouco e logo já estou gelada, o privilégio de andar com um sistema de refrigeração ambulante.

Meus MMs, com quem fico trocando e-mails compridos sobre assuntos diversos, mas principalmente sobre nós mesmos, cagadas, medos, problemas, angústias, coisas que queríamos que fossem diferentes.

Pardais-gigantes-dourados eternamente em volta de uma mesa qualquer, tomando uma cerveja gelada, pra compartilhar os acontecimentos da vida mas principalmente pra poder falar os putaqueopariu do dia-a-dia. E talvez em breve de volta a alguma trilha, andando em silêncio, atentos às maravilhas emplumadas, mais sincronizados do que soldados quanto aos momentos de andar mais devagar, ou parar, ou ajoelhar pra fotografar.

Intimidade.

Se você não tem gente com quem se perder assim, vá atrás. A vida é muito melhor com intimidade.

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(não esqueci da parte 3/3, as comidas botecosas ou de brunch, ainda leva uns dias pra eu postar)