Inception – como uma ideia pode influenciar sua vida?

Reflexões a partir do filme Inception, com Elen Page, Marion Cottilard, Leonardo DiCaprio e Ken Watanabe.

Assisti a Inception na semana passada. Gostei muito. Como órfã da Isaac Azimov Magazine, é comum assistir a filmes e pensar “que enredo ingênuo, bocó, bobinho, simplório, bege”, mas pra Inception rendo minhas homenagens. Não sei o que a crítica fala dele, não tive curiosidade de pesquisar, mas pra mim é um daqueles filmes que ficam na cabeça. O que torna o filme especial foi o argumento sobre a periculosidade e poder de uma ideia, algo em que acredito totalmente.

Todos estamos abençoados ou infectados com ideias, e as repercussões dessas crenças se estendem em todas nossas ações e pensamentos, na nossa vida toda.

As Vantagens de Ser Invisível, lembra? A gente aceita o amor que acha que merece. Um dos maiores exemplos de como uma ideia te infecta, ou abençoa, e domina inteiramente sua vida.

Eu, por exemplo. Quando morava em Limeira tinha esse pensamento de que não podia ter namorado, não só porque minha mãe dizia que atrapalhava os estudos, mas principalmente por achar que ninguém se interessaria por alguém como eu.

Depois que mudei pra São Paulo deixei crescerem as ideias de que aparência não contava tanto. E quando me tornei adulta, então, trabalhando e pagando as minhas contas deixei crescer a ideia de que não era só uma questão de aparência não contar tanto: de repente me dei conta de que por ser mulher eu tinha uma vantagem imensa. Como disse o Djavan, é a questão de você decidir se dá ou não. E que pouco importava minha aparência: a maioria dos homens no mínimo vai ter curiosidade em sair com uma mulher pra quem sexo não é uma coisa complicada.

Quando morava em Limeira, apesar de me ver num grupo diferente das garotas que podiam ter namorados e serem felizes assim, eu já tinha uma imagem de futuro. Pensava que não precisava ficar fazendo planos de mochilar na Europa, porque um dia ia conhecer um cara lindo-maravilhoso, e viajaríamos pelo mundo, sem precisar de mochilão.

Apesar de saber que não fazia parte do grupo das meninas namoráveis, foi crescendo dentro de mim a percepção de que eu era capaz de conversar sobre muitos assuntos, mesmo que eu não tivesse conhecimento prévio, era capaz de fazer perguntas e inferências, e que as pessoas gostavam de conversar comigo.

Os meus relacionamentos, todas as minha ações: tudo tem uma base em comum. A ideia de que eu sou uma mulher com muitas qualidades, e que o tipo de homem que eu queria conhecer enxergaria isso, independente do meu rosto ou meu corpo. Arranjei uma lógica simples e satisfatória: não gostou de mim, não serve pra mim. Se o fato de eu não parecer uma figura de anúncio, de não ser rica, falante, engraçada ou social conta mais do que o fato de eu ser inteligente, sagaz, franca, intensa, relativamente culta, amoral, gostar de sexo, não ter frescuras, não ser consumista, saber viver com pouco, ter um olhar carinhoso pelas pessoas, me importar com bondade, justiça, responsabilidade… por que vou querer me envolver com alguém que não se interessa por quem eu sou de verdade?

Eu sei que tenho falado o quanto encontrar um grande amor e viver a vida toda com ele não precisa ser seu maior objetivo na vida. Mas reconheço que isso é uma panfletagem recente. Cresci sob ideais românticos, passei anos desejando alguém como o Cris. Encontrei. Não acho contraditório dizer que pretendo viver a vida toda com ele, ao mesmo tempo que defendo que esse não é o único jeito de ser feliz.

O que tenho panfletado, como feminista, é que precisamos muito divulgar a ideia de que se você não encontrou o grande amor não significa que você é fracassada ou que tem algo de errado com você. Essas sensações são construções culturais. É lindo viver um grande amor. Mas também há muita beleza e felicidade no caminho de ser livre, solteira, independente, aventureira, destemida, dona de si. Muitos homens vivem assim, muito bem, obrigado. São os valores culturais que fazem a mulher sofrer de formas diversas se não tem um companheiro fixo.

Repare: nunca falo sobre ser celibatária. Acredito que o contato com outras pessoas é algo fundamental pra viver feliz (juro. Sou misantropa, mas já expliquei como não é contraditório).

Precisamos nos contaminar com as ideias certas, e nos limpar das ideias erradas.

O principal verme de que precisamos nos livrar é a ideia de que não somos dignas de algo. Que não prestamos. Que não estamos à altura de algo. Que não somos boas o suficiente, ou bonitas o suficiente, ou inteligentes o suficiente, ou interessantes o suficiente, ou corajosas o suficiente. Ou que por ser homem não podemos chorar, não podemos mostrar fragilidade, fraqueza, dúvidas.

Vamos inocular em nós mesmos a ideia de que somos capazes, dignos, merecedores. De que somos seres humanos completos, tão belos com todas nossas imperfeições, angústias e sonhos. Vamos inocular em nós mesmos a ideia de que somos seres sociais, interligados, vivendo em sociedade com outros seres humanos, que nossas ações repercutem com amplitude nessa teia de relacionamentos que cobre o planeta inteiro. Que temos poder e responsabilidade em tornar o mundo um lugar melhor. Que precisamos escolher nossas lutas e agir.

Essas são apenas algumas sugestões de ideias para se plantar bem fundo e firme em nossas mentes. Você deve pensar qual é a ideia que você quer deixar crescer dentro de si.

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