Ideias pra não se sentir vítima: combine castigo pra reincidência

Eu e o Cris viajamos com frequência. Sou a aposentada da casa, então faço as malas. Às vezes o Cris ajuda a juntar algumas coisas, às vezes não.

Você faz ideia da quantidade de coisas pequenas ou grandes que você pode esquecer de pegar quando você sai pra uma viagem 2 ou 3 semanas de fotografia de natureza, com previsão de piqueniques?

Eu sempre esqueço alguma coisa. Já fiz até check list, mas imprevistos acontecem, especialmente com o equipamento do Cris. Em geral eu sempre peço “Cheque sua mochila”, porque não quero ouvir nenhuma reclamação, mas mesmo assim pode acontecer.

Na viagem pra Romênia, agora em julho, o Cris estava fazendo as malas comigo, e de repente chegou um pepino de trabalho, junto com a preocupação sobre o tamanho do porta-malas, o fato de sermos cinco pessoas, a decisão de que ele não ia levar o tripé e a Nikon, só a Fuji, pra trocar a Lowepro de guerra por uma mochila menor, e numa dessas eu troquei a mochila — mas deixei as baterias da Fuji na outra mochila. Todas. A gente só descobriu isso em Bucareste. Ele estava com uma câmera de 2 mil dólares e não tinha nada pra fazer com ela. Entreguei minha querida Canon S120 junto com muitos pedidos de desculpas. Mas ele não estava bravo. Falou que acontece. Que foi corrido. Que ele não pode ajudar a fazer as malas porque apareceu o problema do trabalho. Que no Workshop da Magnum o chinês tinha falado que você tem que se virar com o que você tem, que não pode ficar pensando que só fotografa com a câmera tal. E que ele era um fotógrafo de meia tigela por não ter checado pessoalmente o próprio equipamento. Na verdade ele até perguntou se eu tinha pegado as baterias, falei que sim, estava com a memória de ter colocado na mochila — mas na Lowepro, a troca pra mochila cinza foi daquelas quebras de rotina que zoa tudo.

Verdade verdadeira é que eu acho que tudo que é muito importante, você tem que checar pessoalmente, e eu tinha pedido pra ele checar a mochila dele porque sempre acontece alguma merda, grande ou pequena, mas eu nunca falaria isso pra ele nessa situação, e entenderia se ele tivesse ficado bravo comigo. Mas não ficou. Ele foi super legal.

No dia da volta, a mochila dele não passou no raio-x. A mulher colocou as luvas, passou aquele papelzinho que é o teste pra ver se tem indício de pólvora ou explosivos, abriu o zíper, e descobriu que tinha bipado por causa de um canivete suíço.

O Cris me olhou com raiva, revirou os olhos e falou “como é que você deixa o canivete aí? Eu até tinha pensado em te perguntar se você tinha checado as mochilas pra ver se tinha algo não permitido, mas esqueci de te falar. É você que faz as malas, eu não posso ficar conferindo todo o trabalho que você faz”.

Ah, como eu fiquei brava. Não era só pelo momento arrogante e cretino dele, é porque essa é uma discussão antiga. Faz anos que sou eu que faço as malas. É verdade que eu sou a aposentada, mas raramente o Cris está numa fase que não tem tempo pra nada. Ele tem tempo pra ajudar com as malas, mas como eu passo mais tempo em casa eu faço, sem sentir que é injusto. Só acho injusto quando ele ele assume a pose de patrão. A primeira vez que ele veio com esse papo de “não posso ficar conferindo tudo que você faz”, mandei ele tomar no cu e disse que não ia mais fazer as malas dele, que da próxima vez ele que cuidasse das coisas dele. Ele pediu desculpas e falou que queria que eu continuasse cuidando das coisas, e que não falaria mais coisas babacas assim.

E no geral ele não fala. Tanto que na história das baterias, não me xingou, foi todo compreensivo. Mas no último dia de viagem, cansaço, irritações diversas, você está de guarda baixa e o lado negro aparece com mais facilidade.

Eu sei de tudo isso.

Mas não é motivo pra engolir sapo.

Falei do quanto estava brava, que eu não sabia daquele canivete, que a gente tinha passado a viagem procurando ele, que mesmo que ele tivesse falado pra eu checar as mochilas eu teria passado a mão e não achado (a gente já tinha procurado nas mochilas, estava muito fundo num bolso), que a mochila era dele, que eu não lembrava de ter colado o canivete ali e talvez tenha sido ele que colocou, que eu tive que arrumar sozinha a mala todas as vezes que a gente fez check out nos diversos hotéis que a gente passou porque ele sempre ficava dormindo até mais tarde, que da próxima vez ele que arrume as coisas e a mala dele que eu não ia fazer mais nada.

Ele já tinha se acalmado. Se desculpou. Falou que era só um canivete. (Era um super canivete, desses que tem até tesourinha). Que estava errado em brigar comigo. Que não queria que eu parasse de arrumar as malas. Que não ia mais falar assim comigo.

Bom, ele tinha se acalmado mas eu não, porque ele sempre se desculpa e sempre fala que não vai mais falar isso, mas de vez em quando fala.

“Não está tudo bem. Eu ainda estou brava. De vez em quando você vem com esse papo cretino de ‘não posso checar tudo que você faz’. Eu estou com raiva. Tenho que pensar em alguma coisa… talvez… eu já sei. Eu vou comprar um arquinho com orelhas de coelho, e da próxima vez que você bancar o babaca comigo, eu tiro o arquinho da mochila e você vai ter que andar com ele durante um tempo, até eu falar que minha raiva passou”.

“Não, isso seria muito ridículo!”.

“Claro que seria bem ridículo. Mas é simples de evitar: não fale mais comigo desse jeito”.

Nesse momento já estávamos rindo da ideia dele andando com o arquinho, e não sei se vou mesmo providenciar, mas a mera ideia de poder revidar a injustiça, de ter algum poder em minhas mãos, já me acalmou.

Não deixe ninguém te maltratar, falar coisas cretinas ou babacas pra você. Reclame sempre, resolva sempre, e se a pessoa não consegue parar, pense em algum castigo ou penalidade. Mas não engula quieta. Sofrer em silêncio é veneno lento nas veias.