Gaturamo-rei, gaturamo-rei, óh gaturamo-rei…

Junho de 2011, uma estradinha de terra em Campos do Jordão. Minha primeira viagem como aposentada. No início do ano eu havia juntado pensamentos diversos, mais o fato de que o Cris já tinha me oferecido fazia tempo a oportunidade de parar de trabalhar, mais à constatação de que eu tinha acordado cedo numa quarta-feira de cinzas só pra responder e-mails de trabalho e que eu realmente não precisava disso, juntei tudo ao fato de que meu pai teria que fazer uma cirurgia cardíaca (ele se recuperou 100%, mas pra mim foi como aqueles sinais do quanto a vida é breve), e decidi pedir demissão. Foram 4 meses pra gastar meu banco de horas e fazer a transição, e no início de junho quando me despedi da consultoria pensei “sou aposentada, posso fazer o que eu quiser, acho que vou pra Campos hoje”.

Fui sozinha, passarinhei sozinha. Na estrada do Gato Gordo mirei em algo ao longe sem saber o que era. Quando ampliei o zoom no visor meu coração quase parou de bater porque meio escondido atrás de um galho havia o azul inconfundível do topo da cabeça da fêmea do gaturamo-rei.

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O gaturamo-rei não é uma ave rara, mas é linda, e até então eu só havia visto uma vez: um passeio em Monte Alegre do Sul – MG, meu guia e amigo, Geiser Trivelato, sabia onde havia um ninho desse bichinho, e ficamos umas duas horas sentados em frente (um pouco afastados, para não incomodar a ave), para ter a oportunidade de vê-la ir e voltar do ninho umas 3 vezes.

Em junho de 2011, em Campos do Jordão, nesse dia e no dia seguinte passei horas com uma família de gaturamos-rei. O casal e uma filhotona grande. Uma área íngreme com alguns pinheiros-bravos e umas frutinhas cor-de-rosa, talvez erva-de passarinho. Não era fácil usar o tripé por causa da inclinação do terreno, eu estava muito cansada porque as aves ficavam no alto, eu tinha que segurar a câmera na mão apontando pra cima e meus 2kg de equipamento já pareciam 4kg, às vezes eu perdia os bichos de vista mas então o macho começava a cantar uma melodia linda, e era fácil ver onde eles estavam.

Houve um momento em que ele desceu e ficou a menos de 3 metros de mim, na altura do olho. E falou comigo.

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Quero dizer, na hora não pensei em nada, só fiquei olhando pra ele, num primeiro momento não conseguia nem enquadrá-lo. Depois fiquei pensando nesse momento e inventei o diálogo.

O gaturamo-rei me olhou com essa cara fofa, esses olhos tão simpáticos, esse padrão de cores que é como se fossem crianças usando capacetes, e me falou de forma gentil:

“Claudia. Você diz que gosta tanto da gente. O que você pode fazer pra nos ajudar a viver?”

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O que eu posso fazer para que criaturinhas como essa possam viver? Pra que elas não morram porque o lar delas deixou de existir, porque não há mais alimento ou abrigo ou onde construir ninhos? O que eu posso fazer pelo gaturamo-rei, e pelos outros como ele?

Um mês depois eu já tinha delineado os planos pro Virtude-ag.com. Mas ainda não sabia bem como executá-lo. Passarinhei bastante, foi um período que fui pra Canastra, pro Tocantins e pra Amazônia. No fim do ano comecei a estudar WordPress, e no primeiro semestre de 2012 lancei o Virtude-ag.com, um site para a divulgação do birdwatching, um projeto que consome dezenas de horas do meu mês, no início era algo como 10h, 12h por dia todos os dias. Mas é um pedaço da minha resposta ao gaturamo-rei.

Como alguns sabem, neste ano me envolvi no grande imbróglio de participar das negociações com a Fundação Florestal pelo fim das proibições à fotografia de natureza nos parques estaduais de São Paulo, que a meu ver é fundamental para a mudança na gestão dos parques públicos. Uma passo importante para que os parques passem a assumir uma postura voltada ao uso público, a única forma de salvar a natureza brasileira.

Mais algumas centenas de horas em que não posso desenhar, nem cuidar de projetos pessoais, nem passarinhar nem passear. Vários dias em que como mal, durmo pouco, falto da academia. Porque preciso responder, defender, divulgar, convencer, apaziguar, informar.

E tudo isso poderia não ter dado em nada, mas acho que vai dar.

Gaturamo-rei, acho que vai dar.

Eu sei que é só mais um passo numa estrada longa, mas é um passo importante, tanto pelo o que é, como pelo fato de que vai mudar as coisas em Campos do Jordão, o local do nosso encontro, uma cidade em que só podemos passarinhar em beiras de estrada ou áreas urbanas ou particulares, porque o parque estadual, que ocupa 70% da área da cidade, é esse pesadelo onde as pessoas são proibidas de fotografar e até ameaçadas de prisão porque estão fotografando natureza. Mas vai mudar, gaturamo-rei.

Eu sei que ainda não foi publicado e que posso quebrar a cara, mas não consigo conter a expectativa, essa alegria crescente de que daqui a poucos dias vai sair um papel pra garantir que as pessoas não podem mais ser proibidas de fotografar natureza. E que será o início de várias outras mudanças, que vão aumentar muito a chance de sobrevivência de vocês e de todos os outros.

Ah, gaturamo-rei, gaturamo-rei. Gaturamo-rei.

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Depois soube de outras histórias de pessoas que têm suas vidas marcadas pelo encontro com o maravilhoso. Uma artista plástica que se apaixonou perdidamente por uma jandaia-amarela (http://virtude-ag.com/produtos-doudoustudio-dez12/), um fotógrafo de eventos que, num passeio de caiaque, topou com uma grande tartaruga-marinha, eles se encararam durante alguns segundos, de repente abriu um daqueles raios de sol que deixa tudo dourado e mágico, e isso o marcou a ponto de influenciá-lo a mudar de profissão, lutar pela natureza. E com certeza há várias outras histórias. O mágico e maravilhoso, pra quem se permite se conectar com a natureza.

Fotos desse meu encontro místico com o gaturamo-rei. No primeiro dia estava nublado e eles foram embora logo. No segundo dia cheguei cedo, eles só apareceram depois das 9h30 mas ficaram até umas 11h.