Foda-se a gramática

Numa discussão num fórum ou em caixas de comentários, quem apelar pro “mas ele nem sabe escrever” leva 10 chibatadas mentais imediatas.

É das coisas mais idiotas que existem cobrar escrita perfeita, ou mesmo razoável, do cidadão comum. Precisamos cobrar correção e a busca pela perfeição no caso de:

– professores

– porta-vozes, representantes oficiais de uma empresa ou uma organização que precisa de uma imagem straight

– materiais oficiais feitos pelo governo (placas, cartazes, livros)

– comprou um livro e veio cheio de erros? Escreva pra Editora, reclame. A menos que seja de um dos autores marginais, as pessoas que não tiveram educação formal, mas têm começado a publicar. Ainda não li livros assim (na verdade, leio muito pouco hoje em dia), mas se o tema interessa, seria uma burrice desprezar as palavras de quem pode dar depoimentos tão diretos, só porque a pessoa não teve oportunidade de aprender a norma culta da língua.

Numa discussão com outras pessoas apelar pra questão da correção gramatical é dar uma grande mostra de que você é um cabeça de bagre desprezível.

Este post está cheio de xingamentos pra ficar claro como é algo totalmente imbecil tentar desqualificar alguém porque a pessoa não domina a norma culta. Se você não é capaz de entender a mensagem só porque tem prástico, ou espreçivo, hamor, mesantropia, mindigo, axei, a pessoa com problemas é você, não o outro. Porque você está sendo um esnobe filho da puta filhinho de papai, ignorando a realidade do sistema escolar público no Brasil, e até mesmo de muitas escolas privadas. Além dos problemas da estrutura familiar para apoiar o aprendizado.

Teve oportunidade de estudar numa boa escola? Cresceu num lar com vários livros? Teve amigos e parentes que também se interessavam por literatura? Teve professores inspiradores? Parabéns. Você é uma minoria. Mas você não merece nenhum prêmio por isso. Assim como uma pessoa que não domina a norma culta não merece um “a” de cretinos que não sabem o que é escola ruim, ter que trabalhar e estudar, não ter ninguém que ajude.

É improvável que uma pessoa que estudou numa escola ruim domine a norma culta. Mas escola boa ou ruim não é o que define inteligência x burrice, sagacidade x tapadice. Tanto que sempre tem uma criatura, que provavelmente estudou em boas escolas, usando o argumento-asno de tentar desqualificar seu opositor porque a pessoa cometeu erros gramaticais.

Vai pra vida pública das caixas de comentários ou fóruns? Aja com honra. Debata as ideias, e foda-se a gramática.

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Só pra não causar algum mal entendido: eu sou editora, o Cris é economista com pique de editor. Temos momentos, especialmente quando estamos com o Daniel, em que podemos assassinar a gramática. “As elite branca” é uma expressão que entrou pra roda. Mas nós temos obrigação de ensinar o Daniel, que já fala bem certinho no geral, mas é corrigido se fala coisas como “aonde fica?” em vez de “onde fica?”, ou “Fazem 2 dias” em vez de “Faz 2 dias”, ou se pegamos um texto em que ele escreveu viajem quando o certo eram viagem.

Se a pessoa tem condições de aprender a norma culta, ela deveria aprender. E usar. Uma vez estava com uma professora universitária que falou um “da onde ele é?”, e era alguém próxima o suficiente pra eu falar “de onde. Não da onde”, e ela não gostou do meu comentário, disse que a língua é viva e dinâmica e que não devíamos nos prender a essas formalidades. Isso eu acho errado.