Evangélicos, árabes, japoneses, gays e todo o balaio

Os estereótipos existem. Seja porque uma grande parcela de um grupo é daquele jeito, ou porque se fez propaganda de uma forma que o mundo pense que a maior parte daquele grupo é assim. Por isso japoneses são CDF, nerds, honestos, tapados, confiáveis, sem ginga. Alemães são rigorosos, austeros, competentes, mão-de-vaca. Italianos são passionais, falantes, calorosos, cafonas. Gays são bichonas afetadas que cantam qualquer homem e estarão sempre tramando alguma maldade junto com alguma mulher víbora. E por aí vai.

Alguns estereótipos são mais pro inofensivo, principalmente se o grupo não é uma minoria. Por exemplo, duvido que os estereótipos relacionados com italianos e alemães faça mal pra eles. Já japoneses, apesar do Brasil ter a maior colônia de imigrantes, em muitos lugares somos uma minoria cultural, dessas que pode ser ridicularizada. A imagem de orientais retardados com chapéu de palha, dentes tortos, sem conseguir pronunciar o érre fez um grande mal. Um outro dia falo do bullying em Limeira, algo que meus colegas paulistanos ficaram surpresos em saber.

Muitos estereótipos ou valores que tentam associar a um grupo não têm nada de inofensivo ou aleatório. Eles prejudicam aquele grupo e, consequentemente, prejudicam o mundo inteiro, porque vamos alimentando o ódio e a intolerância.

Em geral os grupos não são homogêneos. Exceção a neo-nazistas, racistas e misóginos da pesada, esses eu realmente nivelo por baixo. Não importa o grau de crença ou participação da pessoa: se associar a um grupo desses já é o sinal de idiotice sem tamanho.

Mas de resto. Alguém pode realmente me explicar quem são os cristãos? Os muçulmanos? Os judeus? Os protestantes? Os espíritas? Os evangélicos? Os alemães? Os japoneses? Os italianos? Os nordestinos? Os negros? Os gays? As feministas? Os existencialistas? Os ateus? Os agnósticos? Os budistas?

Em todo o resto, fora do grupo execrável que propaga ódio, em todo o resto há uma enorme gama de variações de comportamento, crenças, atitudes. Em todo o resto, há pessoas excelentes e medíocres, pessoas admiráveis e pessoas odiosas.

Para todo o resto, sempre que falamos coisas pesadas ou meras críticas maldosas, estamos sendo injustos com uma multidão de pessoas que também têm aquele “rótulo”, mas não têm nenhuma semelhança com o que acabamos de declarar sobre eles.

Por isso não deixo ninguém me falar que árabes são violentos. Sempre faço questão de falar que são exceções, que a maioria são pessoas pacíficas, falo do meu cunhado e da família dele. Já tive que ouvir um papo racista contra negros dentro de um táxi – é uma situação mais delicada, só eu e ele no carro. Mas fiz questão de falar sobre o que se fala de mal de japoneses, e conforme ele foi dando exemplos, falei sobre a escravidão e como os negros no Brasil partiram de uma situação tão difícil. Desumana.

Outro dia descobri que não gosto nem de ouvir críticas maldosas a evangélicos. Aquela história do Boticário, que motivou eu mudar minha capa de Facebook, mas não a falar deles, porque era todo aquele jeito de golpe publicitário, e fora que a propaganda pode ter incentivado a conversa sobre homossexualismo, mas que é uma grande reafirmação de elites brancas, isso é. Me falaram “Talvez o Boticário esteja querendo mudar o perfil do público, ele não quer mais os evangélicos entre o público, quer tirar a classe C, focar mais na A e B, vai passar a lançar produtos mais caros”. Ok, pensei que fazia sentido. Mas quando contei essa observação pra outra pessoa, que me falou “foi isso que eu falei: ‘o Boticário não quer mais evangélico como cliente… ah, não, errei, evangélico só compra Avon’ “, isso me deixou chateada. Não me incomodou o pensamento que uma grande parcela de evangélicos faz parte da classe C, não vejo nada de pejorativo no comentário. Nunca estudei sobre isso, mas imagino que sim. Mas o “evangélico só compra Avon” me chateou. Senti um peso de elitismo de marca, que a marca que você compra define quem você é (pode me desprezar porque a maioria das minhas roupas é da C&A e da Renner, e as que eu compro pro Daniel também. O Cris precisa de roupas caras pro trabalho, mas não pra ficar em casa ou andar na praia), e senti o peso do elemento tapado-definidor na forma de “todo evangélico só compra Avon”. Se você é evangélico, você só pode comprar Avon.

Eu não tenho nenhum amigo evangélico. E combato e critico as coisas que a bancada evangélica tem feito, principalmente na luta contra a legalização do aborto, e as tentativas de enfiar na política um conceito de família monogâmica, hetero, com obrigatoriedade de ter filhos, como a única forma de ter vários direitos garantidos. Mas não gostei de ouvir uma generalização sobre evangélicos. E tenho certeza de que há muitos evangélicos bons e altruístas, que talvez nem concordem com a ideia de que é preciso se impor sobre todos os outro.

Acredito que a posição de combater um grupo (tirando o pessoal dos discursos de ódio) é errada. Acho que eu nunca participaria de uma marcha contra evangélicos. Defendo o direito de abortar, critico os discursos que reprimem liberdade sexual. Mas como eu poderia dizer que sou contra os evangélicos? Quem sou eu pra definir exatamente quem são os evangélicos. Ou os muçulmanos. Ou os cristãos. Ou os japoneses. Ou os nordestinos. Ou os…