Eu

claudia.komesu@gmail.com

Somos a história que construímos pra nós mesmos. Sem precisar de nenhuma mentira: é tudo uma questão do enquadramento e da luz.

Seria como a vida das pessoas nas redes sociais? A projeção de uma vida que só tem festas, viagens, compras, encontros com os amigos?

Não, é algo que vai além da edição do que você quer mostrar, estou falando do dia a dia, de cada minuto, dos seus pensamentos e ações inclusive quando ninguém está olhando. Quero que você seja feliz de verdade ou, se a felicidade não é a sua meta, que você consiga viver seguindo suas escolhas, vivendo a vida que você quer viver, e não como um fantoche ou um barco à deriva.

Saiba quem você é, seja a pessoa que mais entende de você, aprenda a gostar de você e se tem coisas que te impedem de gostar de si, mude isso. Saiba quais são seus valores e seja fiel a eles. Seja sempre franco, honesto e justo com você e com as pessoas que você escolheu como aquelas com quem você quer compartilhar sua vida.

Sou uma editora que não precisa mais trabalhar. Moro em São Paulo. Casada há mais de 10 anos. Sempre tenho dúvidas se sou birdwatcher mesmo ou não, mas tenho certeza da minha paixão pelas aves e que os passeios e férias para curtir e fotografar natureza fazem parte da minha sanidade.

Sou misantropa. E como a maioria dos misantropos, vivi muitos anos achando que tinha algo errado comigo. Que eu era errada por não gostar das festas, por não me divertir com as conversas de salão, por não ser extrovertida e alegre como meus colegas. Sonhava com a lobotomia* que me faria parar de estar sempre pensando, vendo e entendendo as pessoas mais do que elas mesmas, cansada de ver as mentiras que elas contavam pra elas mesmas.

Sei o que é querer morrer. Sem drama, angústia ou desespero, só os pensamentos honestos e práticos sobre pular de um lugar alto.

Faz muitos anos que não penso mais em morrer. E também faz bastante tempo que parei de pensar que eu sou a errada no mundo, mas não foi um processo suave.

Talvez um dos nossos grandes problemas é que pessoas como nós são discretas e low profile. Você sabe o que as pessoas normais estão fazendo, tem uma ideia razoável do que é ter uma rotina de festas, encontros, badalação – porque elas divulgam isso, falam sobre isso.

Mas e nóis? É coisa de gente louca achar que uma tarde, ou várias tardes, ou fins de semana ou semanas que você passa lendo, escrevendo, desenhando, pesquisando são dias ótimos? Ir a uma festa ou qualquer evento social e sentir desperdiçando seu tempo, cada vez mais infeliz em ter que ouvir repetições e comentários sobre notícias de portal, ou as pessoas falando mal do chefe ou de colegas ou de doenças ou de perrengues quaisquer, isso é coisa de gente que precisa de tratamento pra aprender a socializar?

Fora o grande erro de achar que misantropos são antissociais. Não somos. Adoramos conversar com franqueza sobre assuntos que nos interessam, que tenham um quinhão de algo importante e pessoal, e que realmente seja uma conversa, em que tem um ouvindo e um falando, e não apenas várias pessoas ávidas por falar e que nem estão prestando atenção no que o outro diz.

Acho que todo misantropo já se sentiu errado no mundo, uma vez ou outra, ou muitas vezes. E raramente tem alguém pra dizer que tudo bem ser assim, em geral as pessoas vão te dizer que podem te ajudar a ser mais falante e mais extrovertido.

Acredite em mim: tudo bem ser quieto. Tudo bem não saber contar piadas. Tudo bem não sentir ansiedade pra falar algo que possa ser uma novidade pras pessoas do grupo, ou então alguma história escatológica ou de putaria e assim poder firmar sua imagem de gente cool. Não existe só um jeito certo de ser.

Você pode ser misantropo, ou apenas alguém tímido, você pode ser quem você quiser. Mas nunca deixe de lado a ideia de que você deve sempre pensar sobre você e sua vida, que você deve mudar o que você não gosta em você, e que você deve cultivar honestidade, franqueza e coragem.

*a lobotomia não era uma ideia totalmente descabida. Vocês já viram os estudos que dizem que as percepções de introvertidos (um conceito relacionado com misantropia) percorrem um caminho muito mais longo dentro do cérebro? Ou que num escaneamento de atividade cerebral, quando os extrovertidos veem fotos de pessoas aumenta a atividade cerebral, mas que pra introvertidos é a mesma coisa olhar pra foto de pessoas, de flores ou de carros? Tem um resumo sobre essas pesquisas aqui:

Misantropos têm uma nova palavra para se identificar: introvertido, mas não no sentido de ser tímido. Leia que você vai gostar.

Quase todas as fotos foram feitas pelo Cris