“Eu vejo você”

Um filme que apareceu umas semanas atrás no Netflix, Beyond the Lights, ou Nos Bastidores da Fama.Tinha 4,5 estrelinhas, decidi ver. Nada incrível no roteiro, mas é um filme bom, com bons personagens, boas interpretações, referências a Nina Simone (conectar-se aos grandes sempre agrega valor), e uma cena memorável.

A protagonista do filme é uma jovem cantora em ascensão. Vemos ela criança, numa apresentação musical cantando Black Bird e recebendo um segundo lugar que só a corrupção do júri explica, e depois ela como uma jovem mulher, totalmente transformada, cantando e dançando aqueles raps com letras e coreografias de putaria.

No dia que ela ganha um prêmio de música, ela faz o que muita gente faria: se joga da varanda do quarto do hotel. Mas o policial responsável pela vigilância do quarto entra a tempo de agarrá-la, segurando-a só por uma mão. Ele não tem força para erguê-la só comum braço, ela precisa estender a outra mão e segurar no outro braço dele. Mas ela não quer, está com aquela cara de quem desistiu. A mão escorregando, ele quase não consegue mais segurá-la, então vem a inspiração, ele fala pra ela

“Eu vejo você. Eu vejo você”.

E isso faz ela olhar pra ele com aquele ar de surpresa, descrença, mas também de maravilhamento. Ela decide estender a outra mão, segurar no braço dele e ser salva.

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Uma variante dessa situação, um filme que não sei o nome, desses que você assiste pedaços no avião. Um gringo cuidando de um call center na Índia. Uma das funcionárias é uma moça muito bonita, eles acabam tendo um caso. Depois ela conta que o momento que se apaixonou por ele foi porque ele falou: “se eu acho que a [esqueci o nome dela, digamos que fosse Ananda] Ananda vai dar conta deste desafio? Eu acho que a Ananda pode fazer qualquer coisa”, e ela explica como é ser uma menina na Índia, ouvindo o tempo inteiro sobre as coisas que as meninas não podem fazer, e que foi a primeira vez que alguém falou que acreditava que ela era capaz de fazer qualquer coisa.

O Cris dizia que precisava do meu olhar pra saber quem ele era. E eu precisava dele porque era o homem que não tinha medo nem achava errado eu ser uma mulher com uma tempestade por dentro.

Minha amizade com meu melhor amigo começou num dia em que tínhamos ido até o Colméia buscar nossas carteirinhas de ônibus. Contemplando os verdes campos da USP, esperávamos a chuva passar, e ele me falou “eu não sei o que falar com você. Com outras pessoas eu posso falar sobre livros, filmes, mas com você parece que o certo é falar sobre a cor do céu, o formato das nuvens”. Já andávamos juntos, já éramos mais do que colegas, mas foi esse o momento que me marcou, que me deixou encantada por de repente encontrar alguém que podia saber tanto sobre mim.

 

Eu vejo você. Eu sei quem você é.

Nesse mundo em que a gente vive tão sozinhos, qual o poder de uma frase como essa? O que acontece quando você encontra alguém que lhe diz que é capaz de te ver, e você acredita que é verdade, que essa pessoa realmente consegue te enxergar?

Geralmente resulta em paixões avassaladoras, casamentos duradouros, ou amizades pra vida toda.