Eu gosto do cafona

Umas duas semanas atrás virei gente e criei uma conta pra mim no Rdio. O Cris já tinha uma conta que a gente usava, mas sabem como nunca é a mesma coisa você ter a sua conta, com as suas listas, suas escolhas.

(Se você não conhece: serviços como o rdio.com permitem você ouvir música por streaming, fazer playlists, baixar as músicas pro celular. Agora há vários. Custam em média uns R$ 15 por mês. O Rdio permite ter um plano familiar pra até 4 pessoas, que pagam mais R$ 7,50 pra ter os mesmos direitos do titular. Dizem que o Spotify cobre melhor lançamentos, mas começamos com o rdio e até agora foram pouquíssimas as músicas que procurei e não achei. Pra saber mais: http://www.androidpit.com.br/spotify-deezer-rdio-melhor-servico-streaming).

Tenho um Ipod velho, de 2007, a primeira vez que vi nem sabia o que era. O Cris estava me mostrando as coisas que trouxe da Coréia e falou “isso é seu”, e eu tive que perguntar o que era. Passei anos com os mesmos 4GB de músicas da época em que a gente emprestava CDs e criava bibliotecas no Itunes. Nina Simone, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Aretha Franklin, Chico Buarque, Elis Regina, Tom Jobim, Adoniran Barbosa, Cássia Eller, Cindy Lauper, Suzana Veiga, Diana Krall, Jane Monheit, Tom Waits, Nick Cave, Smiths, The Cure, algumas coisas de jazz, Bach, trilhas sonoras. E também um punhado de som de aves, o que deixa o shuffle engraçado.

Como vocês sabem, não acompanho atualidades e não tenho nenhum problema em curtir velharias ou coisas fora de moda.

Criei vida própria no rdio e comecei a fazer novas listas, a partir de coisas como post da Rolling Stones sobre as 500 melhores músicas. Por enquanto já são 17 playlists, com títulos do tipo “Dias de chuva e sol”, “Playlist da depressão”, “Churrasco”, “Longas edições”, “Milk Shake”. Nada depuradas, só estou jogando as músicas, algumas ainda nem ouvi a lista inteira. Elas são secretas, mas talvez antes de viajar eu as torne públicas.

Vendo a lista de músicas, descobri que não é só uma questão de não me preocupar com o que é cool e antenado: eu gosto de um monte de músicas cafonas. Até criei uma lista chamada “Cafonas queridas”, mas a verdade é que há um monte de músicas cafonas espalhadas nas outras listas.

Eu e o Cris estávamos tentando separar o brega do cafona. No geral parece que é assim: o brega não tem pretensões, ele nasce com o elemento do auto-deboche. Já o cafona achava que ia chegar lá, em determinado patamar cultural respeitável. Não chegou. Patinou no estreito caminho da elegância, geralmente por fazer concessões ao sucesso.

Das coisas que tornam uma música cafona: tem a parcela de letras ridículas, ou letras apelativas feitas pra você chorar. Mas acho que o que mais pesa na cafonice é a apelação emocional. Ela tem uma batida e um tom de voz feitos exatamente pra você cantar no chuveiro, ou de braços erguidos e olhos fechados, batendo palmas, ou fazendo uma onda com os braços. Muitas vezes a música tem um coro de “ôh ôh”, “hey hey”, “baby” ou algo assim, e refrões totalmente chiclete.

“Vai se foder”, você pode me dizer. Esse critério acaba com uma tonelada de músicas queridas.

Mas é exatamente aí que eu queria chegar. Não estou querendo livrar minha cara só porque eu gosto de um monte de músicas cafonas. O que eu queria é te falar que tudo bem gostar de músicas cafonas, tudo bem se render às armadilhas musicais.

Os motivos de se gostar de uma música podem ser quase tão variados quanto os que fazem a gente gostar de um filme ou de um livro. Ou de uma pessoa. Podemos gostar de coisas ruins por motivos específicos.

Acredito que o que nos faz gostar ou não de uma música não são motivos racionais. Ou melhor, que não deveríamos tentar buscar racionalidade, e sim apenas ouvir e decidir o que é que nos liga, nos anima, nos toca, nos impressiona. Como em tantas coisas na vida, foda-se a elegância, o bom gosto ou a opinião dos outros: deveríamos ouvir as músicas que nos lembram como a vida é boa, como há pessoas legais, que o mundo é amplo, que o futuro é brilhante. Ou então as que nos deixam muito tristes, se é o momento de querer se sentir bem triste. Ou as que nos tornam muito introspectivos, deixando crescer a tempestade por dentro, como algumas músicas eruditas conseguem.

Tudo bem cair em armadilhas emocionais dos produtos culturais. Tudo bem chorar em filmes feitos pra chorar, cantar de braços abertos letras de músicas criadas especialmente pra isso: pra nos ajudar a nos reconectar com momentos de felicidade grande e preocupação zero.

Escrevo este post selecionando músicas do Glee, que é um dos bons destilados da cafonice norte-americana. Recheado de músicas feitas especialmente pra se cantar sorrindo, balançando braços e a cabeça, ou marcando o ritmo com os pés ou os nós dos dedos.

 

Começou porque eu tinha selecionado esta música:

E isto aqui vai entrar pra minha lista do que assistir quando eu quiser sair de alguma deprê:

E esta é outra das cafonas queridas:

 

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