Eu e o Jonathan Franzen sabemos como ficar sozinhos

(post de 2013, de um antigo blog)

Já falei disso em outros posts: sou uma pessoa ignorante, inculta, e bastante alheia a novidades e notícias. No que dependesse de mim, eu nunca ficaria sabendo que Jonathan Franzen é um escritor badalado, odiado, e birdwatcher. Mas tenho amigos normais, e as pessoas me contam coisas, por isso soube que ele veio pra Flip, li o post da Ruiva no Rio, soube como ele foi chato e decepcionante, e que o melhor momento foi quando a entrevistadora puxou o assunto sobre aves, quando ele falou com entusiasmo.

Bom, me vi na pele do Franzen. Quero dizer, eu me considero uma pessoa chata e decepcionante se não há um assunto que me anime. Dizer que alguém é esquisito, arrogante, calado só torna a pessoa mais interessante aos meus olhos.

 

Na semana passada topei com esse livro “Como ficar sozinho – Jonathan Franzen”, e imagine se não me chamou a atenção. Não que eu precise de ajuda pra saber como ficar sozinha, tenho me virado bem nesse quesito, obrigada, mas claro que me interessaria a visão de outros solitários inveterados como eu.

Estou lendo e gostando. Vejam:

“… É uma longa história, mas, basicamente apaixonei-me pelos pássaros (sic. Deveria ser ‘apaixonei-me pelas aves’). Isso não ocorreu sem uma resistência considerável, pois não há nada menos cool do que ser observador de pássaros, e qualquer indício que revela uma paixão verdadeira não é, por definição, cool. Mas, aos poucos, mesmo relutando, fomentei essa paixão e, se metade da paixão é obsessão, a outra metade é amor.

(…)

meu amor pelos pássaros se tornou um portal para uma parte importante e menos autocentrada em mim, que eu nem sabia existir. Em vez de continuar viajando por aí como cidadão do mundo, curtindo algumas coisas, descurtindo outras e guardando envolvimentos para o futuro, fui obrigado a confrontar uma parte de mim que eu tinha de aceitar na íntegra ou rejeitar absolutamente. É isso que o amor faz com uma pessoa.

(…)

Quando ficamos trancados em nossos quartos, bufando, caçoando ou nos sentido indiferentes, como fiz durante tantos anos, o mundo e seus problemas parecem desafios impossíveis. Mas quando saímos às ruas e temos relacionamentos reais com seres reais, ou mesmo animais reais, há o perigo bastante real de amarmos alguns deles. E quem saberá dizer que rumo a vida tomará?” [2011]

E este trecho aqui também é bom:

“Não há uma razão simples e universal que explique por que as pessoas fumam, mas de uma coisa eu tenho certeza: elas não fumam porque são escravas da nicotina. Meu palpite a respeito da minha própria atração pelo cigarro é que pertenço àquela classe de pessoas cujas vidas são insuficientemente estruturadas (…) Adotamos uma toxina tão letal (…) porque ainda não encontramos prazeres ou rotinas que possam substituir a reconfortante sequência de necessidade e gratificação, que proporciona um sentimento de estrutura, e que só o cigarro pode oferecer.” [1996]

Talvez o birdwatching tenha ajudado ele a parar de fumar, ainda que eu conheça birdwatchers fumantes, capazes de fumar e segurar a câmera ao mesmo tempo.

Franzen também escreve sobre a babaquice do “curtir”, a sensação de errado no caso da Monica Lewinsky (ser errado alardear tanto o fato de políticos fazerem sexo), o incômodo com o fato das pessoas não se importarem em falar no celular em lugares públicos, invadindo o público com sua privacidade, a visão das pessoas nas ruas como zumbis olhando pros seus celulares e teclando o tempo todo. Um artigo que foi publicado pelo menos em parte pelo… Estadão, acho, falando sobre a relação com o pai. Um outro artigo sobre sua visita à China, descrições dos passeios de birdwatching na China.

É isso que o torna chato?

Se for isso, ele será um dos meus chatos favoritos. Alguém que não precisa fazer pose de cool, que não tem medo de criticar hábitos que as outras pessoas parecem aceitar como fatos, ou de gastar páginas falando sobre aves e seu amor pelas aves. Algo que li dele, talvez esse no Estadão, ele conta como tinha vergonha de levantar o binóculo quando saía pra passarinhar nas ruas de Nova York.

Honestidade, entrega, franqueza, humildade, carinho pelo mundo. É o que espero das pessoas, especialmente as inteligentes.

Leio esse livro do Franzen não com tietagem, não fico pensando que preciso saber tudo sobre ele, ler tudo que ele escreveu. Mas agora ele entra na galeria de pessoas que valem a pena, só por ter um livro em que fala do seu amor pelas aves e mostrar uma persona de alguém que não precisa impressionar ninguém.

 

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