Estou chorando com as suas músicas

Entre os vários temas em que eu sou lorpa, música é uma delas. Não só não tenho a menor noção de ritmo ou afinação, como a minha voz é horrível. É horrível ouvir minha voz gravada, reclamar,  e as pessoas me falarem que minha voz é assim mesmo. Meu BFF diz que tenho voz de dubladora, fala isso como elogio. Eu acho infantilizada, contida, aguda.

Se eu levasse o assunto um pouco mais a sério, deveria ver se uma fono me ajudaria a ter uma voz de mais respeito.

Eu sou uma lorpa nas minhas aptidões musicais. Mas sempre acho que sou capaz de reconhecer a beleza em qualquer lugar, e suas músicas me deixaram com os olhos molhados.

É verdade que eu sou uma chorona manteiga derretida, capaz de derrubar umas lágrimas só de ver um casal em rodoviária se abraçando apertado antes do ônibus partir, ou ver um moço com um ramalhete de flores ansioso esperando um ônibus chegar.  Choro fácil.

Mas queria te falar que sua voz é bonita. Não importa cantar fora do tempo, ter sotaque brasileiro, desafinar, ser karaokê,  nada disso importa. Duas referências literárias:

  • a ideia de como você é jovem, é a voz de alguém muito jovem, e me fez pensar no final de A Seguinte História, do Cees Nooteboom, um dos meus escritores favoritos. Acho que não posso falar mais sobre esse trecho pra não dar spoilers. É um dos meus livros favoritos.
  • me fez pensar nos Adem, o povo do Tempi, dos livros do Patrick Rothfuss, as crônicas do matador de rei. Um dos personagens faz parte de um povo que fala muito pouco, vivem numa terra árida onde não é possível plantar ou criar nada. Eles sobrevivem do trabalho deles como mercenários. Vivem com muito rigor treinando e treinando a arte do combate, depois vão para outras terras oferecerem seus serviços e uma grande parte do que ganham é enviado para essa terra árida. Eles falam bem pouco, e usam gestos de mãos para completar o sentido das palavras, algo que eu queria fazer também. E consideram cantar algo obsceno. O protagonista entende, uma hora, que esse é um povo pra quem a voz tem um grande valor, que falam o mínimo, e que eles cantam só entre família, pessoas muito íntimas. A ideia de cantar pra estranhos é obscena, e eu senti uma fração disso.

Foi muito estranho ouvir você cantar. Era como se eu não tivesse o direito de estar ouvindo aquilo. Gostei de ouvir sua voz e, pra responder sua pergunta, você tem uma boa pronúncia. É claro que tem sotaque brasileiro, mas isso não incomoda as pessoas. Dizem que os franceses são o único povo que tem frescura com isso, todos os outros reconhecem a boa vontade de você estar se esforçando pra falar uma língua que não é a sua.

As pessoas cantam na rua, no Youtube, meu irmão canta em videokê e compartilha músicas incrivelmente desafinadas no WhatsApp dos primos, sem nenhum pudor.

Mas as suas. Parecia que eu não tinha o direito de ouvir.

Grande viagem, eu sei.

Mas sabe como sou a favor de mundo menos de papelão, pessoas menos de papelão, e achei que tinha a obrigação de tentar expressar esse momento estranho que senti agora há pouco.

Já começou a traçar seu plano sobre como você vai ser um escritor de sucesso? Ou no mínimo retomou as histórias paradas?