Esteira hedonista, felicidade irreal

Muitos anos atrás, na minha vida de solteira universitária e pós-universitária morando numa república, eu pensava que o hedonismo era uma boa ideia, e que o prazer era algo pra ser arduamente professado e defendido.

Envelheci. Hoje tenho quase 40 anos (desde os 37 tenho falado que agora tenho quase 40), e me vi perguntando pro meu grupo de camaradas birdwatchers se podemos mesmo ser apenas hedonistas na nossa relação com a natureza.

Enquanto esperava minha consulta com a dermatologista, peguei uma Época de janeiro, a que fala sobre a valorização de experiências e não de objetos. E sobre a esteira hedonista. “Que coincidência”, e depois à noite, quando fui ler mais sobre a esteira hedonista, encontrei um vídeo muito bom de Slavoj Žižek e pensei “conheço esse nome”, dei uma busca nos meus e-mails, é o filósofo que o Wagner tinha indicado um artigo que meditava sobre os atentados do Charlie Hebdo.

É um vídeo curto, de menos de 4 minutos, e recomendo especialmente a segunda parte, a partir dos 2 minutos. Ver o Slavoj falar já é um espetáculo. O sotaque, as gesticulações com as mãos. E no vídeo há exemplos engraçados e imagens boas. Nessa segunda parte ele comenta um artigo numa revista de bordo, falando o quanto sexo é bom e deve ser praticado “mas falava sobre sexo de uma forma muito deprimente – faça sexo com frequência porque é bom pra circulação sanguínea, determinados tipos de beijo são bons pra exercitar os músculos faciais” – imagine só.

Ele diz que discorda da ideia de que vivemos numa era hedonista, porque tudo é regulado. Sexo? Só se for sexo seguro. Prazeres gastronômicos? Existem realmente prazeres gastronômicos totalmente desvinculados dos efeitos daquela substância no seu organismo, ou questões éticas ou ecológicas da produção daquele alimento?

Pra Slavoj as únicas pessoas verdadeiramente hedonistas são usuários de crack e fumantes. “há algo profundamente sintomático em nosso horror diante do fumante inveterado (Bom, o que nos incomoda é o seu prazer) como se víssemos alguém que tem uma paixão singular e se mostra pronto a arriscar tudo o que tem para buscar essa paixão. Se você me perguntar, acho isso bem legal”.

Discordei de algumas ideias de Slavoj no artigo sobre Charlie Hebdo. Mas aqui neste vídeo, concordei com muitas, e também me ajudou a pensar sobre o hedonismo.

Acho que nunca fui verdadeiramente hedonista, mas aos 20 e poucos anos estava mais próxima do hedonismo do que agora. E concordo com a ideia de que o hedonismo é o prazer, o puro prazer, e o prazer desprovido de qualquer preocupação.

Pensar que tudo é regulado, tudo tem consequências, não acho isso ruim. Principalmente porque tenho um marido com quem pretendo viver a vida toda, porque passei a valorizar mais minha família e os momentos com meus amigos, porque tenho um enteado que é como um filho, porque tenho um sobrinho. Porque agora penso no futuro.

Podemos ser hedonistas se só o que importa é o prazer daquele momento. Foda-se se faz mal pra saúde, se é ilegal, se vai magoar alguém querido, se faz mal pro mundo. Viver de forma hedonista é nunca ter que pensar nas suas responsabilidades e consequências do que você faz. “O que importa é ser feliz”, quantas vezes você já ouviu isso?

Pode me chamar de chata, careta, estraga-prazeres, tudo bem. Não serei hedonista, e viverei mais anos, com mais saúde, na companhia de pessoas queridas. Não serei hedonista e nunca vou magoar o amor da minha vida. Não serei hedonista e vou continuar defendendo a ideia de que birdwatcher deveria assumir sua responsabilidade com a natureza, que é errado só gozar, gozar, e nunca dar nada em troca. Não serei conciliadora de dizer “só de vocês visitarem um parque, já estão fazendo algo pela natureza” – pra um turista comum, talvez, mas não sei se vocês entendem que birdwatchers têm uma relação diferente, passam muito mais tempo na mata, evitam doenças físicas e mentais graças à mata, extraem incontáveis prazeres graças à mata. Mas muitos acham que é só aproveitar, e que não há nada para dar em troca. Mesmo sabendo que a mata definha e morre todos os dias.

Hoje me parece que ser hedonista é ser um filho-da-puta ingrato, que só se importa com o seu próprio prazer, e não pensa em nenhum momento em retribuir o que recebe, ou nas consequências e repercussões do que faz.

Não quero mais ser hedonista. Pode me chamar de véia-chata. Qualquer coisa menos hedonista.