Estamos todos pendurados sobre o abismo

Meu melhor amigo, muitos anos atrás, me falou que uma das coisas que mais o deixava triste é a beleza. “Por quê??”, “Porque eu sei que ela acaba, a beleza me faz pensar em morte” – talvez o diálogo não tenha sido exatamente esse, me mande um WhatsApp pra me corrigir se eu estiver com a lembrança errada.

Na época não fazia sentido, como tantas coisas que ele falava, mas hoje faz, hoje eu entendo.

Talvez seja algo como um véu. Há um véu que a gente tira da nossa frente, ou algo como um portal que a gente passa e nossa vida nunca mais é a mesma. Pra tantos assuntos e, nesse caso, é a consciência aguda da fragilidade da vida, da beleza. Beleza não num sentido fútil, de pele lisa, corpo tonificado, mas a beleza da flor, da luz de fim de tarde, da paz e tranquilidade numa cidade, do sorriso e abraço de uma mãe que teve câncer e a gente passa o tempo inteiro morrendo de medo do câncer voltar.

É aterrorizante, ….

Posso imaginar como é viver todos os dias no fio da navalha. Olhando pra sua mãe, sentindo os braços fininhos, e tendo que lutar contra essa consciência aguda da fragilidade da vida, do absurdo que alguém tão amado possa ser finito.

Pra lutar contra isso imagino que tem vários caminhos, mas aquele que te falei uns meses atrás é um dos possíveis. O samurai condiciona seu pensamento pra não ter essa grande dualidade entre vida e morte, pra não ter esse apego à vida, nem pra desejar a morte. Ele vai pra uma batalha só pensando que ele precisa lutar bem e com honra e bravura, mas sem ficar rezando pra voltar vivo, porque estar vivo ou morto tem o mesmo valor.

Adaptando um pouco esse pensamento, que reconheço ser bastante radical e assustador pra nossa cultura, o que eu tento pensar é que a gente tem que viver uma vida boa, sem arrependimentos ou anseios, sabendo que estamos vivendo bem todos os dias. Sabendo que se morrermos hoje, agora e, eventualmente, exista mesmo a alma, e de repente vemos nosso corpo morto, a gente desligado daquela dimensão, não venham tristezas do que não fizemos, de declarações de amor ou pedidos de perdão que não fizemos.

O amanhã? Ninguém sabe do amanhã, ninguém. O amanhã muda o tempo todo, é tolice tentar imaginar o amanhã ou sofrer pelo amanhã.

É muito difícil, e eu não sei se conseguiria. Mas como amiga que te ama, te sugiro que um dos caminhos possíveis é esse mesmo que você mencionou, a ideia de tentar viver um dia de cada vez. E tentar policiar seus pensamentos, todas as vezes em que bater o início de angústia, falar pra você mesma “não. Eu não sei como é o futuro, não tem por que ficar pensando nisso. A morte chega pra todo mundo, pode ser um infarte, um derrame, atravessando a rua em frente de casa, engasgado com um pedaço de pão, ninguém sabe. Não vou ficar pensando que minha mãe pode morrer, as chances dela viver ou morrer são como as de qualquer outra pessoa. Vou viver o agora, o hoje, aproveitar esses momentos com ela agora”

A morte existe pra todo mundo. Mesmo gente jovem, saudável, lindos, radiantes, pode acontecer. E pessoas idosas, doentes, hospitalizadas, podem viver por anos e anos.

Não sei o quanto estou te ajudando com esse papo, … Não tinha bem certeza do que poderia te falar, se isso ajuda ou não. Mas acho que o que eu queria te dizer é que talvez um jeito de vencer o terror da ideia que sua mãe pode morrer é se aproximar um tanto da ideia da morte, diminuir essa grande dualidade que a gente tem de opor vida x morte, e pensar na morte como algo natural, inevitável… não pra pensar que tudo bem se ela morrer, e sim pra saber que todos morremos, é o destino de todos, a certeza de todos, e só o que a gente pode fazer é viver o momento de hoje. Como a tal história do homem pendurado no abismo, segurando um galho que vai quebrar, tigres acima, o penhasco embaixo, e ele olha pro galho e vê uma flor linda. E consegue enxergar a beleza dessa flor.

A morte é pra todo mundo. Sei que você é capaz de ver a flor, e acho que em breve vai conseguir parar de pensar no abismo e nos tigres.

Torcendo muito pra que essas palavras possam te dar força, e não te deixar mais triste ou preocupada. Vou postar no meu blog este textinho, sem seu nome, porque de vez em quando compartilho essas correspondências, quando acho que elas podem ajudar outras pessoas.

Beijo muito grande, abraço bem apertado, conte comigo sempre.