Estamos realmente vivendo uma batalha pela Terra Média? – Parte 2 – qual a relação desse papinho com O Senhor dos Anéis?

No meu passeio em setembro com o Thiago Carneiro, ele me falou uma coisa que me deixou bem pensativa. “Acredito de verdade que somos raças diferentes. Não é possível que tenha gente que só pensa em destruir, enquanto tem gente que só quer preservar”.

E se for verdade?

Principalmente depois dos dias em Yosemite, vendo tudo funcionando com tranquilidade, segurança, organização, paz, em meio àquele cenário espetacular que me fez pensar em Valfenda, ficava lembrando do que o Thiago falou e cogitando a hipótese de que a obra de Tolkien é uma daquelas alegorias carregadas de verdades.

O tal mapa de como é o aborto no mundo, e que coincide em maior parte com a divisão entre país desenvolvido e país subdesenvolvido.

Nenhum país é 100% de uma raça ou de uma ideologia, mas há dominâncias. Nos desenvolvidos, os não-Orcs dominam. E em lugares como o Brasil, como todo mundo sabe, os Orcs comandam tanto abertamente quanto nos bastidores.

Nada é estático. As diversas raças vivem constantes lutas. Mesmo um lugar como os Estados Unidos, em que um grupo forte de não-Orcs conseguiu pregar valores de liberdades individuais, tolerância, respeito, há um risco pesado do Orc-Trump assumir a presidência, apoiado por milhões de eleitores que simpatizam com o discurso Orc.

No Brasil os Orcs dominam há mais de 500 anos e mantém seu império usando estratégias diversas, que obviamente não são exclusividade do Brasil:

Manutenção crônica da desigualdade social. Começou com a escravidão. Depois exploração da classe trabalhadora e manutenção de uma grande parcela da população em condições tão precárias que nem conseguem trabalhar. Ineficiência e corrupção nas estruturas sociais de atendimento à população, sabotagem do sistema de educação, violência, milícias. Alimentação de crenças religiosas que impedem as pessoas de escolher o momento de ter filhos – “camisinha é o instrumento do demônio”, “pílula é errado”, “sexo só depois do casamento”, “abortar é pecado”.

Quer ter uma ideia de como é grave? Em 2013, 555 mil bebês nasceram de mulheres que tinham entre 15 e 19 anos. 11,8% das adolescentes entre 15 e 19 anos têm pelo menos 1 filho.

Na lista de fecundidade precoce, entre 213 países o Brasil está na 49ª posição, acima de países como a Índia e o Paquistão, que permitem o casamento infantil. Subimos 14 posições em 20 anos, graças ao ótimo trabalho do discurso religioso católico e evangélico que prega coisas como “camisinha é o instrumento do demônio”, “siga métodos naturais, como a tabelinha, não tome pílula, não use DIU”, “sexo só depois do casamento”. Só que tantos adolescentes não conseguem cumprir isso, transam e engravidam. Mas não podem abortar, seja pela influência do discurso religioso, ou por receio de morrer nas mãos de um açougueiro. Quando a adolescente tem dinheiro, pode ir pra uma clínica particular e executar o procedimento em segurança, isso é a realidade no país. A proibição do aborto no Brasil só ferra a vida dos mais pobres.

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2015/08/18/internas_polbraeco,495139/gravidez-precoce-brasil-tem-indice-de-pais-que-permite-casamento-infa.shtml

Análise de dados de 2011: no geral 11,8% das meninas entre 15 e 19 anos têm pelo menos 1 filho, mas se você dividir por cor, ter “filhos entre 15 anos e 19 anos é mais comum entre as mulheres negras, que apresentaram taxa de 14,1%. Em relação às brancas, o percentual ficou em 8,8%”.

http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-10/numero-de-jovens-com-filho-cai-mas-permanece-maior

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/09/1812302-oito-em-cada-dez-bebes-com-danos-do-zica-nascem-de-maes-negras.shtml

https://drauziovarella.com.br/para-as-mulheres/desigualdade-social-e-gravidez-na-adolescencia/ “Para as mulheres mais ricas, a maternidade é, na maioria das vezes, uma escolha e não um destino do qual não se pode fugir. Por que aceitamos condenar as mais pobres a uma realidade que evitamos para nossas filhas?”

E imagino que você entende a gravidade de se ter filho com menos de 20 anos. Como isso dificulta imensamente estudos e trabalho, principalmente porque muitas dessas meninas serão mães solteiras, é comum o pai desaparecer.

Outras formas de dominação Orc: fazer as pessoas acreditarem que aparência padronizada conta tanto pra ser feliz. Que se você não for magra, sarado, descolado, dificilmente vai se dar bem na vida. Que é tão importante estar sempre curtindo e mostrando o quanto você está curtindo a vida. Estímulos constantes ao consumismo, a status. Tantos empurrões pra que as pessoas vivam um mundo de ilusão e frustração eterna, pra que elas permaneçam escravas de preocupações que as impedem de evoluir de verdade como ser humano.

É um tema comprido, que não tem como esgotar num post. E ficar lendo sobre gravidez precoce, e como é uma maldição jogada principalmente sobre meninas pobres e negras, e pensar no discurso religioso anti-planejamento familiar, anti-direito a aborto, gente que se diz defensora da vida e da família, nossa, que desgosto.