Envelhecendo

– Sair à noite na Vila Madalena pra ir pra academia, em vez do boteco.

– Sair rebolando do cardiologista só porque você passou nos exames de sangue, na esteira, está com pressão baixa.

– Ir pra uma festa em restaurante, depois chegar em casa e se sentir meio triste por ter comido tanto. “Que droga. Não devia ter comido tanto. Não devia ter comido sobremesa. Não devia ter comido tanto pão do couvert”.

– As frituras vão perdendo a graça. Sutilmente você percebe que ainda é capaz de comer frituras, ou até fazer frituras, mas que fica mais contente quando come coisas no vapor ou tostadas.

– Nada de guloseimas em casa. Nada de aprender a fazer doces e salgados. Daniel no máximo tem pão-de-queijo, pipoca ou gelatina no meio da tarde, mas só às vezes.

 

– O tempo com as pessoas amadas, fazendo as coisas mais rotineiras ou tolas vai se tornando o melhor tempo todo mundo. Não que você não faça outras coisas, você faz. Mas esse tempo de horas doces ganha cada vez mais valor, e você entende filmes como About Time.

 

Você briga menos, se importa menos, sua fúria passa mais rápido:

– Você é haidado, seu atacante está quase pra entrar no cofre e aí sofre a mão de Deus (como costuma acontecer contra os nossos inimigos): ele vai lançar o foguete que dará acesso à sala do cofre, mas o foguete se volta contra ele e o mata. Ele é obrigado a perguntar quais as coordenadas da nossa casa pra pegar o quetzal de volta, que nem era dele, era emprestado. Daniel é jovem, não quer falar. Cris é sábio e fala “qual o problema? Fala pra ele”. Você fala, ele volta, agradece, diz que nós somos muito legais e devolve os mil CPs que ele tinha roubado. Eu estava mais pro time do Daniel “ele vem nos haidar e a gente ainda vai ajudá-lo a recuperar o quetzal?”, mas não falei nada, e depois vi que o Cris estava certo. Devia extrair alguma coisa disso pra vida.

– Não é o fim do mundo se o Cris tem planos de workshop com o pessoal da Magnum ou coisas do tipo. “Não, não serve pra mim. Não, não tenho nível pra esse tipo de coisa. Não, meu projeto de fotografia de aves urbanas não tem como render alguma coisa, não é um projeto, eu não tenho onde fotografar, só se a gente morasse em outro país. Só de eu ir pros parques já estou correndo riscos, não tem como sair pelas ruas com  a câmera. Não, não tem problema você ir”.

– Muitas vezes parece que você está num ponto meio distante, e tantas declarações que eram ofensivas agora você não sente nada.

– Você não quer brigar, discutir. Parece que exige energia demais desperdiçada em algo totalmente inútil.

 

 

– Você escolhe com mais cuidado ainda como quer passar seu tempo. Como disse o Jap:

“Descobri que não tenho mais idade para fazer o que eu não quero fazer”.