Enfrentando meu tubarão

É comum ver que as pessoas que passaram por algum desastre ou acidente enquanto realizavam um hobby ou alguma atividade de que elas gostavam querem mesmo é voltar a fazer aquilo. Mesmo que com um braço a menos, uma perna a menos.

Talvez tenha algo a ver com não se sentir derrotado… imagino que não é difícil ter pesadelos, mas e se você puder falar pro monstro “eu não tenho medo de você. Você não vai controlar minha vida”.

Dois anos atrás perdi um pedaço da alma enquanto surfava na internet. Meu tubarão veio na forma de descaso, omissão, a não-ação da comunidade de birdwatchers que poderiam fazer coisas simples como em 30 segundos deixar uma mensagem de apoio pela liberdade pra fotografar, quando começamos as negociações com ICMBio e Fundação Florestal, mas não faziam, e o tubarão mordia mais doído ainda porque eu passeava pelas páginas e via as pessoas se manifestando pros temas mais diversos e mais idiotas – mas nada de gastar 30 segundos com os pedidos, que não foram só meus, eu sei que sou uma misantropa filhadaputa que não interage com ninguém, não comento ninguém, por que alguém ia atender um apelo meu mesmo sendo pra um assunto importante? Mas o próprio fundador do Wikiaves colocou um aviso na home sobre o assunto, e mesmo assim quase ninguém participou. E esse descaso me arrancou um pedaço.

Um pedacinho.

O pedação quem arrancou foi por ter que, pela primeira vez na vida, lidar com atuações mau caráter dentro da comunidade, inclusive de gente que eu admirava e achava que era puro idealismo e bondade. Durante meses, no segundo semestre de 2015, todos os dias eu entrava no Facebook, lia as dúvidas e reclamações, respondia, explicava por que a gente precisava de uma portaria. Com a paciência de Jó de uma assessoria de imprensa classe A. Então começaram as mentiras. Essa pessoa que eu admirava falou “a portaria vai obrigar todo birdwatcher a contratar um guia para poder andar num parque”, eu li aquilo e desesperei porque ele é uma pessoa importante e conhecida. Tentei ligar, não me atendeu. Mandei mensagem perguntando “por que você está falando isso? De onde você tirou isso?” nunca me respondeu.

No final eu respondi nas redes sociais e acho que ele não fez estrago, não apareceram mais pessoas contra o processo do que as que já estavam lá. Mas aquilo me doeu muito porque era alguém que eu admirava pra caramba, e a única explicação pra o que ele fez, conversando com amigos é: inveja.

Além desse cara, teve um outro que me fez propostas imorais. Era um dos caras que todo dia falava mal do processo, dizendo que estávamos errados em seguir esse caminho. Numa conversa inbox em que ele puxou assunto, perguntei “Mas por que você está sendo tão contrário se a gente já falou que é uma primeira versão, se a Fundação já deixou claro que podemos alterar a redação se algo não funcionar como devia?” Demorou vários segundos e ele respondeu “porque pra mim a situação não está ruim e eu tenho medo do que pode acontecer se mudar”, “pode não estar ruim pra você, mas está ruim pra mim e pra muitas outras pessoas que são proibidas de fotografar. Você não é proibido de fotografar, eu sou”, “Mas isso eu posso resolver. Da próxima vez que tentarem te barrar, você me liga, eu resolvo na hora”, “Não! Eu não quero resolver o meu problema, quero resolver o problema de todo mundo!”, “Claro, claro é o que eu quero também”.

Corrupção. Corrupção na porra do birdwatching, uma das coisas que eu mais gostava de fazer na vida.

 

Essas três coisas me arrancaram um pedaço da alma e me deixaram doente, doente mesmo. Eu faço checkups anuais há mais de 10 anos, e no de dezembro de 2015 foi a única vez que apareceram duas coisas: um pequeno tumor no seio esquerdo, Birads 3 “provavelmente benigno, mas faça controle de 6 em 6 meses”, e uma pedra na vesícula, que misteriosamente desapareceu no segundo e no terceiro ultrassons, mas se estivesse lá eu teria que extrair o órgão.

Fui embora.

Falei chega e liguei o foda-se, eu estava tão desconectada que quando a portaria foi publicada em março de 2016 eu li e não conseguia entender que era uma baita vitória, que eles tinham publicado quase tudo que a gente pediu, eu só consegui enxergar um pedacinho que eles tinham mudado em não explicitar que tripé também é permitido, e escrevi reclamando pro nosso contato na Fundação Florestal (um santo com paciência infinita). Meu colega do grupo (Não) É proibido fotografar ficou rindo de mim e me fez enxergar a realidade. Comemoramos, celebramos, pude escrever um post “chupa que é de uva”.

Ainda assim eu estava sem um pedaço da alma, e não queria mais me relacionar com questões políticas do mundo do birdwatching.

Mas nesse ano voltei. Em julho participei de reunião com secretário do meio ambiente e acho que minha participação foi importante pra acalmar ânimos, usei minha experiência como mediadora, ouvidora, pra mudar a sintonia das pessoas. E agora há uns dias, meio por acaso, me envolvi em outra situação de Facebook, em que de novo fiz um pedido pra comunidade (não era do mesmo porte, era só pra dar uma força num post do Estadão, pra mostrar que os birdwatchers existem), e de novo, quase ninguém foi. E de novo me envolvi em discussões, com gente atacando e reclamando, e de novo apareci como assessoria de imprensa classe A, respondendo todas as dúvidas com elegância e gentileza, sem entrar no clima de briga ou de irritação.

Recebi um monte de “parabéns”, “obrigado”, “você me representa”, “concordo com tudo que você falou”, inclusive mensagens inbox de guias famosos, me agradecendo pelo o que eu estava fazendo.

Não fiquei mais brava pelas pessoas serem omissas e um zero à esquerda em ações simplórias da vida política, como gastar 30 segundos pra fazer um comentário de apoio num post. Resisti à tentação de responder aos vários que me falaram “estamos junto, conte comigo”, não falei “beleza. Da próxima vez que eu pedir pra manifestar apoio num post, vai, e pede pros amigos irem também”, não falei nada, fui uma dama.

Consegui levar as coisas com muito mais leveza.

Usei táticas que meus opositores devem ter odiado. Não briguei com eles, não respondi comentário por comentário deles, não falei “fulano, você falou tal coisa mas na verdade é isso”, quer dizer, fiz isso no começo e depois vi que era o caminho errado. Em vez de bater boca com eles, escrevi textos compridos, com títulos, disseminando minhas ideias, e sem falar o nome dos opositores. O objetivo não era brigar com eles, e sim ganhar simpatizantes, ou dar argumentos pras pessoas entenderem e defenderem por que é errado burocratizar.

E com as várias pessoas dizendo “concordo”, “concordo, é isso mesmo”, “penso da mesma forma”, deixava claro pra eles que não será fácil eles insistirem na ideia de burocratizar e restringir.

Um dos opositores disse que devia haver controle sobre a atividade dos birdwatchers, algo como uma licença pra passarinhar como existe licença pra pescar (afinal, a gente mata muitas aves). Contei isso pra um amigo ornitólogo, que respondeu “a doença mental não tem limites”.

Mas acho que venci.

Meus opositores não falaram mais nada, e já avisei que logo vou desconectar (saio pra viajar de novo… na quinta… não sei se blogo de lá, ou se é só em janeiro). Talvez eles voltem a se manifestar, mas sei que haverá mais gente disposta a enfrentá-los, que eu ajudei a dar os argumentos e que eles sabem que não estão sozinhos na luta, que há muitas pessoas contrárias ao cabresto nas pessoas.

 

Venci o tubarão.

 

Ps: se você tiver qualquer curiosidade sobre o tema pode olhar meu Facebook. Os posts estão lá como públicos, nov/2017. Sei que uma das coisas que ajudou a atrair interesse é que algumas pessoas que viram meus posts tiraram printscreens do que as pessoas estavam falando e compartilharam em grupos de WhatsApp, então vários dos que se manifestaram já sabia que tinha coisas cabeludas pra lidar.