E se vivêssemos todos juntos?

As pessoas se afastavam cada vez mais da câmera, virando pontinhos na paisagem, mas ainda se ouviam os gritos pela mulher morta.

Eu já tinha me inclinado pra frente, porque estava tremendo muito e quase soluçando e achei que o cara na cadeira do meu lado, um lugar vazio depois, podia sentir meus tremores pelos encostos das cadeiras.

“Esse filme está acabando, esse diretor filho-da-puta vai terminar o filme agora, as luzes vão acender agora, eu estou aqui debulhada em lágrimas”.

Se me viram chorando tanto, não sei. Só olhei pra baixo e não vi a cara de ninguém da minha fileira quando passaram por mim.

Por quê?

Provavelmente por causa dos meus avós.

Porque meu avô tinha Alzheimer e também esquecia que minha avó tinha morrido. No dia do enterro meus pais re-contaram pra ele, ele gritou de dor, e participou do enterro sabendo o que estava acontecendo. Depois disso, a gente nunca mais precisou contar pra ele. “Cadê a K?” “Não está aqui” era a resposta, que eu nem sei se é verdade, e graças a Deus ele nunca insistia. Mas foi por pouco tempo. Dois meses depois ele também estava morto.

Então, quando o Albert pergunta “Cadê a Jeanne?”, e sai para procurá-la, os amigos o acompanhando, e quando eles entendem e resolvem gritar também, a plenos pulmões “Jeanneee! Jeanneeee!!” estou de volta à minha casa naquela cidade do interior e como eu queria poder gritar o nome dos meus avós. E ter resposta. Mesmo que fosse assombração.

* * *

Não falo disso, porque é muito mesquinho, mas já tive vezes de estar nessa cidade, e de repente ver na rua uma das amigas da minha avó. Essas pra quem a gente dava carona depois da missa do domingo, quando íamos buscá-la na igreja. Já se passaram tantos anos e elas estão lá, andando pelas ruas. Por que meus avós não?

Justiça: o filme não é triste nem dramático nem bobo. Triste-dramática-e-boba sou eu com essa ferida que nunca fecha, que nunca fecha, que é a saudade dos meus avós.